01/04/21
NO CORRER DOS DIAS
Marques da Silva
Vanino – Há vários dias que estou
nesta pequena cidade nas margens do Pacífico. Deambulo pelas ruas e arredores.
Procuro o litoral mas não é fácil um acesso nas proximidades. É uma cidade
portuária, mas inserida dois quilómetros no interior de uma baía. Caminho bastante
até alcançar um lugar onde possa espraiar o olhar pela imensidão do Pacífico.
Fico até tarde, ainda iludido que vou apreciar o sol a partir, só que aqui
nasce no mar e desaparece nas minhas costas, no interior da Sibéria. Deleitei
os olhos uma tarde, em que excepcionalmente o céu se abriu em azul, com um
clarão vermelho. Nos dias restantes é um céu cinzento e um ar frio que povoam
os dias. A temperatura está muito aceitável se comparada com a da cidade
anterior. Não sobe muito mas também não baixa dos menos cinco graus. As cidades
siberianas têm muito de comum no edificado habitacional. Vanino não é excepção.
Bairros residenciais construídos pelo regime soviético, bastante idênticos.
Havia a necessidade de construir muito e rápido para que todos tivessem uma
habitação. Utilizaram edifícios pré-fabricados através dos quais obtinham o
resultado desejado e o conforto essencial face ao rigor deste clima. Quando o
regime caiu e as casas estatais foram vendidas numa espécie de mercado negro, o
problema da habitação ficou resolvido, quem tinha dinheiro comprava, os
restantes saíam. A consequência desse momento áureo do capitalismo são agora
nos arredores das cidades imensas casas de madeira, grande parte em ruínas ou
com manutenção deficiente, uma ou outra, bem conservada. Não são propriamente
bairros de lata, mas percebe-se que são zonas de pobreza, insuficiência de
rendimentos, de gente cujos direitos sociais ruíram com o Estado. Os grandes
blocos antigos começam a ser recuperados. Quando observamos com atenção fica a
ideia que a sociedade russa começa a sair do torpor em que a euforia do
capitalismo a mergulhou nos últimos trinta anos. Afinal a conquista da
liberdade arrastou consigo 50 milhões de pobres, numa sociedade que não
conhecia a miséria. O Inverno é sempre deprimente e aqui um pouco mais por ser
longo. A neve já não cai com tanta intensidade. Há sinais de degelo, o que faz
nascer a água e lama que misturadas apresentam um semblante ainda mais triste da
paisagem. As árvores estão ainda longe de ver o verde cobri-las, têm as folhas
queimadas e os ramos despidos. É uma melancolia nostálgica que sobrevoa a alma
quando tentamos imaginar a Primavera que aqui não existe. Anton Tchékhov disse
da Sacalina que não tinha estações do ano, apenas mau tempo. Esta grande ilha
surge do outro lado deste litoral e em dias límpidos quase se avista, o que me
faz recordar que, aquando da sua visita, há mais de cem anos, Tchékhov poderá
ter sentido algo semelhante ao que vivo neste momento, uma tarde em que
escreveu o seguinte, “De um lado,
tínhamos uma vista ampla sobre o Posto e arredores; do outro, víamos o mar
sereno que brilhava à luz do Sol. A falésia estava cheia de campas e de cruzes.
Lado a lado, erguem-se duas grandes cruzes: são as campas de Mitsul e do
inspector Selivánov, assassinado por um recluso. As pequenas cruzes das campas
dos deportados são todas iguais e todas anónimas. Mitsul ainda será recordado
por algum tempo, mas de todos esses homens que repousam sob aquelas pequenas
cruzes, desses homens que mataram, arrastaram correntes, que se evadiram,
ninguém terá necessidade de se lembrar deles.” O escritor russo permaneceu
em Sacalina durante o Verão de 1890, numa estadia de três meses entre o Norte e
o Sul da ilha. Sacalina começou a ser povoada na segunda metade do século XIX.
