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01/05/19

O SONHO NOS ANOS DE CHUMBO

Filipe Augusto



Aquele Outono parecia mais frio que o normal. Certamente seria igual a tantos outros, mas a aula de Pintura Decorativa com o Prof. António Cruz até às 22 horas, tornava a noite mais cinzenta. A aula era demasiado silenciosa, a face sorumbática do mestre e as luzes amarelas da sala em nada ajudavam a um ambiente sadio.

Hélder tinha um amigo, um jovem de Oliveira do Douro que aos Sábados organizava bailes na garagem, em frente ao Colégio do Sardão, onde meninas em regime interno, espreitavam pelas janelas. Hélder comparecia, mas a timidez e a incapacidade de movimentar os pés em ritmo de dança transformavam-no quase sempre num espectador do baile. Em casa, isolava-se em leituras da Vida Mundial e durante meses, levantava-se mais cedo para durante quinze minutos antes de caminhar para o trabalho, ler algumas páginas dos III volumes da Grande Crónica da Segunda Guerra Mundial editado pelas Selecções do Reader’s Digest que tinha adquirido com as suas poupanças.

Algo ansiava na sua alma, mas o caminho que procurava não se desenhava na sua frente, aparecia disfarçado e camuflado, não visível aos olhos, não lhe conhecia os contornos. Mas, sobretudo, aquelas aulas nocturnas, foram-no aproximando de outros dois jovens recolhidos nos seus pensamentos e comedidos nos seus actos, o Fernando e o Rui. Talvez por mais aulas em comum, aproximou-se mais do Fernando e passou até a acompanhá-lo pela cidade e assim foi conhecendo a Unicepe, onde o seu amigo se enchia de livros. Foi ao conversar sobre um desses livros, “Asas de Israel”, a propósito da «Guerra dos Seis Dias» que tinha acompanhado pelo JN, que teve a primeira surpresa, Fernando estava ao lado dos maus, colocando dessa forma em causa tudo o que Hélder acreditava saber sobre o mundo.

Os passeios foram-se alongando e a amizade cimentando. Naquelas noites de Outono, começou a ver que a capa onde o Rui e o Fernando traziam os livros estava forrada com um pequeno cartaz com as palavras, «MDP – CDE – Comissão Eleitoral». Era uma grande novidade e as perguntas foram surgindo. Os pilares da sabedoria que Hélder trazia estremeciam como num tremor de terra. Um mundo desconhecido e escondido, emergia à superfície, cautelosa e paulatinamente.

Meses ainda haveriam de passar, até uma jovem de rosto bonito, alta e atractiva, o guiar uma noite e com grande atraso até casa do Fernando e na presença de ambos foi ouvindo falar de presos políticos e «Comissão de Apoio e Socorro» aos mesmos. Começou a ler documentos que não supunha existir e o novo mundo, essa esperança de um espaço de justiça e liberdade passou a fazer parte dos seus sonhos.

Mais tarde, apareceu o Serra e a sua vida passou a ficar dependente das imensas tarefas que apareciam a cada semana, a cada momento em episódios de resistência, de luta e combate por um futuro que todos acreditávamos ser melhor.

Nas comemorações do 31 de Janeiro de 1971, numa sala do 1º andar de um restaurante localizado na esquina das Ruas, de Sá da Bandeira e Formosa, perante dezenas de lutadores de longa data contra a ditadura, a dado momento, o Serra diz-lhe para falar em nome do MJT. Entrou em pânico, pois nem sequer sabia o que dizer e, menos ainda, ser capaz de enfrentar aquela plateia de pessoas de uma resistência tenaz ao longo dos anos. O Serra escrevinhou um texto em meia dúzia de pequenas folhas e, sem saber como, estava na frente de toda a sala a falar para um microfone, lendo as palavras que lhe foram escritas, enquanto a mão que segurava os papéis tremia de forma visível. Nesse dia, não perdeu o medo nem a timidez, mas aprendeu a controlá-los. Hélder tinha então 18 anos.

Os três anos que se seguiram são uma longa história, integrada numa mais ampla e colectiva, que o haveria de levar até ao sopé dos Himalaias, num combate desigual que nunca parou e que ainda hoje continua, noutros moldes e espaços, com outros métodos, nessa vontade de fazer avançar a utopia, esse sonho de esperança, esse querer do bem-comum.


