StatCounter

View My Stats

01/03/23

ESPIÕES OU ALIENÍGENAS?

Mário Martins

https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=espionagem+imagens



No momento em que o “bombardeamento” mediático sobre a espectacularidade da tragédia de uma guerra, a da Ucrânia, atinge níveis de saturação, guerra perante a qual paixões ideológicas mais exaltadas se mostram incapazes de distinguir o invasor do invadido, um país cuja independência foi internacionalmente reconhecida, desde logo pelo país ora agressor;

E em que uma guerra local, sangrenta e destruidora, parece cada vez mais tornar-se numa guerra entre uma Rússia imperial e o Ocidente, com o seu braço armado Nato, liderado por uma América superpotente, risco para o qual o antigo “caixeiro viajante” Henry Kissinger, há uns meses, chamou a atenção, servindo essa guerra latente Este/Oeste, para lá da real expansão da aliança militar ocidental, como uma útil cortina de fumo para justificar a agressão;

Os Estados Unidos terão abatido vários objectos voadores não identificados, mais conhecidos pela sigla “ovnis”, a qual não quer exclusivamente significar objectos voadores extraterrestres. Tratar-se-iam de balões espiões ou alienígenas? A avaliar pela experiência acumulada nunca saberemos, porque todos os países, sobretudo os grandes, se espionam uns aos outros (continuando Lisboa a ser um palco privilegiado, como relata a revista do Expresso de 17 de Fevereiro passado), embora todos o neguem, e que, por outro lado, no que toca a eventuais extraterrestres, mal grado a permanência de alguns casos de avistamentos por explicar, os estados não parecem predispostos a uma divulgação confiável.

Entretanto, apesar de terem sido já identificados 5.250 exoplanetas (planetas que orbitam outras estrelas), a incómoda pergunta do físico italiano Enrico Fermi, feita em 1950, perante as estimativas que afirmavam haver uma alta probabilidade de existirem outras civilizações no universo observável e a falta de evidência delas, mantém-se: onde estão (os alienígenas)?

UMA HISTÓRIA ALEMÃ

António Mesquita




Em "Morte em Veneza", filme de 1971, Lucchino Visconti socorre-se do adagietto da 5a. sinfonia de Mahler para nos transmitir aquela atmosfera de deliquescência sentimental e moral que envolve Aschenbach, a personagem interpretada por Dirk Bogarde.

No filme "Tár", de Todd Field, que promete uma auspiciosa carreira junto da crítica cinematográfica, o "adagietto de Visconti" é brandido pela regente como um exemplo de interpretação a evitar, por banal e demagógica. Mas foi a resposta do cineasta italiano ao drama finissecular do seu filme.

Numa entrevista ao "New Yorker", a propósito do prelúdio em dó menor de Bach, ilustrando o seu método pedagógico, Lydia diz que o compositor nessa obra faz perguntas e dá respostas continuamente, e, para quem ouve, são as perguntas que contam: envolvemo-nos mais quando temos de procurar as respostas por nós mesmos. É por isso que a maior parte da música que se ouve é preguiçosa e soporífera.

Parece com este intróito que o filme de Todd Field é sobretudo sobre música e a incultura musical. Mas a história de Lydia Tár (excelente Cate Blanchett) que cai abruptamente dos píncaros da Filarmónica de Berlim para o mundo dos vídeojogos pode ser uma ilustração da moda do cancelamento, em que as redes sociais, como se sabe, julgam na praça pública os pêlos púbicos das personalidades em vista do presente e do passado, mas o facto de se tratar duma maestrina americana a trabalhar em Berlim tem outra ressonância.

Fogosa, imperial e manipuladora, com a boa consciência de que tudo é feito pela arte, quem quer saber dos seus "rabos de palha"? Demasiado humanos somos todos. Porque não perdoaríamos ao grande artista os seus caprichos e as manias? Mas não é isso que Todd quer que relevemos.

O talento de Lydia é reconhecido. A sua condução é original, apaixonada, o que é um defeito para alguns. Numa aula, nas "Julliard Lectures" envergonha um aluno depreciativo de Bach pelo facto de ser cisgénero, ainda que no século XVII ou XVIII. Os insultos que ela recebeu em troca estão na ordem das coisas.

