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01/09/19

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva

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Há aspectos da vida de algumas pessoas que nunca conheceremos na sua totalidade, apenas na proporcionalidade do que é visível e nos faz recriar paisagens para o que desconhecemos, para o que é omisso nos seus relatos, mas perceptível nas expressões e comportamentos. Talvez nem o próprio saiba dizer de onde advinha o seu gosto, mesmo encanto e atracção, pelas falésias, com as suas pedras, numa mistura de cinzento e castanho, a derramarem-se sobre o mar, pelos faróis e as ilhas, lugares que em comum, tinham o isolamento, a grandeza, uma fusão de infinito e eternidade. Contudo, a vida foi passando, os sonhos voaram para espaços distantes e a viagem aos lugares de atraimento, ficaram no pretérito da sua existência. Nos dias que correm, talvez seja já uma sombra de si próprio que todas as manhãs se acolhe numa mesa escondida de um Café de bairro. Fica longas horas escrevendo, ao que se crê, cartas de amor para uma mulher que nunca existiu, as quais direcciona para um destino desconhecido. Escreve e reflecte e todas as missivas que redige começam invariavelmente por, «Meu estimado e profundo amor, amada minha». De seguida parece abordar o tempo meteorológico, pois do espacial, a sua vida já não tem nada. «Nesta manhã de excelsa claridade, pequenos núcleos de nuvens brancas, brincam, divertindo-se sobre um céu azul puríssimo, fazendo-me descer na escala do tempo até aos instantes em que a intensidade do teu olhar, bailava ao som de cânticos longínquos, com as minhas utopias, os meus anseios». Em certos momentos, a sua reflexão deixa-o demasiado tempo parado, com o olhar fixo na pequena janela de onde lhe chega a visão do mar. Ocorrem-lhe à memória, dias remotos. Lembra-se da Judite. A Dite, a filha do senhor Belmiro, que na beleza dos seus vinte anos era a menina bonita do bairro que com o seu sorriso aberto, cheio de luz, encantava os homens e os adolescentes. Quantos pretendentes, quantos galanteios recebeu! Mas o tempo passou. Os homens a quem encantou, morreram todos e os adolescentes que a amaram, vão terminando, como ela, o seu tempo de vida. De tanto ser amada, acabou sozinha, na velha casa do bairro que a viu crescer. Tentava que o seu pensamento regressasse ao presente, mas não parecia uma tarefa fácil. Numa noite, de tempestade temerosa, deixou à solta as suas quimeras. Viu-se atravessar o Estreito de Magalhães dessa mulher que terá amado e para quem escrevia, e ao sair ao encontro do Pacífico, pareceu-lhe que a infinitude se abria no seu horizonte. Mas eram apenas delírios. De novo voltava à carta e as suas palavras pareciam adquirir mais fulgor numa escrita que parecia contrariar o começo, «No exterior, o sol apaga-se em triste cinza, ou reacende-se em cálida luz. O olhar viaja entre a ameaça de chuva, ou aquecimento súbito como uma estrada sulcando as colinas, como a minha alma, já sem chama nem ardor, no lume apagado de um tempo vibrante, recordando apenas, a revolução por onde passou quando as bandeiras ululantes do teu olhar acenderam fogueiras na planície sem luz onde habitava. Hoje, só o vento uiva no chão onde brotou uma alegria triunfante». Gostava de se sentir, como numa estória ouvida, como o cego que caminhando na noite, levava uma candeia acesa. «Para iluminar o caminho àqueles que vêem», respondia quando questionado. Mas na sua vida, já só a obscuridade, que o isola do mundo, persiste. Não podia alumiar, como antes, o caminho aos outros caminhantes o que se torna visível no terminar das suas cartas, «O tempo, o meu, chegou ao fim. Só em fantasias ilusórias sinto o teu olhar, límpido e apelativo, passeando na minha direcção, mas a estrada divide-se antes de chegar ao espaço onde habito. Despeço-me. Envio-te o abraço que um dia fez-me sentir o teu corpo no meu, e um beijo longo e cativo, de uma esperança que naufragou nas praias de uma ilha sem nome». Aparecia-lhe ainda a dança do universo galáctico, com a Lua volteando sobre si própria ao mesmo tempo que roda em torno da Terra e o planeta onde habitamos, prosseguindo a mesma dança com o luminoso Sol, num expoente de beleza que se acreditava ter vivido com a destinatária das cartas que escrevia. A redacção chegava então ao fim. Já no declinar do dia, encerrava as folhas de papel num envelope, saía para o exterior e deixava-o no primeiro marco do correio que encontrasse, no interior de uma rajada de vento que por si passasse.