Povoada é um termo colonial, pois esquece as tribos autóctones que há muito a
habitavam. Os primeiros colonos e milhares de presos deportados que iniciaram
os assentamentos populacionais, viveram terríveis e indescritíveis provações. Tchékhov
faz-nos um relato muito vivo e impressionante e quando escreveu as palavras
citadas, estava no fim da sua estadia e na sua escrita nota-se o cansaço de
tudo o que viu e com que conviveu. Numa outra ocasião, talvez sentindo
nostalgia da Rússia europeia, aborda as saudades que toda aquela gente transportava
na alma, «A saudade manifesta-se em forma
de recordações permanentemente relembradas, tristes e comovedoras, acompanhadas
de queixumes e de lágrimas amargas, ou sob a forma de sonhos irrealizáveis que
muitas vezes nos surpreendem pelo seu carácter absurdo e delirante, ou ainda
sob a forma de um indubitável desarranjo mental.” A Sacalina hoje é um
lugar aprazível. Certamente isolado como qualquer ilha, mas cujo tamanho faz
esquecer esse isolamento. A Sibéria também conheceu profundas alterações e o
desenvolvimento ferroviário quebra um pouco o afastamento de todos aqueles que
vivem nas pequenas aldeias que foram surgindo ao longo da via-férrea. Como
disse, sente-se um renascer da antiga Rússia, com o Estado organizado e os
investimentos assentes em projectos. Quando saía de Tinda, bem no interior
siberiano, li a notícia de que, na parte superior do Baikal, com a mágoa de não
ter visto as suas águas azuis transparentes, estava a ser inaugurado nas suas profundezas
um observatório de neutrinos que irá ajudar a “entender como funciona o universo”. Mais uma vez no interior da
floresta siberiana a ciência progride. De Tinda para o litoral, o BAM a
Magistral linha ferroviária atravessa espaços menos povoados, apenas aldeias e
uma cidade com dimensão, a qual tive pena de não visitar, Komsomolsk-na-Amur. É
uma cidade que se estende pela margem direita do Amur com grandes espaços
verdes e abertos, muito bela no Verão. Talvez regresse um dia, de visita longa.
A noite aproxima-se com rapidez enquanto caminho em direcção à cidade. São
essas horas silenciosas e do crepúsculo que nos faz sentir o isolamento e a
solidão como um peso. Amanhã ainda vou vaguear por alguns espaços de Vanino,
para no dia seguinte embarcar, por fim, em direcção a Kamchatka, através do Mar
de Okhotsk até Petropavlovsk.
As citações de Anton Tchékhov, foram extraídas do seu livro, “A Ilha de Sacalina”, Relógio D’Água
Editores, Abril de 2011
O QUE SE PASSA NAS RUAS
Manuel Joaquim
Aqui há uns tempos os jornais falavam de forma muito viva que
a cidade do Porto estava a ser inundada de AL que estavam a pôr em causa o
alojamento de muitas famílias. Com o vírus a maior parte dos AL não estão ocupados
por falta de turistas. Alguns deles estão a ser utilizados por pessoas que
estão confinadas para não estarem a viver com as suas famílias e por jovens
deslocados quer nacionais quer estrangeiros. As suas receitas não compensam as
despesas.
Na parte central da cidade, muitas ruas continuam com uma quantidade
muito grande de prédios entaipados, em derrocada, sem solução à vista. Pelos
vistos, os AL não foram suficientes para acabar com essas tristes vistas.
Entretanto há zonas da cidade que estão a ter profundas
alterações. A transformação de grandes imóveis em hotéis não abranda. Novas
construções de muitos dezenas de milhões continuam, privilegiando zonas
universitárias, zonas industriais e zonas de fácil acesso a transportes
públicos – Metro, comboio e avião. Muita dessa construção destina-se a
alojamento de estudantes/trabalhadores e a grandes áreas de serviços. São
instituições financeiras, fundos de investimento, nacionais e internacionais
fechados com interesses noutras áreas, nomeadamente na construção e nas novas
tecnologias, e multinacionais.
Instituições religiosas, conhecedoras das modificações que
estão a acontecer na sociedade e na economia, estão também a transformar
propriedades que possuem no Porto para alojamento de estudantes/trabalhadores
deslocados.
Na zona da Lapa vai nascer um grande empreendimento,
destinado a serviços, estrategicamente localizado.
A cidade do Porto tem escolas e universidades de boa
qualidade que formam muitos jovens nacionais e internacionais nas áreas das ciências,
das matemáticas, das tecnologias.
As empresas tecnológicas recrutam muita mão-de-obra qualificada.