Lydia vive com uma alemã e ambas adoptaram uma criança. O retrato de Tár assume uma cor mais sombria quando, para responder ao "bullying" de que a menina era vítima na escola, aterroriza a criança agressora, com ameaças fora de tom.

A música é o astro que tudo ilumina. E estamos na Alemanha, país musical entre todos. O espírito que plana sobre as águas tem aí a sua pátria de eleição. Mas a história da Alemanha é o mais eloquente possível sobre a fragilidade desse espírito. A massa coral mais poderosa do mundo sucumbiu a um maestro surgido dos infernos da normalidade.

Esse transe parece repetir-se na história de Tár, a maestrina da Filarmónica de Berlim que ensaia a 5a. sinfonia de Malher no meio das atribulações que são as do nosso tempo. Questões de género e de religião ou da falta dela, redes sociais e desinformação. A sua vida privada descamba na desordem em que a música parece a bagagem que flutua num naufrágio.

Os curadores retiram-lhe o apoio. Perde o seu lugar. Como no filme de Coppola, uma excursão no sudoeste asiático parece-se com o embrenhamento na selva escura. Um estabelecimento de "massagens" oferece-lhe uma vitrina de jovens numeradas.

O prestíssmo do final responde à quase imobilidade da cena inicial em que peroram o entrevistador e a entrevistada, logo a seguir à inversão do lugar do genérico. Pretensiosismo ou tempo musical?

E a vocação? Estamos no seu nadir. A última cena do filme é um concerto sob a batuta de Tár num vídeo jogo, "Monster Hunter", em que os participantes enfiaram as máscaras do mundo animal. Todd filmou uma Paixão moderna ou a resistência da heroína que se transforma com a música?

SOBRE A MAÇONARIA

Manuel Joaquim

https://images.app.goo.gl/GYMnX4TChgorG3x58



De vez em quando somos confrontados na comunicação social com assuntos que despertam a nossa atenção pelo imaginário resultante dos comentários que os envolvem.

O tráfico de seres humanos, as redes de prostituição, a pedofilia, os assaltos a residências em pleno dia, a corrupção, o futebol e tudo a que está ligado, são assuntos que enchem páginas de jornais e tempos das rádios e televisões.

Violações de crianças e de jovens por pessoas com responsabilidades na igreja católica, as atrocidades cometidas pela inquisição, declarações políticas muito vivas sobre a denúncia de organizações ditas secretas e as tentativas de obrigar os políticos a declararem se são membros desse tipo de organizações, são assuntos que desaparecem rapidamente da comunicação social para levar ao esquecimento e passar a ser um não assunto.

Não vai muito tempo deparámos com um alto dirigente político a denunciar a maçonaria por alguns dos seus membros estarem a influenciar decisões políticas, a beneficiar personalidades e instituições, a pôr em causa determinados interesses.

Este tema desapareceu em virtude do tal dirigente ter deixado de ser dirigente e ter sido substituído por um companheiro que provavelmente é mesmo da maçonaria. Quando aquele protestou foi por sentir que ia ser corrido do lugar que ocupava, omitindo que quando foi lá colocado foi por influência da própria maçonaria.

Certa vez, há muitos anos, perguntei ao Professor Armando de Castro o que era a maçonaria. Respondeu-me, esclarecendo sobre as várias orientações existentes, mas que, no fundamental, eram organizações da burguesia para servir os seus interesses.

O Dr. António Arnault, que publicou a legislação que criou o Serviço Nacional de Saúde, foi Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, chegou a comentar publicamente sobre o mau comportamento de determinados irmãos, defendendo a sua expulsão da instituição, considerando que muitos aderiam para benefício próprio.

Estes assuntos são periodicamente usados para manipulação da opinião pública, que é vítima de toda uma política agressiva que vem do tempo do fascismo contra instituições que lutavam pelos direitos humanos, pela liberdade, pela democracia, naturalmente contra determinados partidos políticos e instituições, designadamente organizações maçónicas que, em determinados momentos históricos, contribuíram para o progresso da civilização.