01/04/19

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ALERTA VERMELHO

Mário Faria



Nas minhas incursões na zona de influência do Lidle, há bem mais de um ano fui testemunha de um insólito acontecimento. Um homem, entre os sessenta anos, passeava uma bicicleta no passeio de costas para o movimento dos carros. Ainda a uma certa distância do Coppi (assim o batizei), apercebi-me que gritava para os automóveis com gestos e palavras muito pouco amigáveis. Na dúvida, mudei de passeio para evitar encontros imediatos de 1º, 2º ou terceiro grau. O tipo topou e parou do outro lado da rua para me brindar com um vasto leque de cumprimentos ameaçadores. Cheguei são e salvo a casa. Cruzei-me com o Coppi mais uma dúzia de vezes. O registo era cada vez mais agressivo. Entretanto, desapareceu e não deixou saudades. Há dois meses e pico, apareceu profundamente mudado. Tinha deixado a bicicleta que substituiu por um carrinho de supermercado. Caminhava mais confiante, sereno e com algum orgulho. Parecia satisfeito com a responsabilidade da sua função. E foi assim que se passou durante semanas. Foi sol de pouca dura: desta vez voltou de bicicleta e com um carrinho de supermercado acoplado. Exibia sinais de intensa degradação; menos agressivo e mais estranho dava sinais de desorientação. O Coppi é um mistério: um homem que vi sempre sozinho de mal com a vida e o mundo. Muito provavelmente vítima de um qualquer fantasma que o habita e nada tem a ver com o Brexit. 
O Brexit tem ocupado uma boa parte da agenda informativa. Não entendo muito bem porque é tão complicado sair da UE. Os ingleses ainda vivem sob os vestígios do Império. Sentem-se sem a importância do antanho e esperam com este golpe ressuscitar os dias gloriosos da Commonwealth. Ao mesmo tempo, esperam ganhar oportunidades que os USA facilitarão. O processo de saída parece não ter fim. O Reino Unido ruge mas não deita fogo. Está no limbo e não encontra saída. Sua Alteza está atenta e serena. Não é nada com ela. Pela nossa parte, estamos descansados: basta mostrar o Tratado. Ainda vamos ser o anjo da guarda da Europa. O Centeno é homem para isso.
Sabia-se que Centeno seria o homem escolhido para Ministro das Finanças se o Costa formasse governo. Não sei como se selecionam os candidatos para preencher os diferentes cargos no Governo. Admito que haja procedimentos semelhantes aos que são seguidos no privado, nomeadamente quando se trata de empresas que seguem os bons costumes no recrutamento. Segui e conheci os passos e a exigência no IKEA no momento da selecção de candidatos. O processo é longo, diversificado e muito exigente. É normal que na vida pública seja diferente porque os membros do partido serão quase sempre prioritários. Só que o actual governo resolveu dar um passo atrás e permitiu encher o (nova) governo com muitos amigos e demasiados familiares. Não será por isso que o gato vai às filhoses, mas ao Governo não basta ser sério tem de parecê-lo. Que tiro no pé, Costa!
O gato foi às filhoses e Rui Pinto foi preso preventivamente. Há quem o condene e reclame um castigado exemplar e há quem o absolva e reclame para o Rui o estatuto de denunciante. A privacidade é um direito que não pode ser desvalorizado e quem a viola comete um crime. Sou austero na sua defesa. Mas fico dividido quando o que está em jogo é informação qualificada e de interesse público. Como sair deste nó górdio? Vai ser complicado dados os interesses em jogo e no futebol o escrutínio é um bico de obra. A toupeira que o diga!

 Nota: Coppi foi um ciclista italiano de eleição. 

CHUVA É CANTORIA

António Mesquita



"Quando agora olho para o filme, sinto alguma alegria ao perceber que ele em nada contribui para o estereótipo de filmar os índios como se fossem fósseis vivos”
JOÃO SALAVIZA

Salaviza e Renée Messora filmam uma história de vida dos índios krahô, na aldeia da Pena Branca, estado de Tocantins, no Brasil.

Um rapaz de 15 anos, Ihjãc (Henrique, em português), adoece e põe-se a falar com os mortos. Essas vozes e o espírito personificado pela arara cometem-lhe o ritual da 'tora', uma festa  para encerrar o luto do pai, mas ele teme, ao mesmo tempo, tornar-se xamã. O médico da localidade mais próxima, Itacajá, diagnostica-lhe hipocondria e Ihjãc  vai adiando o regresso à aldeia, com medo do seu 'destino'.