O jornalista, Julien Brygo em artigo no Le Monde Diplomatique-edição portuguesa leva-nos até ao uso da internet no Norte de França, com estes esclarecedores depoimentos: “David Lecompte dirigiu-se directamente às Finanças de Lambersart. Mais do mesmo.” «Claro que me disseram que tinha que ser feito pela Internet. Perguntei-lhes onde estava a máquina à disposição do público… E não há nenhuma. Não faz nenhum sentido. Obrigam-me a fazer a minha declaração pela Internet, mas na condição de eu comprar um computador, de o trocar ao fim de dois anos porque se tornou obsoleto, de fazer um contrato com um fornecedor de acesso privado e que, para além de tudo isto, dê uma quantidade enorme de informações sobre a minha vida privada? Não. Não, obrigado» ” e ainda, “Acreditaríamos estar num filme de Ken Loach "Eu, Daniel Blake" (2016). O procedimento é-lhe explicado por um dos dez «jovenzinhos de azul», como lhes chamam os agentes. Toda a manhã (o único horário de abertura do dia), eles repetem as mesmas frases: «Tem as suas identificações? Vá para o seu espaço. Vá para “Os meus contactos com o Centro de Emprego”, clique em “Enviar e seguir um documento por correio electrónico”; depois clique em “Digitalizar”, “Acrescentar uma página”, “Validar”, “Confirmar”, “Enviar um outro documento”, “Confirmar”, “Validar”. Repita este procedimento tantas vezes quantos os papéis que tem para enviar.»”. O autor, diz-nos também que, “Em França, mais de treze milhões de pessoas estão «pouco à vontade» com a Internet, ou seja, 23% da população com mais de 18 anos. As pessoas idosas representam 66% das que estão mais afastadas do digital; 55% das que têm mais de 70 anos não têm acesso à Internet nas suas casas.”

Zita Seabra, no fim da década de 80, considerou que tinha estado equivocada politicamente nos 30 anos anteriores e mudou-se…, para o PSD. Há dias, a mesma Zita Seabra, descobre que viveu outros trinta anos equivocada e mudou-se para a Iniciativa Liberal! Quer dizer, é uma vida permanente de equívocos! E pensar que há trinta anos atrás queria arrastar consigo uma organização política com décadas de história!

Antes de Rui Rio assumir a liderança do PSD, um conjunto de deputados desta formação política, destacava-se na Assembleia da República, pelos seus discursos, inflamados, violentos e insultuosos, uma espécie de MRPP da Direita, mas na versão malcriada. Há dias, um desses deputados, Duarte Marques de sua graça, chamou «besta» ao primeiro-ministro! À falta de argumentos políticos e incapazes de falar da verdade que os move e dos interesses que de facto representam, recorrem ao insulto desbocado! É a Direita no seu melhor. A Geringonça deixou a Direita em estado de sítio.

A greve dos motoristas de matérias perigosas, levou-me à leitura de um artigo do jornalista Daniel Oliveira de há meses atrás, no qual falava num sindicalismo solidário e colectivo. Quando grupos profissionais, se isolam dos seus companheiros do mesmo Sector ou Ramo de actividade para, servindo-se da condição específica da sua profissão, procurarem obter situações de privilégio, mesmo quando justas as suas reivindicações, significa que pouco lhes interessa a situação desses companheiros de trabalho, como é o caso dos motoristas de matérias perigosas (que consideram que ninguém sabe como é a sua profissão, como se eles soubessem como é a profissão dos outros), dos enfermeiros, dos médicos, dos pilotos da aviação ou dos maquinistas da CP. Por outro lado, o sindicalismo não pode abrandar o questionamento constante sobre a realidade que o cerca, sob pena de ver a Direita, servindo-se de justas reivindicações dos trabalhadores, infiltrar-se através de um sindicalismo mais que suspeito, exibir uma acção política de contrapoder, ao mesmo tempo que com a sua acção radical, contribui para o cercear de direitos laborais.