O Grémio Lusitano, editou em 1928 uma folhinha com os “Princípios e Preceitos Maçónicos”, que diz:

Ama a Humanidade

Escuta a voz da natureza que te brada: todos os homens são iguais: todos constituem uma única família.

Tem sempre presente que não só és responsável pelo mal que fizeres, mas pelo bem que deixastes de fazer.

Faze o bem pelo amor do próprio bem.
O verdadeiro culto consiste nos bons costumes e na prática das virtudes.

Escuta sempre a voz da consciência: é o teu juiz.

Trata de te conhecer: corrige os teus defeitos e vence as tuas paixões.

Nos teus actos mais secretos supõe sempre que tens todo o mundo por testemunha.

Ama os bons, anima os fracos, foge dos maus, mas não odeies ninguém.

Fala sobriamente com os superiores, prudentemente com os iguais, abertamente com os amigos, benevolamente com os inferiores, leal e sinceramente com todos.

Dize a verdade, pratica a justiça, procede com rectidão.

Não lisonjeis nunca: é uma traição; se alguém te lisonjear toma cuidado não te corrompa.

Não julgues ao de leve as acções dos outros; louva pouco e censura ainda menos; lembra-te de que bem julgar os homens é preciso sondar as consciências e perscrutar as intenções.
Se alguém tiver necessidade socorre-o; se se desviar da virtude, chama-o a ela; se vacilar, ampara-o; se cair, levanta-o.

Respeita o viajante; auxilia-o; a sua pessoa é sagrada para ti.

Foge a contendas, evita os insultos, obedece sempre à razão esclarecida pela ciência.

Lê, aproveita, vê e imita o que é bom, reflete e trabalha; faze quanto possas para o aperfeiçoamento da organização social, e assim, contribuirás para o bem colectivo.

Sê progressivo; estuda a ciência porque ela te conduzirá à verdade que tens por dever procurar.

Não te envergonhes de confessar os teus erros; provarás assim que és hoje mais sensato do que eras ontem e que desejas aperfeiçoar-te.

Moraliza pelo exemplo; sê obsequioso; tolera todas as crenças e todos os cultos, mas tem por dever lutar contra superstição, o fanatismo e a reacção, como os mais resistentes obstáculos ao progresso humano.

Educa e ensina; esclarece os outros com o teu conselho, inspirado pela circunspecção e pela benevolência.

Regozija-te com a justiça; insurge-te contra a iniquidade; sofre os azares da sorte, mas luta contra eles no intuito de os vencer.

Procede sempre de forma que a razão fique do teu lado.

Respeita a mulher; não abuses nunca da sua fraqueza; defende a sua inocência e a sua honra.

Ama a Pátria e a Liberdade; sê bom cidadão, bom marido, bom pai, bom filho, bom irmão e bom amigo.

Quando fores pai alegra-te, mas compreende a importância da tua missão. Sê um protector fiel do teu filho; faze que até aos dez anos te obedeça, até aos vinte te ame, e até à morte te respeite. Até aos dez anos sê seu mestre, até aos vinte seu pai e até à morte seu amigo. Ensina-lhe bons princípios de preferência a belas maneiras; que te deva uma rectidão esclarecida e não uma frívola elegância; fá-lo um homem honesto de preferência a um homem astuto.

DA MAÇONARIA E SEUS PRINCÍPIOS

A Maçonaria é uma instituição universal, essencialmente filantrópica, filosófica e progressiva; tem por fim procurar a verdade, o estudo da moral e a pratica da solidariedade, e trabalha para o bem da Humanidade, contribuindo para o aperfeiçoamento da organização social.

Tem por princípios a tolerância mutua, o respeito dos outros e de si mesmo e a liberdade absoluta de consciência .

Considera as concepções metafísicas como sendo do domínio exclusivo da apreciação individual dos seus membros, e por isso se recusa a toda a afirmação dogmática.

Considera o trabalho como um dos deveres primordiais do homem, honrando igualmente o trabalho manual e o intelectual.

Tem por dever espalhar por todos os membros da Humanidade os laços fraternais que unem os maçons sobre toda a superfície da Terra, os quais se devem auxiliar, esclarecer e proteger, mesmo com risco da própria vida.