Enquanto vagueia pelas ruas de Itacajá, com a sua poeira, o seu  ruído e, sobretudo, a omnipresença dos altifalantes de feira sente a falta do coro dos insectos nocturnos e do grito das aves da floresta natal. Não é por acaso que este contraste nos aparece tão chocante. É um modo mais subtil de defender a ideia denegada da 'pureza' dos índios. Como diz Salaviza; "Filme realista acima de tudo, “Chuva...” não deseja “cristalizar uma pureza indígena” que ali possa ainda existir (ou ser encontrada pelos olhos do branco) desde o século XVI."

Finalmente, Ihjãc regressa à aldeia para cumprir a obrigação da festa do luto. Depois, vêmo-lo diante da cachoeira onde falava com a arara e o espírito dos mortos e mergulhar nas águas sem voltar a aparecer. Devemos concluir que esta 'solução" para o seu medo do xamanismo significa que, apesar de tudo, a cultura (branca) dominante já o tinha separado da sua comunidade, ao ponto de já não poder acreditar no papel do xamã, mas também não querer nem poder trair o seu povo?

"O seu discurso (de Bolsonaro) contra os indígenas é tenebroso.", diz o realizador,  mas o verdadeiro perigo para a mitologia dos índios,  mais do que  a política, parece ser o da contaminação das culturas, porque Ihjãc já foi tocado pelo mundo envolvente.

Ainda Salaviza: "É preciso, ao invés, reconhecer os krahô sem preconceitos: sabem mexer em telemóveis, têm garrafas de água em cima da mesa, as mulheres gostam de pintar as unhas dos pés... E até há palavras de português que já introduziram no seu vocabulário e em seu proveito. Eles não são menos índios, nem há uma perda cultural, pela inclusão que fazem desses elementos no seu quotidiano, antes pelo contrário, muitas vezes há até um reforço da sua cultura pela absorção e subversão destas coisas que vêm de fora”.

Será que essa identidade índia depende da vontade de resistir e que a verdadeira mudança não começa pelos actos mais triviais do quotidiano, como moldar-se a uma outra língua ou usar um telemóvel? Nesse sentido, tampouco se pode falar 'numa comunidade em vias de extinção".

Enfim, "Chuva é cantoria na aldeia dos mortos" é um filme muito estimulante.


NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Todos temos consciência que, com o avançar da idade, o nosso corpo vai colapsando fisicamente, vai encerrando quartos ao longo de um corredor e a cada um desses apagamentos, a memória anula registos, aquela memória mais activa que possui um arquivo de acesso imediato. Naquela manhã, procurava interrogar aquele catálogo das coisas breves, sobre o que me teria levado até Salzburgo nos últimos dias e não conseguia obter uma resposta que compensasse essa tentativa de saber o que fazia ali. Num primeiro instante, ocorria-me a palavra, Mozart, o génio, a música, o seu precioso Requiem. Mas a resposta que encontrava não me satisfazia. A última lembrança dizia-me que tinha entrado na Áustria para satisfazer uma curiosidade, o que me levou até Innsbruck, mas de seguida tudo se nebulava. O centro histórico, os carros eléctricos, o rio, a cor das águas e as montanhas a norte ainda cobertas da neve que a Primavera não derretera por completo. Para além da perfeição, dessa beleza que assenta na ordem natural das coisas, escondendo a intervenção humana, sempre tão modificadora, tão correctora do que nasceu no seu lugar, não esquecia a palavra «flughafen» que o cérebro repetia a si próprio como algo que tivesse algum significado para além daquele que a palavra guardava. Esta era a auréola que a memória acolhera e de seguida apagara-se até este momento em que o comboio me leva em direcção a Viena, com nova pergunta, porquê Viena? Rodava a fita do tempo e tentava ver Salzburgo, o rio Salzach, as margens nessa curva lenta, como cansada, de novo a cor das águas, o verde queimado das cúpulas, Mozart por todo o lado, os picos montanhosos agora a Sul, mas sem essa pressão esmagadora que se sente no Tirol, e sempre esse apuro que procuro como virtude da vida e dos materiais, a beleza das formas. Aliás, a Áustria aparece-nos como um desenho longamente estudado e com os traços certos, sem nada mais para além do necessário, uma ilustração simbiótica entre a natureza e a humanidade. Há instantes que essa perfeição é tamanha que chega a tornar-se perturbadora e ao recordar as aldeias montanhosas do meu país, feitas desse granito milenário, formosas pela sua irregularidade, aparecem-me, comparativamente como um esboço, um rascunho de algo inacabado, e no entanto, sinto um cântico que se ergue das suas calçadas como um chamamento, como uma recordação de um passado de luta contra os elementos físicos da natureza e do poder. Nas margens do Salzach, não senti com tanta intensidade a expressividade do Requiem, como sinto este canto que se ergue do silêncio do casario de telha vermelha que se esvai no meu corpo ao longo destes anos em que procuro a verdade da vida, na verdade dos seres humanos quando submetidos à rudeza da existência e à maldade pérfida dos tiranos, quantas vezes silenciosos, nos seus crimes e nas angústias e dramas que deixam escondidas na alma dos serranos dessas aldeias que laboram e oram, acreditando nesses dois predicados como actos únicos de perfeição perante a eternidade. O comboio desloca-se a uma velocidade assombrosa numa sequência de túneis cujos intervalos deixam escasso tempo para contemplar a paisagem que se estende no exterior e vou assemelhando estes espaços intercalados ao evoluir da vida humana, a cada momento de alegria, de cores vivas, de satisfação, surge um espaço escuro, um tempo sem luz em que apenas seguimos em frente com a convicção de que haverá um momento para o qual o sol adquira novo brilho, novo esplendor luminoso e assim, vou percorrendo os tempos que somam a minha experiência, essa vivência que já é passado e não será futuro. Há sonhos que se transformam em pesadelos e marasmos que se transmutam em fantasias luxuriantes de felicidade. Creio que foi numa dessa saídas de túnel para um espaço aberto que a memória trouxe até mim, um dia de caminhada num percurso de rudeza sem limites que nos fazia descer do Nepal para Darjeeling. Quando atravessamos cordilheiras acima dos três mil metros, sentimos que há uma separação física entre a cabeça e o resto do corpo, como se cada uma dessas partes adquirisse autonomia. Sentia-me perturbadoramente cansado, por que esses dias se arrastavam sem ideia de quando encontraríamos traçado que nos dissesse que o destino estava próximo. Foi num desses momentos de grande fadiga, sentado na extremidade de uma espécie de falésia, na proximidade da aldeia de Kalipokhri, olhando para o que acreditava parecer ser a fronteira que, sem qualquer razão aparente, me ocorreu o nome de Diotima (1) e o seu diálogo à procura de respostas para perguntas que o seu desejo de felicidade faziam aparecer, e a sua resposta enigmática à questão que lhe colocavam, «Aqueles que nos abraçam nunca são os que amamos mais profundamente…». Iludia assim o dilema que vivia entre o amor legal e contractualizado e aquele outro que irrompera pela sua vida, com a torrente de um glaciar alpino desintegrando-se perante uma súbita rajada de calor. Iludia o essencial com a sua resposta, mas aceitava o diálogo filosófico sobre a vida, os valores, o amor e as morais que comprimem os desejos como as margens comprimem o rio. «Não existe felicidade desregrada. Não existe grande felicidade sem grandes tabus», dizia um Arnheim (1) já convicto da sua derrota, ou dito com palavras menos rudes, incapaz de atravessar essa fronteira do proibido, «as grandes almas precisam de legitimidade», acrescentava tentando convencer-se a si próprio e assim ficavam ambos a atravessar uma ponte elevatória cujo mecanismo encravara no momento em que deveria unir-se, deixando-os separados perante um espaço vazio e intransponível. Falavam como se justificassem o que não ousavam viver, e mesmo que, em espírito, Diotima já aceitasse, que seria «mais sensível e sensato o risco do adultério à catástrofe de duas vidas destruídas». Contudo, pedia-lhe silêncio, que não falasse, pois «as palavras podem fazer grandes coisas mas há outras maiores!," pois, acrescentava, «A autêntica verdade entre duas pessoas não pode ser dita» porque «Assim que falamos há portas que se fecham;» Arnheim concordava e do seu pensamento saiu a frase que dizia que «As almas unem-se quando os lábios se separam». Os tabus sociais, as regras invioláveis que os cercavam, obrigavam, mesmo sem o querer, Diotima a domar as águas revoltas do rio que a arrastavam, que a impulsionavam para os braços daquele amor que transportava no olhar e a faziam mover-se entre os fantasmas da realidade. Com Arnheim algo idêntico se passava, pese embora sentir-se na maior parte do tempo com vontade «de se precipitar, como um satélite desorbitado, na massa solar de Diotima». A fonteira aparecia junto à aldeia, subindo e descendo numa linha exígua perante a grandeza da montanha, e ao longe, como um ponto entre cores profundas aparecia a aldeia que procurávamos. O desenrolar do meu pensamento deteve-se no momento em que o comboio deslizou pelo interior da Wien Hauptbahnhof e deixei-me ir, de novo, sem rumo, com o silêncio das palavras que pedia Diotima.   

