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01/10/26

REGRESSO A VALE ABRAÃO

António Mesquita




Por estes dias revi o  filme de Manoel de Oliveira, premiado em Cannes, de 1993, "Vale Abraão". Parece que o tema do "bovarismo" foi sugerido pelo cineasta a Agustina e ela não se fez rogada. Escreveu um texto tão próprio e desafiante para qualquer cineasta, que as dificuldades de transposição para o cinema são mais do que evidentes.

Neste aspecto, o erro de apreciação mais natural é tomar as soluções "ad hoc" por características do estilo. Para além do que, Oliveira fez uma versão livre do texto de Agustina e que nela não deixou de lhe dar um cunho pessoal.

Passaram-se mais de vinte anos e não creio que hoje se possa ver o filme, que mereceu os maiores encómios a Bénard da Costa,  com os mesmos olhos, pasmados para a novidade do estilo descosido e dito teatral do ralizador. E o problema não é só o desafio de adaptar o texto  de Agustina Bessa-Luís que  não escreveu para o cinema nem nunca o faria sem se descaracterizar. Mas um eco da obra-prima de Flaubert não podia deixar de interessar a romancista. E a mulher frustrada no casamento, que tropeça em aventuras extraconjugais e  se envena com arsénico ou se faz esmagar por um combóio como a Karenina - a Ema de "Vale Abraão" deixa-se afogar no rio Douro -  é um filão para explorar em imagens  ou cenas estáticas que Oliveira, se esquecesse a "voz off" de Agustina, levaria a bom cabo, sem qualquer dúvida. Sabendo que a imobilidade deste cinema e a sua artificialidade procurada, teriam que influenciar o débito do filme, como em obras tais como "O passado e o presente" ou "Benilde ou a Virgem Mãe", deveríamos confundir com isso os solavancos do ritmo e a falta de graça do conjunto?

As cenas em que se estabelece um diálogo entre Ema e as outras figuras acabam muitas vezes numa narração que já nada tem a ver com a situação. As observações psicológicas ou acções de uns e outros prosseguem, enquanto a cena inicial fica parada no tempo. De resto, a inanidade do diálogo, como na cena com João Perry e aquelas em que entra Luís Lima Barreto que não vem da escritora mas dão corpo ao filme,  não são exemplos do estilo de Oliveira e são meros recursos de estofagem.

A paisagem duriense, um dos grandes trunfos do filme, é remetida para o bilhete postal, muito por colusão com os trechos de música clássica escolhidos e arqui-conhecidos. O decorativo aparece assim em cada pausa da acção. Desde Chaplin que a música original é a melhor receita. Assim, parece-nos que estamos a apreciar os gostos do homem por detrás da câmara e não a deixar-nos comover pela mensagem do filme.

A admiração de Bénard, como neste trecho que cito: "Também Ema escolheu para morrer um dia de sol (depois de três dias de chuva).  Antes de meter o pé nas pranchas podres, a câmara “sugou-a” até elas num travelling par trás, genial (um desses movimentos de câmara que assina a genialidade de um artista) em que a coroa por cima da cabeça dela são as laranjas, fruto solar e fruto outonal.  Vale Abraão ensina-nos o caminho da lua para a morte. Ou da luz para o sonho. Ou a luz como fonte e mistério do cinema. Acenderam-se as luzes (focos, projectores) e podemos aceder à câmara escura, ou iniciar a viagem aos infernos." deixa-me desconfortável  na minha apreciação. O bonitinho está lá e essa é uma das cenas mais características. 

A beleza de Ema, a "Bovarinho", que a exila do amor e a confunde numa simulação enlameada é, em Agustina e em Oliveira, de forma menos conseguida, a ideia central da obra, muito para além do tema de Flaubert.

Na elipse do final, com a prancha partida e o som do mergulho do corpo na água, enquanto se conclui a vida da protagonista  como uma pintura de El Fayoum, caídas as máscaras, narra-se a morte ocorrida pouco tempo depois de Carlos Paiva, o marido ausente/presente. Por uma vez, o estilo de Agustina prevalece, desaparecidos os actores (não insinuando qualquer falta da sua parte; Leonor Silveira, no papel de Ema, é extraordonária).

VERDELHOS SEM REDE

Mário Martins


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Verdelhos, Serra da Estrela, a cerca de 2,45 h. de carro.

É preciso querer ir a Verdelhos, porque esta aldeia de montanha, com cerca de 500 habitantes pelo censo de 2021, a 20 kms. da sede de concelho da Covilhã, não é sítio de passagem.

Na casa onde estivemos, a 4 kms. do centro da freguesia, no meio de nenhures, não havia electricidade, apenas uns pontos de luz alimentados por uma bateria. Muito menos havia rede de comunicações. Um regresso ao passado como se  este fosse uma novidade do futuro, largamente compensado pela ausência do fardo dos trágico-grotescos noticiários televisivos e da crise da verdade alicerçada em factos.