Recomenda aos seus adeptos a propaganda pelo exemplo, pela palavra e pela escrita, a fim de que o direito prevaleça sobre os caprichos humanos e sobre a força.

Como timbre, inscreve no seu código fundamental: Justiça – Verdade – Honra – Progresso.

Tem por divisa: Liberdade – Igualdade – Fraternidade.

No seu verdadeiro juízo quem é que pode pôr em causa semelhantes princípios?

Não me parece que pessoas saudáveis possam ir por esse caminho.


01/02/23

187






O ANO MIRACULOSO

Mário Martins

(https://www.almedina.net/autor/john-s-rigden-1564162794)




“O artigo da relatividade (restrita) de Einstein não tem paralelo na história da ciência, na sua profundidade, amplitude e puro virtuosismo intelectual.“
Arthur I. Miller, professor americano de história e filosofia da ciência


No seu livro “Sete breves lições de Física”, abordado em artigos anteriores na Periscópio, o físico italiano Carlo Rovelli, como que a servir um saboroso aperitivo antes de apresentar o prato forte (a teoria da relatividade geral publicada por Einstein em 1915), escreve que dez anos antes, em 1905, Einstein enviara três artigos à principal revista científica da época, e que qualquer um dos três valia um Prémio Nobel. O primeiro mostrava que o átomos existem, o segundo abria a porta para a mecânica quântica, e o terceiro apresentava a sua primeira teoria da relatividade (hoje chamada “relatividade restrita”).

De facto, nesse ano geralmente qualificado como miraculoso, melhor dizendo, no curto espaço de seis meses desse ano, Einstein deu à estampa além desses três mais dois artigos, todos concluídos entre Março e Setembro. Um deles forneceu uma maneira de determinar as dimensões moleculares num líquido, e constituiu a tese de doutoramento de Einstein. O outro é o da equação mais famosa: E = mc2.

Baseando-nos no livro em epígrafe do físico americano John S. Rigden (que transcrevemos sem grandes intromissões de leigo), comecemos pelo 4º. artigo, publicado em Junho, que é o mais conhecido, mas também o de mais difícil compreensão porque violador do que chamamos senso comum, que é o da teoria da relatividade especial ou restrita (restrita porque descreve a física do movimento na ausência de campos gravitacionais), ao qual Einstein deu o título “Sobre a Electrodinâmica dos Corpos em Movimento”.

TEORIA DA RELATIVIDADE (ESPECIAL OU RESTRITA)

À maneira típica de Einstein (concisa e sem fraseados desnecessários), o artigo abre com a exposição de uma contradição aparente: “É bem sabido que a electrodinâmica de Maxwell – como é geralmente compreendida actualmente – quando aplicada aos corpos moventes, leva a assimetrias que não parecem inerentes ao fenómeno”.

A seguir, no desenvolvimento do seu artigo, resolve a contradição com o estabelecimento de dois princípios:

O Princípio da Relatividade – As leis da física são as mesmas em todos os sistemas de referência inerciais ou, através de experiências físicas, um sistema de coordenadas inercial não pode ser distinguido de um outro sistema de coordenadas inercial.

(Um sistema de referência ou de coordenadas inercial é definido pela Primeira Lei do Movimento de Newton, que equipara o repouso e o movimento uniforme, que é movimento numa linha recta a uma velocidade constante);

O Princípio da Constância da Velocidade da Luz – A velocidade da luz é a mesma em todos os sistemas de referência inerciais, independentemente das velocidades quer da origem da luz, quer do detector da luz.

Destes princípios extraem-se consequências que revolucionaram a física.

Considere-se, por exemplo, uma chávena com café, imóvel numa casa. A casa é um sistema de coordenadas inercial que está em repouso relativamente à Terra. Uma segunda chávena com café está na bandeja de um passageiro num avião, voando à velocidade constante de 934 km/h. em atmosfera calma. O avião é um sistema de coordenadas inercial que se move a uma velocidade constante em relação à Terra. A Primeira Lei do Movimento de Newton diz que não há maneira de olhar para as duas chávenas de café, cada uma no seu respectivo sistema de coordenadas inercial, e decidir qual está em repouso e qual está em movimento.