São criadas condições de alojamento em pequenos espaços, simpáticos, com áreas
de convívio, com transportes acessíveis, locais, regionais e internacionais. Os
locais de trabalho são espaços abertos, com aparentes requintes. Tirar o
calçado à entrada, local para estacionar as bicicletas, horas de entrada mas
não de saída, pausa para comer, a não existência de “chefes tradicionais e
autocráticos”, mas “gestores”. Estes jovens trabalhadores, altamente qualificados,
têm salários em média acima do salário mínimo mas muito inferiores aos salários
que são pagos noutros países da Europa. Estas empresas já não precisam de se
instalar na India para pagar salários baixos. Novas roupagens para continuar a
exploração do trabalho.
Quem estiver com atenção ao que se passa nas ruas verifica a
passagem de centenas de motociclistas com contentores às costas a transportar
comida. Durante a noite são às dezenas que se juntam à porta de pizzarias e de
restaurantes take-away. São as plataformas digitais a funcionar com
trabalhadores sem contratos de trabalho sem regras a maior parte imigrantes e
estudantes. É um outro tipo de exploração que grassa a criar novos escravos.
PODE-SE MUDAR DEUS?
António Mesquita
https://www.camarasjc.sp.gov.br/noticias/5587/projeto +proibe+malabaristas+e+acrobatas+de+rua+nos+cruzamentos |
"Quem dá aos pobres, empresta a Deus". Porque Deus devolve com vantagem. Nesta troca, no simbólico, derrama-se todo o valor. Todas as riquezas são niveladas pelo Espírito. E quem dá recebe logo, pela necessidade que reduz em si mesmo. O homem que calcula, esse perde sempre, naquela acepção.
Um operário, que numa empresa de serviços se mantinha ligado ao trabalho das mãos, disse-me uma vez que era dos que dava esmola, apesar de saber que era mal feito, porque as pessoas assim não lutavam pelos seus interesses, nem por sair da miséria.
Isto pressupõe que a luta é uma daquelas decisões caídas do céu e que o meu operário pensa hipócritamente. A sua esmola tem o resultado imediato de aliviar a sua própria má-consciência, mas apenas para engendrar uma nova contradição. O pobre que vive da caridade é duas vezes escravo. Infelizmente, o caminho que este raciocínio deixa aos deserdados é o de morrerem à fome ou o de recorrerem à violência. O dr. Jivago dizia que o corpo do doente não é um cadáver que possa ser dissecado.
Associação alguma de indigentes é credível no plano político, porque precisaria de tudo. E o que se verifica é que não basta ter interesse na mudança para mudar, ou sequer ter existência política.
Esses pobres que foram reduzidos à exposição das suas chagas não são, contudo, os que mais comovem. Muitos pensarão que é mais humano viver com os aleijados do corpo e da alma, em espectáculo – como símbolos contra a vaidade dos homens -, do que isolá-los. E por que há-de ser uma solução mais justa condenar um homem à solidão do que a caridade aldeã?
Não são os que não podem ser livres que nos atingem mais fundo. É a força encadeada. Como se tivéssemos à nossa frente o resumo da sua rápida decadência futura. Impressiona-nos porque é um verdadeiro sacrifício ao Moloch. É a esses que os “bons cidadãos” querem afastar da sala de visitas da sua cidade. Por isso, os malabaristas de rua que aproveitam a paragem obrigatória dos semáforos para exibirem as suas habilidades atingem um ponto fraco. A sua juventude, a sua dignidade, são preservadas, mesmo se à custa duma inutilidade imposta. O mito da força de vontade e da igualdade de iniciativas nunca tem um desmentido tão cruel e peremptório.
A luta que é possível aos deserdados não é civilizada. A afirmação do direito à vida, a energia e a força varonil só têm uma saída: o crime. A uma sociedade que assim os condena à morte eles têm o direito de resistir por todos os meios. E não é esse o motivo da secreta admiração dos que vivem segundo as leis por esses outros que fazem a sua própria lei? Mas a verdadeira nobreza não se habitua. E torna a luta contra a sociedade madrasta num suicídio exemplar. O criminoso força-os ao espectáculo da sua morte e a olhar as suas mãos sangrentas
É conhecida a paixão dos americanos pelos heróis românticos da série negra do cinema. É ainda o mito do "self-made man".