(1) Personagens da obra literário, “O Homem sem Qualidades, de Robert Musil

Foi há 20 anos que a NATO realizou um dos seus maiores crimes na história da Europa recente. Durante 78 dias, bombardeou o que restava da Jugoslávia, deixando um rasto de mais de 2000 civis mortos e fazendo regredir, sobretudo a Sérvia, 50 anos em termos de infra-estruturas. Não hesitaram em bombardear a Televisão, para que a verdade dos seus crimes não aparecesse nos ecrãs do mundo. Na autoria do crime, estava gente democratíssima, como Javier Solana, o impagável Toni Blair, Bill Clinton ou António Guterres, todos bem recompensados no futuro. Quando a Jugoslávia se rendeu exangue e a sepultar os seus mortos, criaram o Estado fantoche do Kosovo, hoje placa giratória do tráfico humano e do negócio da droga e espaço de uma grande base militar da NATO. O presidente sérvio foi levado prisioneiro para Haia e morreu assassinado quando se encontrava à guarda do Tribunal Penal Internacional, assim se protegendo a democratíssima gente do que Slobodan Milosevic poderia vir a dizer.     



A população dos EUA escolheu para presidente do país uma espécie de loucura humana, um míssil em voo que não se sabe onde vai cair. Esta demência rodeou-se de gente inqualificável. John Bolton é um desses seres que nasceu com o intestino grosso no cérebro e Elliott Abrams é dessa espécie de gente que num país decente estaria internado num hospital psiquiátrico em regime fechado. Há dias teve um diálogo delicioso sobre Juan Guaidó, o auto-proclamado presidente interino da Venezuela e que nessa qualidade estava obrigado a convocar eleições nos 30 dias imediatos. Confrontado com esse facto, Abrams disse que o tempo só começa a contar quando Maduro deixar o poder, o que só pode significar que o auto-proclamado presidente interino, só pode ser interino após Maduro deixar o poder, pelo que de momento, Juan Guaidó é apenas candidato a presidente interino! Creio que é muito compreensível a explicação do pro-cônsul de Trump. Digamos que o inefável Augusto Santos Silva tem estado a reconhecer como representante do poder venezuelano um candidato a presidente interino. Parece um atentado à inteligência, mas é só apenas esta gente a fazer de nós palhaços.



Em Madrid prossegue a farsa do julgamento de 13 presos políticos catalães. Para eles envio a minha solidariedade através da poesia de Manuel Alegre:

Deixai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria

Por isso Atenas não será vencida”


MEMÓRIA E RESISTÊNCIA

Manuel Joaquim


Peniche, Museu Nacional da Resistência e Liberdade



O núcleo do Porto da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses vai realizar uma excursão, no próximo dia 27 de Abril, ao Forte de Peniche para participar na inauguração do Museu Nacional da Resistência e Liberdade, “uma vitória alcançada de uma luta pela Memória e Resistência”.

Centenas de resistentes ao fascismo passaram pelas celas do Forte de Peniche. Em Janeiro de 1960 deu-se uma fuga histórica com repercussões mundiais. Falou-se de barcos e de submarinos que teriam participado no apoio à fuga dos fugitivos daquela prisão de alta segurança. Simplesmente a capacidade de organização e a inteligência daqueles Homens é que lhes permitiu tal proeza.

