António Mesquita
(T.E. Lawrence)
"A maior parte das pessoas, naquele tempo, não prestava atenção ao curso geral dos acontecimentos, sendo guiada apenas pelos seus interesses privados — e eram precisamente essas pessoas cujas atividades, nesse período, eram mais úteis. Aqueles que procuravam compreender o curso geral dos acontecimentos e nele participar através do sacrifício pessoal e do heroísmo eram os membros mais inúteis da sociedade; viam tudo ao contrário, e tudo o que faziam pelo bem comum acabava por se revelar inútil e absurdo — como os regimentos de Pierre e de Mamonov, que pilharam aldeias russas, e a gaze que as jovens preparavam e que nunca chegava aos feridos, e assim por diante."
("Guerra e Paz", Leão Tolstoi)
Tolstoi ajuda-me a compreender Lawrence.
David Lean, que nos deu dos maiores épicos do cinema e dos mais populares, realizou em 1962, provavelmente, o seu maior êxito: "Lawrence da Arábia".
O herói do filme não podia ser mais controverso. Um inglês de Oxford, imbuído da grande cultura clássica, capaz de troçar das instituições e dos protocolos, com um belo sentido de humor, constrói frente a uma cultura fatalista, nos seus antípodas, um mito em que, a princípio, só ele acredita, mas que, muito antes dos media modernos, se impõe a homens práticos e divididos pelo ódio tribal, através do exemplo prático e do credo pessoal de que "nada está escrito".
De encontrar o rei Faisal (Alec Guiness), como fautor da unidade possível entre Hararis, Howeitat e outros corpúsculos em que sempre se dividiram os povos do deserto (a sua definição de deserto dada ao jornalista americano - Arthur Kennedy - não deixa dúvidas sobre o seu cariz ético: Lawrence gosta do deserto porque é limpo), ao ataque a Aqaba por terra, através do deserto de Nefud que ninguém tinha tentado antes, a ponto da fortaleza turca ter todos os canhões virados para o mar, foram empresas que inspiradas pela política colonial inglesa não deixavam de servir, por um tempo, a proto-nação árabe oprimida.
Mesmo no final da aventura de T.E. (Thomas Eduard), quando as tribos que chefia ocuparam Damasco, impedindo os Ingleses de se vangloriarem de libertadores, com o seu domínio associado, é ainda a ambiguidade do cometimento que ressalta. O conselho árabe proclamado à chegada à velha cidade síria fica, em poucos dias, reduzido a um punhado de seguidores mais fiéis, porque o grosso do contingente tribal abandona a cidade para regressar ao deserto com o saque.
O 'herói' não deixa de ser visto na sua verdade humana pelo jornalista e pelo mais fiel dos seus companheiros, Sherif Ali (Omar Sharif), depois do ataque selvático, "sem prisioneiros", a uma coluna turca antes de Damasco. O seu "gosto do sangue" é sobretudo uma revelação para si próprio e está na origem do mal-viver a que põe termo com o seu "suicídio" na moto com que começa a narrativa.
No funeral, na catedral de St. Paul, também, os comentários não poupam o estilo histriónico da personagem que, porém, não põem em causa a coragem e o génio.
Quando se revê a obra-prima de Lean, a primeira constatação é o carácter histórico, ligado a uma época que não pode ser ressuscitada, deste filme e do seu tratamento da personagem. Não é só o tom épico e a construção quase didáctica da personagem, com os exemplos de bravura sempre pagos com o próprio corpo.
Numa cena depois de Aqaba, quando Lawrence é acareado e torturado pela polícia turca, há uma nuance de erótica homossexual que o "herói" rejeita violentamente, com as piores consequências para si próprio. A anedota só tem interesse por assinalar, uma vez mais, a ambígua complexidade da sua psicologia. Numa versão moderna, aliás, seria a pormenores como este que a história recorreria para despertar o interesse do espectador.
Interpretar o filme de Lean à luz do pensamento de Tolstoi, em "Guerra e Paz", é o caminho mais directo para sair da psicologia de Lawrence, mesmo se o filme não é um panegírico, evidentemente, a complexidade da personagem é por de mais patente.
É a proibição de provar da "árvore do conhecimento", de origem bíblica, que explica a filosofia do escritor russo.
As tribos árabes que abandonaram o seu ídolo inglês depois do saque de Damasco é o melhor exemplo. Tal como a tropa russa que abandonou Moscovo às chamas, à chegada de Napoleão, não foi o ódio aos franceses nem a promessa de se vingarem que ocupou os seus espíritos, "mas o próximo soldo, o próximo aquartelamento, Matreshka, a vivandeira e coisas do género."
Os ingleses, em Damasco, tiveram que, relutantemente, contemporizar com Faisal e este de se ver, uma vez mais, como a cabeça dum reino inexistente.
Auda Abu Tayi (Anthony Quinn) e os seus Howeitat foram por um momento a força de emancipação da unidade árabe, mas só na cabeça de Lawrence. Os interesses tribais prevaleceram sempre e, como diria Leão Tolstoi, foi sendo isso que eles puderam ser úteis para o "progresso geral"...
A "paixão" do "scholar" inglês e a sua transformação interior numa criatura sedenta de sangue só podiam acabar (e começar) no desastre.
Sem comentários:
Enviar um comentário