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Mário Faria
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| (http://www.portopatrimoniomundial.com/uploads/7/5/5/5/7555524/2527059_orig.jpg?912) |
No dia seguinte á minha chegada, tive de cumprir um serviço que não me agrada: ir à peixaria levantar uma encomenda. A distância é curta e permitiu-me apurar como tinha ficado o Jardim de Arca de Água depois do brutal assalto a que foi submetido durante as festas de Nossa Senhora da Saúde. Estava limpo e sereno. Demorei alguns minutos para ouvir o silêncio e depois dei corda aos pés para tratar de realizar a tarefa para que tinha sido mandatado. Na loja, encontrei algum peixe, moscas e bastantes donas de casa que falaram bem mais do que compraram. A conversa foi animada e não escapei ao fascínio da história. O Ricardo andava caidinho pela Chinesa que tinha por companheiro o André que vivia com D. Luisinha uma quarentona em muito boa forma, esteticista, que lhe alugou um quarto e andava por ele embeiçada, apesar do desinteresse aparente do jovem. Notava-se uma ligeira tendência naquela informal assembleia popular para aceitar que a sucessão dos casos violentos que ocorreram nessa madrugada, em que a loja da Chinesa foi assaltada e arrasada e o seu companheiro brutalmente agredido quando regressava a casa, em momentos e sítios diferentes, teria sido planeado por D. Luisinha que o Ricardo executou e que completou com a tareia no André, exorbitando as suas competências porque não era curial que a mandante desse uma ordem para bater no seu menino querido daquela forma tão brutal, segundo o diagnóstico da maioria das senhoras. A dona da peixaria que comandou a sessão, muito vagarosamente, cuidou de me servir, finalmente. Embora o tema fosse delicioso, estava um pouco farto daquelas armas de guerra que disparavam rajadas de palavras tão intensas e audíveis que fizeram parar alguns transeuntes mais curiosos e juntar uns poucos que aproveitaram a paragem do autocarro para seguir a tramoia. Logo que atendido e antes de me pirar, ainda pude ouvir que a polícia já tinha tomado conta da ocorrência. Regressei a casa com o peixe, os ouvidos a arder, meio surdo, curioso e com a certeza que as queixas seriam arquivadas por falta de provas o que não impediria que o tema fosse acompanhado e discutido de forma exemplar pelo ramo civil do CSI do burgo. Não poderia ter retomado a rotina diária da melhor forma na minha aldeia de Paranhos desta mui nobre e sempre leal cidade do Porto.
" A cidade onde aqueles que devem mandar estão menos desejosos de mandar é melhor e mais pacífica, e sucede o contrário com aquela onde esses têm a disposição contrária.
"A República" (Platão)
Isto é verdade, apesar de alguns (nos quais me incluo) defenderem a necessidade de homens ambiciosos para pôrem a sua energia ao serviço do Estado e da colectividade, sem se darem conta, as mais das vezes, que desempenham o papel de instrumentos do que à falta de melhor poderíamos chamar de Providência. Esta palavra é preferível à palavra História, porque não se corre o risco de pressupor que tem leis e de teorizar sobre elas.
O mesmo se passa com as outras paixões, as quais, segundo Descartes e Spinoza, podem sempre ser conduzidas para um fim útil. Por isso, homens relutantes ou equânimes nunca iniciariam, por exemplo, um caso de amor. O prazer associado a essa paixão tem 'garantido' a sobrevivência da espécie, mas à medida que aprofundamos a análise dos nossos 'raptos amorosos', e lhes encontramos substitutos mais controláveis e conversíveis em 'bitcoins', menos a 'astúcia' da Providência tem hipóteses.
Já que alguns têm, pois, de mandar que o façam de bom-grado, embora sob controlo. É sempre melhor esperar o que é mais natural que aconteça do que confiar nas excepções. A tristeza é também uma paixão, mas anémica. E quem faria uma coisa contra a sua disposição natural sem alguma tristeza? Talvez por isso a direcção do Estado fosse, antigamente, confiada aos anciões. A reviravolta dos tempos modernos foi de tal ordem que, hoje, um conselho de anciões estaria talvez ainda mais dependente da tecnocracia do que os governos que conhecemos.
Por isso a afirmação platónica só é verdadeira se nos referirmos ao passado (distante).
“Sei que, filosoficamente, um assassino não tem culpa, mas não gostaria de tomar chá com ele.”