Devemos ter na memória outro local de terror que o fascismo manteve durante muito tempo a funcionar em Cabo Verde. O movimento de contestação que entretanto se desenvolveu a nível mundial obrigou os fascistas a fechá-lo. Mais tarde, durante a guerra colonial, foi novamente aberto para prender lutadores pela liberdade das ex-colónias. O responsável pela sua reabertura ainda está vivo e é uma alta personalidade política. 

Ary dos Santos escreveu um poema dedicado aos mortos-vivos do Tarrafal. O texto obtive-o das mãos da Dra. Fátima Silva numa aula de História. Pela sua importância faço a sua transcrição.

AOS MORTOS-VIVOS DO TARRAFAL – ARY DOS SANTOS

Ao cabo de Cabo Verde
dobrado o cabo da guerra
quando o mar sabia a sede
e o sangue sabia a terra
acabou por ser mais forte 
a esperança perseguida
porque aconteceu a morte
sem que se acabasse a vida.
Ao cabo de Cabo Verde
no campo do Tarrafal
é que o futuro se ergue 
verde-rubro Portugal
é que o passado se perde
na tumba colonial, 
ao cabo de Cabo Verde
não morreu o ideal.
Entre o chicote e a malária
entre a fome e as bilioses
os mártires da classe operária
recuperam suas vozes.
E vêm dizer aqui
do cabo de Cabo Verde
que não morreram ali
porque a esperança não se perde.
Bento Gonçalves torneiro
ainda trabalhas o ferro
deste povo verdadeiro
sem a ferrugem do erro.
Caldeira de nome Alfredo
fervilham no teu caixão 
contra o ódio  e contra o medo
gérmens de trigo e de pão.
E tu também Araújo
E tu também Castelhano
E também cada marujo
Que morreu a todo o pano.
Todos vivos! Todos nossos!
Vinte trinta cem ou mil
nenhum de vós é só ossos
sois todos cravos de Abril!
No campo do Tarrafal
no sítio da frigideira
hasteava Portugal 
a sua maior bandeira.
Bandeira feita em segredo
com as agulhas das dores 
pois o tempo do degredo
Mudava o sentido às cores:
O verde de Cabo Verde
o chão da reforma agrária
e o Sol vermelho esta sede 
duma água proletária.
Do cabo de Cabo Verde
chegam tão vivos os mortos
que um monumento se ergue
para cama dos seus corpos.
Pois se o sono é como o vento
que motiva um golpe de asa
é a vida o monumento
dos que voltaram a casa


José Carlos Ary dos Santos (poema feito aquando da trasladação para Portugal dos restos mortais dos 32 resistentes assassinados no Tarrafal)



PÁGINAS NEGRAS

Mário Martins

segundaguerra-etep.blogspot.com


Todas as guerras acabam reduzidas a estatísticas, estratégias, debates sobre as suas origens e os seus resultados. Estes debates sobre a guerra são importantes, mas não mais importantes do que a história humana daqueles que nelas combateram.” 
Martin Gilbert


A nova vaga de nacionalismo estúpido (ela requer, certamente, compreensão mas não complacência…) que, se for bem sucedida, poderá ditar o fim da União Europeia e tornar outra vez real o fantasma da guerra, e a recente passagem dos 100 anos sobre a data do armistício da guerra de 1914/1918, motivaram-me para ler as cerca de 2.400 páginas das obras do historiador inglês Martin Gilbert “A Primeira Guerra Mundial” e “A Segunda Guerra Mundial”.

De nada valeu a pergunta desesperada de um vespertino de Londres em 1 de Agosto de 1914: “Trezentos milhões de pessoas estão hoje sob o signo do medo e do destino. Não há  ninguém que quebre o encanto, nenhuma luz nesta fria e negra cena?”, já que, três dias depois, “na noite de 4 de Agosto de 1914, cinco impérios estavam em guerra: o império austro-húngaro contra a Sérvia, o império germânico contra a França, a Grã-Bretanha e a Rússia, o império russo  contra a Alemanha e a Áustria-Hungria, e os impérios inglês e francês contra a Alemanha”. 

Como de nada valeram, no final da guerra, em 1918, o aviso clarividente do Primeiro Ministro britânico, Lloyd George, de que as cláusulas do tratado do armistício que estavam a ser elaboradas pelas potências vencedoras podiam vir a ser “uma fonte constante de irritação dos alemães (…) Não concebo causa maior de uma futura guerra do que cercar o povo alemão (…) de vários pequenos povos (…) contendo cada um largas massas de alemães que clamam uma união ao seu país natal…”; ou a observação perspicaz do marechal Foch, generalíssimo dos Aliados, “Isto não é paz. É um armistício para 20 anos.”