No fundo, a caridade sofre uma metamorfose útil na boa consciência tanto dos conformistas como dos inconformados.
A POLÍTICA DA COVID
Mário Martins
Yuval Noah Harari
(Veja.abril.com.br)
“A Humanidade não pode evitar o
aparecimento de patógenos novos. Este é um processo evolucionário natural (…)
Mas a Humanidade tem hoje o conhecimento e as ferramentas necessárias para impedir que um novo
patógeno se espalhe e se torne uma pandemia. Se, apesar disso, a covid-19
continuar a espalhar-se em 2021 e a matar milhões ou uma pandemia ainda mais
mortífera atingir a Humanidade em 2021, isso não será nem uma calamidade
natural incontrolável nem um castigo de Deus. Será um
fracasso humano e – mais precisamente – um fracasso político.”
“Lições de um
ano de Covid”
Financial Times/Revista Expresso
12Mar2021
A leitura deste aliciante ensaio do reputado autor israelita, remete-nos para a velha metáfora da garrafa meio vazia meio cheia: “Muitas pessoas acreditam que o preço terrível do coronavírus demonstra a impotência da Humanidade face ao poder da Natureza (garrafa meio vazia). Na verdade, 2020 mostrou que a Humanidade está longe de ser impotente. As epidemias já não são forças incontroláveis da Natureza. A ciência transformou-as num desafio gerível (garrafa meio cheia). Então, porque é que houve tanta morte e sofrimento? Por causa de más decisões políticas”.
Harari aponta
especialmente o dedo, com toda a razão, aos “Presidentes populistas dos Estados
Unidos e do Brasil, que menosprezaram o perigo, recusaram ouvir os
especialistas e em vez disso promoveram teorias da conspiração. Não produziram
um plano federal de acção adequado e sabotaram tentativas de autoridades
estaduais e municipais para deter a pandemia.” E acusa: “A negligência e
irresponsabilidade dos governos de Trump e Bolsonaro resultaram
em centenas de milhares de mortes evitáveis.”
A tese de Harari é que o problema deixou de ser científico para ser político, transmitindo, implicitamente, a ideia de que a complexidade apenas reside no campo da investigação científica e não também na esfera da decisão política. Bastaria a esta seguir a mesma linha de racionalidade de que aquela não pode abdicar. Como diz Harari “nestes tempos de pandemia, a cooperação global não é altruísmo. É essencial para garantir o interesse nacional (…) É que, se um novo vírus saltar de um morcego para um ser humano numa aldeia pobre de alguma selva remota, em poucos dias esse vírus pode estar a passear em Wall Street.”
No entanto, a expectativa de que,
após o sucesso científico, tudo seria politicamente fácil, falhou. A política
está longe de apenas se guiar por critérios de racionalidade. O mundo das
coisas globalizou-se mas a mentalidade (sempre atrasada…) ainda é
predominantemente local. Políticos como Trump e Bolsonaro continuam
a ter grande adesão popular, apesar da sua evidente irresponsabilidade. É,
aliás, oportuno sublinhar que os sucessivos avanços científico-tecnológicos
alimentam constantemente a complexidade própria da política. Veja-se, como
exemplo, este curto excerto de um interessante ensaio de Francisco Louçã sobre
as redes sociais, publicado no mesmo número da revista do Expresso: “Um quinto dos tuítes políticos que
circularam no período decisivo da campanha que elegeu Trump, em 2016,
foi criado por robôs de origem desconhecida, e as notícias falsas “trumpistas”
foram partilhadas 30 milhões de vezes.”
Afinal de contas, a denúncia e as acusações políticas de Harari
põem, paradoxalmente, em causa a sua conclusão (apenas baseada nos avanços
científicos alcançados num prazo espectacularmente curto) de que “a Humanidade
está longe de ser impotente”.
Harari termina o seu
artigo afirmando que, se as coisas voltarem a correr mal no futuro, “será um
fracasso humano e – mais precisamente – um fracasso político.” Mas uma vez
reconhecido que a complexidade está tão (ou mais) presente na política como na
ciência, torna-se mais realista admitir a grande probabilidade de as coisas
voltarem a ser mal geridas no futuro, evento que, sem dúvida, não deixará,
todavia, de constituir um fracasso humano.