Porque não há maneira experimental de distinguir entre sistemas de coordenadas inerciais em repouso e em movimento uniforme, da mecânica newtoniana extraiu-se um princípio, chamado princípio da relatividade, que simplesmente exprimia o facto de todos os sistemas de coordenadas inerciais serem equivalentes. Os sistemas de coordenadas inerciais ocupam o centro do palco na teoria especial da relatividade de Einstein.

Por outro lado acreditava-se, até aos inícios do século XX, que tal como uma onda sonora requer um meio de propagação (o ar em geral), as ondas luminosas necessitavam de um meio a que chamaram éter, o qual, logicamente, teria de estar distribuído por todo o universo. O problema é que todas as experiências efectuadas para o encontrar falharam. Einstein afirma que, em termos de física, a ideia de repouso absoluto não tem sentido. Com essa declaração liberta a física do éter, torna o éter, em repouso absoluto, “supérfluo”.

O comprimento é relativo. Uma viga de aço cuja medição dá três metros de comprimento para um observador que esteja ao seu lado (em repouso relativamente à viga) tem menos de três metros na medição de um observador que a veja a passar por si. Por exemplo, se uma viga de aço de três metros se desloca a uma velocidade igual a 10% da velocidade da luz, perto de 30.000 km/s, contrai-se em 1,5 cm; a metade da velocidade da luz, cerca de 150.000 km/s, contrai-se 40,9 cm. Como é evidente, o tamanho da contracção só se torna significativo para velocidades próximas da velocidade da luz. À velocidade da luz, a contracção é de 100%. A velocidades maiores do que a velocidade da luz, o comprimento da viga tornar-se-ia negativo. Visto que um comprimento negativo não faz qualquer sentido, Einstein declara que a velocidade da luz é o limite da velocidade da Natureza. Nada se pode mover mais depressa do que a luz.

Por sua vez, o tempo é também relativo. Nas palavras de Einstein, o tempo não está absolutamente definido, mas há uma ligação inseparável entre o tempo e a velocidade do sinal. O entendimento comum da simultaneidade era fundamentalmente defeituoso. Pressupunha-se que se uma pessoa observa que dois acontecimentos são simultâneos, todos os outros observadores concordarão que são simultâneos. Einstein percebeu essa falácia, e logo que a inspiração chegou, todas as peças se ajustaram num todo lógico.

Se pusermos em movimento um sistema de coordenadas inercial, juntamente com o relógio respectivo, quando este for visto em movimento a partir do sistema em repouso, estará atrasado em relação ao relógio em repouso. Os relógios medem o tempo, e os relógios em trânsito perdem tempo relativamente aos relógios em repouso (isso foi verificado levando um relógio atómico num voo à volta do mundo e comparando-o no regresso ao relógio que ficou imóvel). Os relógios têm muitos feitios e formas. Uma pessoa é um relógio. O ritmo metabólico de um indivíduo, tal como um relógio de pulso, marca o tempo e anuncia a aproximação da hora do almoço. Uma espécie de relógio interno regula o processo de envelhecimento. Tudo isto para dizer que se uma mãe tivesse de sair de casa numa longa viagem, a uma alta velocidade inimaginável, os seus relógios internos abrandariam em relação ao que deixou para trás, e a mãe poderia regressar mais jovem do que o seu filho que ficou em casa.

A teoria da relatividade de Einstein revelou coisas estranhas sobre a Natureza, (tal como a vemos)…

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva

Avinhão
(https://images.app.goo.gl/DT6ZkyncZ2Rm4JZS9)



