António Mesquita
Por estes dias revi o filme de Manoel de Oliveira, premiado em Cannes, de 1993, "Vale Abraão". Parece que o tema do "bovarismo" foi sugerido pelo cineasta a Agustina e ela não se fez rogada. Escreveu um texto tão próprio e desafiante para qualquer cineasta, que as dificuldades de transposição para o cinema são mais do que evidentes.
Neste aspecto, o erro de apreciação mais natural é tomar as soluções "ad hoc" por características do estilo. Para além do que, Oliveira fez uma versão livre do texto de Agustina e que nela não deixou de lhe dar um cunho pessoal.
Passaram-se mais de vinte anos e não creio que hoje se possa ver o filme, que mereceu os maiores encómios a Bénard da Costa, com os mesmos olhos, pasmados para a novidade do estilo descosido e dito teatral do ralizador. E o problema não é só o desafio de adaptar o texto de Agustina Bessa-Luís que não escreveu para o cinema nem nunca o faria sem se descaracterizar. Mas um eco da obra-prima de Flaubert não podia deixar de interessar a romancista. E a mulher frustrada no casamento, que tropeça em aventuras extraconjugais e se envena com arsénico ou se faz esmagar por um combóio como a Karenina - a Ema de "Vale Abraão" deixa-se afogar no rio Douro - é um filão para explorar em imagens ou cenas estáticas que Oliveira, se esquecesse a "voz off" de Agustina, levaria a bom cabo, sem qualquer dúvida. Sabendo que a imobilidade deste cinema e a sua artificialidade procurada, teriam que influenciar o débito do filme, como em obras tais como "O passado e o presente" ou "Benilde ou a Virgem Mãe", deveríamos confundir com isso os solavancos do ritmo e a falta de graça do conjunto?
As cenas em que se estabelece um diálogo entre Ema e as outras figuras acabam muitas vezes numa narração que já nada tem a ver com a situação. As observações psicológicas ou acções de uns e outros prosseguem, enquanto a cena inicial fica parada no tempo. De resto, a inanidade do diálogo, como na cena com João Perry e aquelas em que entra Luís Lima Barreto que não vem da escritora mas dão corpo ao filme, não são exemplos do estilo de Oliveira e são meros recursos de estofagem.
A paisagem duriense, um dos grandes trunfos do filme, é remetida para o bilhete postal, muito por colusão com os trechos de música clássica escolhidos e arqui-conhecidos. O decorativo aparece assim em cada pausa da acção. Desde Chaplin que a música original é a melhor receita. Assim, parece-nos que estamos a apreciar os gostos do homem por detrás da câmara e não a deixar-nos comover pela mensagem do filme.
A admiração de Bénard, como neste trecho que cito: "Também Ema escolheu para morrer um dia de sol (depois de três dias de chuva). Antes de meter o pé nas pranchas podres, a câmara “sugou-a” até elas num travelling par trás, genial (um desses movimentos de câmara que assina a genialidade de um artista) em que a coroa por cima da cabeça dela são as laranjas, fruto solar e fruto outonal. Vale Abraão ensina-nos o caminho da lua para a morte. Ou da luz para o sonho. Ou a luz como fonte e mistério do cinema. Acenderam-se as luzes (focos, projectores) e podemos aceder à câmara escura, ou iniciar a viagem aos infernos." deixa-me desconfortável na minha apreciação. O bonitinho está lá e essa é uma das cenas mais características.
A beleza de Ema, a "Bovarinho", que a exila do amor e a confunde numa simulação enlameada é, em Agustina e em Oliveira, de forma menos conseguida, a ideia central da obra, muito para além do tema de Flaubert.
Na elipse do final, com a prancha partida e o som do mergulho do corpo na água, enquanto se conclui a vida da protagonista como uma pintura de El Fayoum, caídas as máscaras, narra-se a morte ocorrida pouco tempo depois de Carlos Paiva, o marido ausente/presente. Por uma vez, o estilo de Agustina prevalece, desaparecidos os actores (não insinuando qualquer falta da sua parte; Leonor Silveira, no papel de Ema, é extraordonária).
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