Bastaria, com efeito, passarem vinte e um anos sobre a carnificina causada por esta grande guerra imperialista, para eclodir, em 1939, uma guerra nacionalista e  racial, ainda mais terrível, que empapou de sangue o solo europeu, africano e asiático, e transformou mares e oceanos num imenso cemitério de navios e cadáveres.

A quem se interessa pelo sofrimento humano e não, propriamente, pela arte da guerra, importa registar que, se a Primeira Guerra Mundial causou a morte de 9 milhões de militares (entre os quais 7.000 portugueses), e de 5 milhões de civis em consequência da ocupação, bombardeamentos, assassínios em massa, fome e doenças, num total estimado de 14 milhões de pessoas, a Segunda Guerra Mundial quadruplicou o número total de mortos e de feridos e incapacitados, não se sabendo, aliás, ao certo o número de vítimas. No cemitério principal da cidade alemã de Dresden, sujeita a intensos bombardeamentos, uma inscrição no túmulo colectivo pergunta: “Quantos morreram? Quem sabe o seu número?”.

Importa ainda reter que a Segunda Guerra Mundial não distinguiu entre militares e civis, nem entre homens, mulheres e crianças, nem respeitou as regras elementares da guerra. Pode dizer-se que foram três guerras numa só: a territorial, a anti-bolchevique e a racial, cabendo a esta última o horrível extermínio de 6 milhões de pessoas. 

A besta que há em nós andou seis anos à solta, cometendo os crimes mais hediondos e as loucuras mais insanas, reduzindo a nada o valor da vida humana. Nobre, mas ingenuamente, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, acreditava, à data da sua morte, em 1945, que “Mais do que pôr fim à guerra, queremos pôr fim à origem de todas as guerras – sim, pôr fim a esse método brutal, desumano e ineficaz, de lidar com as diferenças entre os diversos governos.” Mas depois do que se passou, não devemos ter dúvidas de que a besta, reunidas as condições propícias, voltará a atacar.

Uma das lições a tirar desta negra história, é que foi a política das potências vencedoras da Primeira Guerra, nos anos subsequentes (em que tinham força dissuasora), de conciliação com os ditadores expansionistas Hitler e Mussolini, e de (des)armamento ingénuo, que propiciou as agressões nazis e fascistas e a consequente eclosão da Segunda Guerra Mundial. Tivessem a França e a Grã-Bretanha uma política firme, no intervalo entre as duas guerras, e teriam, certamente, poupado o mundo a viver os anos negros da Segunda Guerra Mundial.

É por tudo isto que, sem prejuízo da reclamação da necessária melhoria do seu funcionamento, nenhum sentimento de injustiça ou de insegurança, nenhuma ideologia ou utopia, nenhuma preocupação soberana ou democrática, podem justificar a aventura perigosa de acabar com a União Europeia. Quem contribuir para esse desenlace carregará a culpa de expor novamente os cidadãos europeus e de todo o mundo ao perigo de se inserirem novas páginas negras nos livros de história.


01/03/19

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BALANÇO

Mário Faria

(Sondagem: 58% dos portugueses faz balanço positivo dos 2 anos da maioria de esquerda - Geringonça)