Segundo os jornais, o corpo de operações especiais da PSP colocou o Estado em tribunal por não lhe pagar o subsídio de risco quando se encontram em teatros de operações. Se percebi bem, os homens e mulheres (agora tem de se escrever assim!) que se alistam neste corpo policial específico, entendem que a remuneração que recebem é para não fazerem nada e que quando têm de realizar as acções para as quais foram contratados, «operações especiais» querem um acréscimo salarial a que chamam subsídio de risco! Como me disse um amigo, um destes dias vão reclamar um seguro de vida!


CARTA A UM MENINO DO LÍBANO

Manuel Joaquim



No domingo passado, Israel bombardeou, desta vez, zonas da cidade de Beirute, capital do Líbano. Ao longo dos anos, já ocorreram várias guerras entre os dois países. O Líbano já foi considerado a Suíça do Médio Oriente. As lutas internas e externas alteraram significativamente as condições de vida da maior parte da sua população.

O presidente libanês considerou este ataque de Israel como uma “declaração de guerra”. É de temer que mais uma guerra, esteja iminente.

Encontrei “Carta a um menino do Líbano”, publicada no Dia Mundial da Criança, em Junho de 1984, trabalho colectivo das turmas do 1º e 2º ano da Escola Preparatória de Irene Lisboa, do Porto. Já passaram 35 anos, mas o poema infelizmente continua actual.


O ADMINISTRATIVO INVISÍVEL

António Mesquita
Vista do Afsluitdijk na direção da província da Frísia 



Uma recente experiência com a venda dum pequeno terreno, em Trás-os-Montes, fez-me perceber melhor a importância dum trabalho de colmeia invisível, tão indiferenciado e sujeito a tanta pressão do público que, mais cedo ou mais tarde, de Simplex em Simplex, cairá na sua maior parte no domínio do Automatismo Numérico dum outro HAL 9000.

Nessa ocasião, percebi também a encrenca que é atribuir responsabilidades na prevenção dos fogos florestais, quando as terras não têm dono ou não estão registadas. Como é que o Estado e os municípios podem exigir o cumprimento das leis e dos regulamentos se as terras, numa família, não têm dono ou estão ainda no nome dum antepassado que chegou a conhecer os tempos da Monarquia?

Outro problema bem conhecido é o da dispersão da propriedade. Quando existem os registos, as "parcelas" não são contíguas e os herdeiros ficam sem passagem entre os seus retalhos. 

Na falta de "dono legal", existem soluções pontuais como a do 'usucapião' que são morosas e caras. As revoluções sociais trazem às vezes a única correcção possível. De qualquer modo, a actualização dos cadastros imposta de cima é sempre preferível ao abandono e à desordem. Foi nesse sentido que o parlamento votou recentemente uma proposta do governo de um "sistema de informação cadastral simplificada" (que teve parecer negativo da Associação Nacional de Municípios Portugueses), diploma que o Presidente da República promulgou “esperando que passe da letra de lei para a realidade a ritmo mais sustentado que no passado”. 

Algumas injustiças poderão ocorrer neste processo, e terá sido essa a preocupação da ANMP, mas sem comparação com as vantagens esperadas, por exemplo, na prevenção dos incêndios florestais. 

Numa conferência realizada na Faculdade de Direito – Escola de Lisboa, da Universidade Católica, sob o tema “As Funções Soberanas do Estado”: “Por que razão o valor acrescentado pelo Registo não se evidencia de forma notória, pelo menos para o cidadão médio?", a prof. dra. Mónica Jardim argumenta: 

"Pois bem, a resposta é simples: a razão da falta de evidência da mais-valia do Registo resulta do facto do papel do registo ser antilitigioso e profilático no tráfico jurídico, ou, por outra via, de a segurança jurídica gerada pelo registo ser preventiva e, por isso, apesar de imprescindível, ser algo diáfana. Explicitemos o afirmado: 

"A cidade de Amesterdão está toda ela assente em grandes vigas de madeira enterradas a grande profundidade no terreno pantanoso que caracteriza a região. Sem estas vigas invisíveis a cidade afundar-se-ia na lama. E, no entanto, a generalidade das pessoas que por ela passeia ou que nela vive não têm real consciência da importância vital de tais vigas. O mesmo acontece com o bem da segurança jurídica preventiva! Enquanto existe não se dá conta dela! Mas se faltasse todos notariam, pois a sociedade afundar-se-ia na lama da insegurança e o progresso económico desapareceria como por magia.”(*) 

Assim, a administração que é quase sempre vista pelo seu lado negativo, de entrave à acção expedita e sem formalidades, pode equiparar-se, na sua utilidade, às grandes vigas de madeira do país dos diques. 