Vindo da montanha, o rio, de leito rochoso, também chamado de ribeira de Beijames, divide a povoação ao meio, e é um chamamento a quem gosta de mergulhar, apesar de a sua temperatura não ser propriamente convidativa.

Verdelhos é uma povoação muito antiga que data da época dos romanos. Há vestígios arqueológicos de um castro luso-romano. A paleta de tons verdes que a cerca, terá dado origem ao nome da terra. A par da cultura do milho, da batata e do feijão, e da criação de espécies bovinas e caprinas, as principais actividades desenvolvidas são a construção civil e a silvicultura.

Um rebanho de cabras desce a encosta contra o pano de fundo da serra.

01/09/26

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Vila do Bispo. Prossigo o caminho, mas afastada da via férrea, o que me entristece o olhar, mas a Costa Vicentina reclamava a minha necessidade de infinito. No comboio descansamos o corpo e a alma e a natureza corre em sentido oposto ao nosso criando-nos a ilusão que vamos ao encontro do seu passado. Os seres humanos são os únicos que no planeta podem, na sua vida, olhar para a viagem da história, conhecer, analisar e reconstruir a vida humana até ao momento em que se encontram, mas nunca saberão o que ocorrerá após o final da sua viagem, a qual parece mais uma visita do que um tempo de vida. Por estas terras litorais e atlânticas também do tempo pretérito sabemos, podemos recuar a Idades como a Calcolítica ou do Ferro, como a vivência humana por aqui se instalou na recolha de metais entre a pré-história e o nascimento da escrita e da sedentarização. Em Cercal do Alentejo, falaram-me de barita, manganésio e manganite, por vezes quartzo, minerais ferrosos, mas aqui explorados já num tempo menos tardio. A vila não me cativou, não encontrei aquela chama escondida que nos impele para o desconhecido e preferi a aventura marítima de Vila Nova na foz do Mira. Com rio e mar é como atrair por sucção povos do passado que à aventura do comércio e da rapina andavam. Dos Fenícios e Cartagineses aos Gregos e Romanos, o território da hoje Vila Nova, foi sustentando a permanência de povos e gentes, somando conhecimento, vivências e culturas que enriquecem a comunidade do presente. Naturalmente que se seguiram Alanos e Visigodos a quem o Califado Omíada havia de afastar. Cinco séculos depois chegaram os monges-soldados da Ordem de Santiago com quem vimos tropeçando a cada passo da nossa caminhada. Não falta história a esta povoação que hoje em dia agrega mais de cinco mil pessoas. Os meus olhos estão presos na cor da água, a alma vai-se perdendo em lembranças de quem não vemos e entre hoje e o amanhã, apesar dos nossos passos já nos orientarem para Sul ainda procuramos uma pequena casa que há muito nos atraiu e encantou. Havia qualquer coisa de sublime naquele pequeno recanto de uma parede branca com duas janelas e uma porta. Lá estava, sem mudar de lugar, a buganvília continuava viçosa, mas sem flor e uns ramos débeis erguiam-se ornamentando a entrada. Com o sorriso que nasceu, e as lembranças que chegaram, quase não senti o tempo que me levou até à falésia do Farol do Cabo Sardão. Estes edifícios que residem solitários sobre o mar numa vigília mútua atraem-me como uma vertigem. A beleza da paisagem marítima, a solidão que nasce de ermos lugares, com os silêncios ventosos que chegam, inserem em nós um sentimento aconchegante de ternura. É como uma espécie de eternidade que nos rodeia, nos enleia em abraços e nos deixa num misto de querer e não poder, seja o que for. Acode-me à memória o pensamento de Unamuno quando perante mares de beleza, sente a necessidade de um amigo com quem pudesse comungar daqueles instantes emocionais e, ao mesmo tempo, receia que a sua presença possa abalar tudo o que sente. Unamuno decidiu-se pela solidão. Aspirar o aroma em momentos em que a paisagem nos coloca num limbo entre o ser e o não ser, carece de solidão da alma e outro, que não nós próprios, sempre pode diminuir a sensibilidade que nos arrasta e não sabemos definir. Só alguém que pudesse ser a parte que nos falta ou que nos completaria, poderia acrescentar mais beleza àquela que estamos a viver. Estes espaços terrenos em que a terra alcança o mar e lhe veda a passagem, são perfeitos para que no sossego ambiental que nos cerca, a memória vá abrindo arquivos, fechando e abrindo gavetas, fazendo leituras serenas de outros tempos e das pessoas que foram surgindo ou passando na nossa vida. Mal ouço o bulício das ondas tentando vencer a rudeza da muralha que se ergue na sua passagem e acreditei ver o dia em que chegamos à estação à beira-rio, e os nossos passos foram até ao final do cais onde passamos para o carreiro de terra. Quis acreditar que só nós estávamos presentes, enquanto deixávamos o olhar pousar nas pequenas rosas que ladeavam o caminho, e assim fomos subindo ladeira acima. No regresso, enquanto obtinhas uma fotografia, ainda ouço o teu grito de admiração por veres surgir o comboio, como um fantasma misterioso, naqueles segundos em que atravessava a ponte quase submersa pelas águas do lago, num viajar de silêncio. De silêncio era todo o ambiente que vivíamos, como se nos isolasse do mundo. Que te posso dizer de Odemira neste postal de tão curto tamanho onde só cabe um grão de sumo de tudo o que vem ao encontro do meu olhar. Ao rodearmos a retenção de águas de Santa Clara deparamos com uma espécie de cenário como um silêncio parado, uma quase natureza morta subtraída de uma obra de arte. A hora do dia, as sombras de um sol afadigado em recolher-se e a cor das águas em contraste com a que, indefinida, pousava nas pequenas colinas que as abrigam. De longe vem a ocupação humana das terras de Odemira e a sua designação derivará das línguas, árabe e pré-céltica, de cuja junção das palavras terá irradiado o nome que hoje conhecemos. Foi ao longo do tempo terra de lutas e combates e em 1920 já o poder escrevia sobre que, por aqui, «se desenvolvem extraordinariamente as ideias mais avançadas, nocivas e perigosas ao sossego, à tranquilidade pública e ao próprio regime». Cativa-me a Capela de Nossa Senhora do Mar, pela brancura, aquele branco brilhante que reluz de forma intensa e uma espécie de arco romano duplo desenhado nos contornos da porta e que entre as duas linhas paralelas abriga pequenos orifícios que expandem a luminosidade para o interior. Perturba, pelo deslumbramento, o contraste entre o branco e o azul. Que dizer da pequena Aljezur se o meu olhar já descia apressado rumo a outros horizontes! Aqui já não é possível esconder no subterrâneo do esquecimento a presença árabe. Chegamos ao Algarve que fica entre a serra e o mar entre o Atlântico e o Mediterrâneo e à Vila do Bispo que afinal não chegou a ser. Os meus passos já não me levam mais longe do que este lugar, mas sinto o cheiro da linha ferroviária que em breve vou reencontrar. O postal segue amanhã, pois não tenho luz para as palavras que escrevo.