Albert Einstein
Quando tropecei nesta frase do célebre cientista percebi que, apesar do tom coloquial, ela encerrava questões filosóficas essenciais. Desde logo a questão da compreensão. Einstein não diz que um assassino não tem culpa, mas sim que, filosoficamente, não tem culpa. Isso quer dizer que pelo critério do saber mais profundo que, etimologicamente, o termo filosofia significa, um assassino não tem culpa. Então por que, por este critério, um assassino não tem culpa? Porque, respondo eu, os seres humanos, na medida em que são filhos do processo natural de existência, não são responsáveis pela sua natureza. Logo não podem ser os autores, mas apenas agentes do bem e do mal no mundo. E não de todo o bem e de todo o mal. Um pôr do sol ou um cancro que faz sofrer e morrer uma criança ocorrem sem intervenção humana. É certo que as religiões em geral e a mitologia judaico-cristã em particular, afirmam o contrário, quer dizer, que o mundo apenas conheceria o bem, não fosse o pecado original dos primeiros humanos. Convirá, no entanto, contextualizar. O papel da religião não é compreender mas o de nos consolar perante as misteriosas condições da existência. E para garantir a sua outra função de força moralizadora, compreende-se que coloque o Divino ou a Natureza a salvo da responsabilidade pelo mal do mundo. Outra questão filosófica perturbadora decorrente da afirmação de Einstein, é a da eventual impossibilidade de aplicação política da verdade filosófica. Filosoficamente, se um assassino não tem culpa, não deve ser punido, mas em sociedade, quer dizer, politicamente, não passa pela cabeça de ninguém que não seja castigado. Daí a justeza da conhecida afirmação de Bismarck de que a política é a arte do possível.
Mário Martins
"Descendentes dos macacos! Meu amigo, esperemos que não seja verdade, mas se for, resta-nos rezar para que nunca venha a ser do conhecimento público."
Comentário atribuído à mulher do bispo de Worcester, quando lhe explicaram a teoria da evolução, de Darwin. *
Por convenção transcultural, na medida em que, como a língua inglesa, atravessa todas as culturas, mas realmente a bem da facilidade comunicacional e da normalização informática, assumimos, correntemente, que estamos no ano 2014, a que juntamos, nos momentos de maior rigor, a abreviatura DC. Estas duas iniciais significam Depois de Cristo, mas a verdade é que, se nos levantarmos das nossas camas culturais e sairmos das convenções, a Humanidade não efectuou, à boleia da Terra, apenas 2014 revoluções em volta do Sol, nem 5700 e tal se a convenção assentasse numa tradição mais antiga, como a judaica, ou 1444, se assentasse numa tradição mais recente, como a muçulmana. Com o devido respeito, a abreviatura DC poderia antes significar Depois dos Chimpanzés, porque é deles que descendemos, há milhões de anos, embora, nesse caso, o seu uso perdesse qualquer utilidade uma vez que abrangeria todo o tempo da existência humana e não apenas uma parcela convencional de tempo.
Sabemos, com efeito, que a linhagem dos primatas, à qual pertencemos, surgiu há cerca de 65 milhões de anos; que durante os primeiros 99,9… por cento da nossa história enquanto organismos estivemos sempre na mesma linha ancestral dos chimpanzés, com os quais compartilhamos 98 a 99,4% de ADN; que há cerca de 7 milhões de anos surgiu das florestas tropicais de África uma nova espécie hominídea, os australopitecos, capazes de caminharem erectos, mas cujo cérebro não cresceu, e não há quaisquer indícios de terem sequer usado as mais simples ferramentas; que os australopitecos dominaram durante 5 milhões de anos, para desaparecerem há mais de 1 milhão de anos, depois de coexistirem com o Homo, linha da qual descendemos, mais de 1 milhão de anos; que há entre 3 e 2 milhões de anos havia seis tipos de hominídeos, entre eles o Homo, que emergiu há 2 milhões de anos; que diversas espécies de Homo evoluíram e extinguiram-se, como o Homo erectus, que habitou a Ásia, o Homoneanderthalensis Ásia, que habitou a Europa, ou o Homo sapiens arcaico, que evoluiu entre 400.000 e 250.000 anos atrás. Para alguns cientistas, o Homo erectus, que tinha o corpo de um humano adulto, mas o cérebro de um bébé, e viveu num período situado entre 1,8 milhões de anos atrás até há apenas 20 mil anos, é a linha divisória: tudo o que surgiu antes dele tinha carácter macacóide; a partir daí tudo se tornou humanóide; o Homo erectus foi o primeiro a caçar, o primeiro a usar o fogo, o primeiro a fabricar ferramentas complexas, o primeiro a deixar vestígios de acampamentos, o primeiro a tomar conta dos fracos e dos doentes.
Não sabemos por que os cérebros dos hominídeos começaram de repente a crescer há dois milhões de anos; não sabemos quase nada do Homo habilis, de que descende o Homo sapiens.
O que é certo é que há bastante mais de um milhão de anos houve alguns seres erectos novos e relativamente modernos que saíram de África e ousadamente se espalharam por grande parte do globo. Aqui termina o consenso. O que aconteceu a seguir na história do desenvolvimento humano é tema para longos e rancorosos debates.
*Citado por Bill Bryson, in Breve Historia de Quase Tudo, da Quetzal Editores.
O texto em itálico é transcrito ou baseado nesta obra. Alguns dados foram recolhidos da Wikipédia..