(*) citado em "Os 'Registos' e o seu valor social e económico" 
de Arménio Maximino, no "Público". 



01/08/19

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva
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Vista do Porto


Creio que todos, não diria sem excepção, gostam de forma especial da cidade onde nasceram. Se também essa foi a cidade onde cresceram esse prazer de gostar eleva-se ainda mais numa escala que quase sempre fica inesquecível. Por estas e outras razões, o Porto quedou-se para sempre no meu olhar, nos sentimentos mais íntimos, nas mágoas e alegrias que se escondem no interior de nós próprios, num recanto da alma. O Porto, por uma consequência do nome, arrasta consigo um conjunto de emoções, pois pode ser para uns, um porto de abrigo, para outros, um porto de destino, para todos um porto de história, um porto sentido, um porto amigo, um porto antigo, um porto de chegada. Mas para os que nele nasceram nunca será um porto de partida, porque do Porto não se sai, apenas se viaja. E este Porto que não se vê mas tanto se sente, tem sido para mim, tudo isso, à vez e ao mesmo tempo, nessa grandeza sentimental que a alma não consegue exprimir em toda a sua plenitude. Sente-se mas não se vê. Quando vimos do Norte e nos aproximamos por entre o verde minhoto, sentimos que a cidade está próxima, sentimo-lo na paisagem, nas pessoas, no aroma que emana da cultura que nos rodeia. Vindos do Sul, pressentimo-lo mais pelas placas indicadoras pela mudança das cores, pelo casario, mas a mudança é mais rápida. Nestes pormenores percebemos que nos aproximamos do Porto de destino. “Quem vem e atravessa o rio, junto à Serra do Pilar”, já só o pode fazer a pé ou em transporte público, mas a magia que penetra no olhar é a mesma de sempre, o casario em socalcos, as cores ocres das paredes que brilham esculpidas pelo sol matutino, as suas ruas de traçado medieval, a toponímia a lembrar tempos de comércio e riqueza, as suas escadarias com recantos de encanto e fantasia, que não se descrevem, apenas se podem absorver com o olhar e as gentes que restam com essa singularidade que se vai esvaindo na medida em que, expulsos, vão para os arredores. Este é o Porto antigo. Mas do Sul, podemos atravessar a Leste na elegância de uma ponte larga que se ergue num arco quase imperceptível e mergulha na desamparada e sempre esquecida Campanhã, lugar de indústrias que morreram, de comboios que se foram esvaindo na desastrosa ideia de estarem ultrapassados. A estrada faz um desenho belo e ergue-se na tentativa de alcançar a Casa de Bonjóia, brilhante no seu restauro e cercada pelos seus jardins desenhados para que o olhar repouse na acalmia das tardes com o rio ao fundo; o jardim da Corujeira, olvidado, mas protegido pela grandeza das suas árvores. Mas se escolhemos a entrada Oeste, o choque é maior, acontece de um momento para outro. Sem que os sentimentos dêem conta, estamos em cima da ponte, no seu arco majestoso e belíssimo e não sabemos para que lado olhar, para a direita, encontramos o passado, os séculos, a pedra granítica, as muralhas que protegeram a cidade, o espaço do cerco do absolutismo que morria, a resistência, a liberdade, é o Porto de história. À esquerda, encontramos o infinito, o lugar onde a terra se mistura com o céu em bebedeiras de azul. Por ali passaram as caravelas, por ali partiam e chegavam as mercadorias que enriqueceram a cidade, ali navegam os sonhos dos que não se conformam. É tudo tão rápido, de emoções tão fortes que é tardiamente que descobrimos à nossa frente, escondido entre árvores e arbustos o jardim de Sophia, o espaço botânico, um recanto de beleza e recolhimento (1) . Este é o Porto de chegada que nos recebe e nos acolhe. Mas a cidade que já foi de nevoeiros, de cinzentos sombrios e tristes, de caminhos de melancolia, e hoje brilha debaixo de um sol que raramente a aquecia, não perdeu totalmente os lugares onde nos podemos recolher em reflexão vagarosa, seja nos caminhos do romântico, os da Arrábida, em cujo alto podemos deslumbrar-nos com os poentes de chama ardente, ou os de Campanhã, com as suas quintas de uma nobreza tardia, já aburguesada e endinheirada, com os braços das buganvílias e dos fetos, estendendo-se pelos muros altos que escondem as suas casas e jardins, seja os de Ramalde com os seus Abraços pelo meio de campos de agricultura que já não se faz, seja ainda pelas ruas estreitas, calmas, plenas de serenidade de uma Foz dita velha. Este é ao mesmo tempo, um Porto de abrigo e um Porto sentido. Se nos afastarmos, se subirmos à cidade mais elevada e nos dirigimos a Paranhos, ainda encontramos o monte da Lapa, um outeiro esquecido, um aglomerado de casas em redor da colina, uma cascata sanjoanina de gentes tão portuenses, e no pico emblemático, o ponto de observação dos liberais do cerco, de onde partiam os pombos-correios com as suas mensagens. Já nos limites dessa estrada que limitou o crescimento da cidade, de Paranhos a Aldoar, passando por Ramalde, os bairros dos que trabalham, os marginalizados pelo poder, os blocos onde moram os que descenderam dos que das ilhas vieram, não daquelas que o mar rodeia, mas das outras, as das casas pequenas, onde habitava a solidariedade, o sentimento de pertença colectiva, os que morriam pela pátria, essa pátria que tanto lhes tira. O Porto é ainda uma cidade que se passeia. É necessário percorrê-la, caminhar sobre as suas vetustas calçadas, abrir a alma para acolher os sentimentos que nos aparecem a cada esquina, em cada rua, nas ilhas que ainda restam, no passado que se recusa a ser extinto na velocidade do tempo presente, deixar-nos levar pelos aromas, pelos pormenores, pelo que não se vê mas que emerge do falar, da cultura, dos costumes. Só então, percebemos o que é único nesta cidade que a todos recebe com os braços abertos. Pode ter acabado o cimbalino, mas para os seus habitantes permanecem válidas as palavras de Garrett gravadas no mármore do tempo: «os portuenses podem trocar o «v» pelo «b», mas não trocam a liberdade pela servidão».