Escrevo-te do mais improvável dos lugares. Estava longe de acreditar que pisaria as pedras desta cidade nas margens do Ródano. Há mansidão no caudal deste braço esquerdo que se estende junto à velha urbe. Esta brandura é o oposto do que vi quando um dia o atravessei na Camargue. Era o fim da tarde e o batelão que o cruzou teve de se esforçar para não ser arrastado. Mas aqui, desce tranquilo como se tivesse acabado de acordar. Na Sérvia, quase tinha desistido de Durrell, pois as suas Águias Brancas mais pareciam uma encomenda à medida da época, mas decidi aceitar o benefício da dúvida, pois muito me tinha cativado em Alexandria. Foi assim que cheguei a Avinhão, na Provença para o visitar e neste amanhecer amargamente gelado, caminho por estas ruelas estreitas carregadas de história à procura de uma padaria. Sinto-lhe a proximidade, pois chega-me navegando pelo ar o aroma de pão quente. Já uma ocasião me acontecera algo de semelhante nas travessas de Montpellier e quando encontrei o lugar de onde tal aroma provinha foi um momento feliz. É algo de semelhante que procuro na cidade que abrigou os papas do Cisma, no interior destas muralhas espessas que mandaram erguer como protecção do seu poder. No século IV, esta Igreja esteve em vias de desaparecer, não fosse o golpe de magia de Constantino, mas mil anos depois, não só governa como manda nos que governam, em nome de Deus, naturalmente. Após ter alcançado o bastão do poder, confundiu-se e misturou-se com as almas pecaminosas daqueles que mandam, quantas vezes a qualquer preço. Mas nem sempre e nem todos. Há dias, uma alta figura da Igreja peruana corajosamente denunciava em discurso à frente de uma Dina Boluarte, alçada em presidente da república do Perú, a tragédia de mais de setenta mortos a tiro pela polícia e o exército a mando de um governo da escumalha limenha. Foi uma voz autorizada e incapaz de abandonar à sua sorte aqueles dos povos originários que reclamam o que de direito merecem. Há poucos dias, Rafael Correa, antigo presidente do Equador, dizia que o império já não precisa de golpes militares para depor governos, nem de desaparecidos, antes utiliza juízes e uma imprensa corruptas. Piotr Simonenko declarava que em Kiev governa uma aliança entre a burguesia, o neofascismo e o crime organizado. Em comum têm estes governos bastardos, o apoio do «Ocidente colectivo» e dos EUA. Com que prazer o actual presidente da Assembleia da República apertava na sua época o prófugo da extrema-direita venezuelana que dá pelo nome de Juan Guaidó. E assim vamos repetindo os mesmos passos de há cem anos atrás. Em Roma, Francisco apela à paz na Palestina. Mas quem o escuta, quem ouve a voz desta Igreja que procura erguer-se em nome dos que menos têm? Os judeus do Estado criminoso de Israel, não, de certeza absoluta. Prefiro regressar às estreitas ruas de Avinhão e debruçar-me sobre a história, essa que estuda o passado e deixar que o presente se sedimente para ser tratado como deve e merece. Tinha passado um mês em Creta na companhia de Kazantzakis e no imenso diálogo que tivemos, dizia-me que vivemos um tempo de Idade Média, não no sentido negativo que quase sempre lhe damos, mas antes naquele que foi de facto, um Interregno entre o mundo Antigo e o Moderno. Esclarecia o escritor cretense que todos os momentos de interregno na história são dolorosos, é o parto de algo novo que custa a nascer enquanto o velho resiste antes de desaparecer. Teve razão antecipadamente. As democracias coloniais, entraram num beco sem saída e sem recuo e gritam desesperadamente ao verem escapulir o mando de quinhentos anos de desvario sangrento, mas a história já não regressa de onde veio. Como alguém escrevia, «os impérios morrem, matando». Ah, como gostaria de te escrever palavras doces deste mundo que nos contempla e se projecta nos nossos olhos, mas não é fácil encontrar ternura quando vivemos num espaço temporal em que um sorriso já é um acto de coragem. Lembras-te do 16 que nos levava à praia e descia a avenida em velocidade estonteante com toda aquela gente pendurada protegendo com as mãos as costas uns dos outros para não baterem nos postes de cimento que seguravam as catenárias? Foi num carro desses que um dia entrei. Era o carro da história da humanidade e foi para ele que saltei. Pé no estribo, braço enrolado no varão, por aí tenho ido todo este tempo. Nunca saltei, nem desisti, é a minha viagem para Ítaca. Sinto cada vez mais próxima a fragrância do pão a sair do forno e anseio por sentir o estalar da crosta tostada que cobre o miolo quente. Para outra ocasião conto-te o que vi nesta cidade que foi papal por cem anos. 
View My Stats