PEQUENOS GRANDES

Mário Martins


https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&sca_esv=2a69430fbf050389&sxsrf=APpeQnu94FVVfv-vFWbNqniZKYPz0wK3WQ:1786808956007&q=PEQ+E+GRANDES


Tal como os homens, os países não se medem aos palmos.

É, de facto, deveras surpreendente e inesperada a resistência arrogante da ditadura religiosa iraniana ao colosso americano, que já havia claudicado no Vietname e no Afeganistão.

Como é o desafio do partido religioso armado, no Líbano, à potência militar e pária nuclear sionista.

E o mesmo poderíamos dizer do partido religioso, outrora financiado, entre outros, por Israel, numa Gaza reduzida a cinzas.

E o que dizer do líder ucraniano, que preferiu, ao “táxi”, apelar à resistência nacional contra a invasão da superpotência militar russa, que já havia sido derrotada no Afeganistão?

É verdade que a guerra é uma constante da história humana (como são, aliás, os tempos de paz nos seus intervalos), mas nem por isso deixa de ser dolorosa para os que, de uma maneira ou doutra lhes sofrem as consequências.

O palco político mundial é dominado por três governos rivais: um errático “Tio Sam”, que considera o hemisfério ocidental a sua “quinta”; um “Urso” imperial; e um “Império do Meio” voltado para fora. A União Europeia, cuja fraqueza é tantas vezes salientada, com a sua diversidade cultural e linguística bem funda, e objectivos contraditórios, é incomparável a governos de unidade nacional.

A Natureza autoriza a guerra, o assassínio, a predação e a violência em geral, contra a nossa melhor moral. Contradição grave, mas sobretudo incompreensível.

                         

POESIA

Helena Serôdio



 

ROTA INCERTA

Não sei quem sou,
Nem donde vim,
Não sei se fico,
Não sei se vou...
Um barco trouxe-me um dia
Dos extremos confins do mar..
O mesmo barco, decerto,
Um dia me há-de levar.
O meu barco anda perdido,
Sem saber onde aportar,
Não tem rumo definido,
Nem leme para o guiar...
Não sei, por isso, em que mar
O meu destino navega,
Nem qual o porto de abrigo
Que poderá escalar...
O meu barco é vagabundo,
Não sei aonde me leva
Nem sei se irá naufragar!..
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