(1) “O Jardim Botânico do Porto – Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP) é um dos três espaços verdes do Porto que acabam de ser distinguidos com o Green Flag Award, um prémio internacional atribuído anualmente pela Organização Não Governamental Keep Britain Tidy, sob a égide do Ministério da Habitação, Comunidades e Governo Local do Reino Unido, com o objetivo de reconhecer a boa gestão de parques e jardins em todo o mundo.”

A Companhia de Seguros belga, AGEAS, cujos dirigentes se gabam de possuir centenas de milhões de euros para comprar outra seguradora e que regista lucros próximo dos 100 milhões de euros, está num processo de despedimento colectivo de 90 dos seus trabalhadores sediados na cidade do Porto. É o esplendor do capitalismo financeiro que utiliza a democracia, que assiste impávida e serena, para o enriquecimento especulativo de uns poucos, com a estratégia de externalizar serviços, para melhor poder explorar o medo a incerteza e mais dividendos colher do pagamento de baixos salários e trabalho precário, utilizando a divisa do Pingo Doce, «Sabe bem, pagar tão pouco».

O  Donald Trump disse que só não acaba com a guerra no Afeganistão numa semana porque não quer matar 10 milhões de pessoas. Como se estima que este país tem 32 milhões de habitantes, podemos até admitir que com um esforço de três semanas, acabava não só com a guerra, como com o próprio Afeganistão. Trump e os que o rodeiam, tornaram os EUA numa ante-sala de um pavilhão de loucura.

A legislatura chegou ao fim com a solução governativa apoiada pela maioria encontrada no Parlamento. Os temores inventados pela Direita, ficaram escondidos na sombra dos seus interesses maliciosos. Ficou evidente que é possível a Esquerda encontrar um caminho comum que salvaguarde o interesse da maioria dos portugueses e que a Direita não tem outro programa que não seja a destruição dos avanços sociais e o favorecimento do interesse de uma minoria, predatória e avarenta. Ao sentir que pode ficar afastada do poder por um largo período de tempo, assesta as baterias na ideia de que tudo ficou num caos, na tentativa de, obtendo o PS, uma maioria simples, o possa arrastar de novo para o seu seio. Os jornais e as televisões, com os seus empregados subservientes já desataram a construir um castelo de maldades que teriam ocorrido nos últimos 4 anos. Até o Alexandre do Pingo Doce veio dizer que, “com esta conjuntura, qualquer governo fazia o que este fez”, esquecendo qual era o programa da Direita apresentado às eleições de 2015. Há interesses que conseguem sobreviver, seja com fascismos, seja com democracias, a questão está apenas em saber colocar os seus serviçais no aparelho das instituições estatais. Há meses atrás, um canal documentarista passou uma reportagem, creio que de um bairro de Londres, no qual uma senhora dizia, «O Boris vem cá muitas vezes. É boa pessoa e gosto de falar com ele, mas acho que deveriam escolher alguém mais adulto para Ministro dos Negócios Estrangeiros»! Ouviram-na e puseram-no a primeiro-ministro!

A hierarquia militar diz que as Forças Armadas têm necessidade de mais 6000 militares, caso contrário ficam em causa as diversas missões em que estão empenhadas! Quais? A de complemento da Protecção Civil? As de protecção do país? Não. As missões que estão em causa são as de defesa de interesses imperiais estranhos a Portugal, no Mali, na República Centro Africana, no Kosovo, no Afeganistão, nas fronteiras da Rússia. Um país sem dinheiro para o SNS, para a Educação para os Transportes, tem as FA a querer dinheiro para as guerras dos outros!


O EFEITO DE ESPELHO

António Mesquita
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"Alguns peritos científicos em sondagens, como George Gallup, têm-se mostrado ansiosos em provar que a sondagem da opinião é uma ajuda, em vez de uma ameaça, para a democracia representativa. No seu "Pulse of Democracy"(1940), Gallup conclui com uma espécie de ameaça não intencional que "as limitações e as deficiências das sondagens são as limitações e as deficiências da própria opinião." O maior perigo das sondagens vem, contudo, não da sua inexactidão, mas da sua exactidão. Se e quando as sondagens se tornarem tão científicas que se possam predizer as nossas opiniões na urna de voto, nesse momento, terão talvez perdido a maior parte do seu interesse; ao mesmo tempo, naturalmente, o processo de votação ter-se-á tornado supérfluo. Os defensores das sondagens, como Gallup, declaram que as sondagens são valiosas - e até essenciais - para o que agora definem como o nosso governo representativo: "um governo sensível à opinião média da humanidade."

("The Image- A Guide to Pseudo-Events in America" de Daniel Boorstin, tradução de AM)


A cada vez maior "exactidão" das sondagens seria realmente um perigo para a democracia representativa, na medida em que a opinião dos cidadãos pudesse ser mais fielmente traduzida por uma sondagem do que por qualquer político eleito para a representar - ia dizer, por mais competente que fosse tal político, mas é óbvio que a competência, nesta versão da democracia, seria a do ventríloquo, toda a capacidade de iniciativa e talento do representante só tendo espaço para se exercer tanto quanto fosse desconhecida a opinião exacta do "soberano".

Pode, na verdade, imaginar-se um mundo em que a política fosse excluída da sociedade humana, por desnecessária e contraproducente, para dar lugar a um qualquer complexo automatismo de decisão. O que será mais difícil de conceber é que que isso fosse ainda uma democracia e que a regra geral desse governo correspondesse à opinião dos admnistrados cuja ignorância "técnica" seria também de supor.

Vem a propósito evocar aqui a ideia de Marx sobre o futuro do Estado depois da "Ditadura do Proletariado". Com efeito, estava no seu horizonte, uma "administração das coisas" racional e pacífica, com o "deperecimento gradual do Estado", numa sociedade sem classes. O Estado, concebido pelo marxismo como uma ditadura classista, tornar-se-ia supérfluo (como, segundo Boorstin, o voto dos cidadãos no dia em que as sondagens forem verdadeiramente "científicas").

Mas devemos concluir que as próprias sondagens se tornarão supérfluas numa perfeita admnistração. Não só porque a vontade dos novos cidadãos seria interpretada a cada momento através do seu registo 'on line' , mas também porque como acto político, o voto teria deixado de fazer sentido.

Termino com outra citação de Boorstin: "A opinião pública - que já foi um tempo a expressão do público - torna-se cada vez mais uma imagem a que o público conforma a sua expressão."

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