Nesta altura do ano, é costume os jornais e a TV escreverem e falarem sobre os acontecimentos mais marcantes do ano e, em função dos seus julgamentos, apreciarem os bons ofícios do Governo ou o seu contrário. Eram os três canais de notícias, uma dúzia de jornalistas e comentadores. O pluralismo não fazia parte dessas mesas. Peroram convencidos que eram os donos da bola. Parei na CMTV: aí a música e o refrão eram semelhantes mas havia mais barulho e artistas menos reconhecidos. Com o futebol, encontraram essa ilusão de equidistância, formando mesas de convidados e abrindo os jornais a alguns comentadores e escribas das forças dominantes do pé na bola. E descobriram, assim, nas disparidades que se mantêm, um tipo de tratamento que “garante” a igualdade de oportunidades a todos os parceiros. Azuis, verdes ou vermelhos. Uma mentira que não esconde as tendências dominantes na política e nos media. Apesar da escassez dessa abertura a que temos direito, é importante que não se perca qualquer oportunidade para nos situarmos à esquerda das verdades feitas.
O governo navega à vista, dizem uns quantos; outros compilam todas as desgraças do reinado da Geringonça, para reclamar e exigir mais. No meio das suas debilidades e batido pelas certezas da oposição, Costa tem uma tarefa árdua e sem aliados à vista, depois dos serviços mínimos que PCP e BE já cumpriram para fazer passar o Orçamento de Estado. Face a tanta contestação social, dei por mim a pensar que (talvez) uma mudança de governo possa ocorrer, apesar das sondagens não o indicarem. As greves dos professores e dos enfermeiros estão a desgastar o governo numa luta que não pode “perder”  e os trabalhadores querem “ganhar”. E neste processo quem sai favorecida é a oposição. Num país tão brutalmente endividado (dívida: pública, das empresas, das famílias e da banca) e, portanto, muito frágil a uma qualquer bolha maligna, capaz de irritar a Troika e os aliados cá do bairro. E se acontecer, já se sabe que quem vai pagar são os que, como no passado, gastaram acima das suas possibilidades: os suspeitos do costume.

A CEGUEIRA

Mário Martins

https://www.google.com/search?q=brexit+images



“As guerras entre povos serão mais terríveis do que as guerras de reis.” * 
Winston Churchill, em 1901

“Depois de qualquer guerra, as coisas ficam melhor.” 
Um parlamentar alemão, em 1911

“A Europa, na sua insanidade, deu início a qualquer coisa de inacreditável. É nestas alturas que percebemos a que triste espécie de animal pertencemos. Eu prossigo tranquilamente os meus pacíficos estudos e contemplação e nada mais sinto do que comiseração e repugnância.” **

Albert Einstein 19 Agosto 1914
(In A Primeira Guerra Mundial, de Martin Gilbert)

“As grandes nações sempre agiram como gangsteres, as pequenas, como prostitutas.”
Stanley Kubrick (1928-1999)


As próximas eleições para o parlamento europeu, a 26 de Maio, afiguram-se mais importantes do que as eleições de Outubro para a Assembleia da República. 

Elas vão realizar-se num tempo de forte pressão política - comandada por forças de extrema-direita, nacionalistas e populistas, mas em que participam, ainda que com diferente motivação, forças anti-capitalistas de esquerda - pelo “glorioso” regresso dos estados-nação.

É o caso do processo de saída do Reino Unido da União (seja ou não concretizada), como é o caso da retórica do governo italiano e de alguns governos da europa central, dos partidos de extrema-direita que  fazem parte do governo austríaco e do governo andaluz em Espanha, ou dos partidos da oposição de extrema-direita da Senhora Le Pen em França, da Alemanha, da Holanda e da Suécia, todos sob o impulso da ideologia nacionalista e populista veiculada pelo governo dos Estados Unidos. 

A União Europeia é acusada de pôr em causa a soberania dos estados-membros e de ser anti-democrática, mas, se por um lado a soberania dos países assenta (sem menosprezar a sua força militar) cada vez mais no seu poder económico-financeiro e no grau de domínio tecnológico, dificilmente se pode afirmar, por outro lado, que a União padece de um défice democrático quando os povos têm votado maioritariamente, pelo menos até à recente vaga nacionalista e populista, nos partidos claramente pró-europeus.

Em tudo isto é estranho e inquietante que não se dê  a devida relevância ao perigo de guerra - sobretudo por parte do povo inglês que bem conhece os seus horrores - que o eventual fim da União Europeia previsivelmente acarretaria entre nações historicamente caldeadas por séculos de hostilidades mútuas, de que, tragicamente, se destacam as duas grandes guerras nacional/imperialistas do século passado.

É certo que as condições objectivas, 70 anos depois do fim da segunda guerra mundial, não serão tão propícias à eclosão de uma guerra entre grandes nações europeias, já que a Alemanha perdeu o poderio militar de outrora e que a França e o Reino Unido são potências nucleares, mas não devemos subestimar os ressentimentos antigos, as disputas territoriais e de riquezas naturais, e o fervor patriótico.

Ao contrário, deveríamos ter presente que a ideia fundadora, em 1951, do que é hoje a União Europeia foi, a par da sinergia económica, a de evitar novos conflitos entre as nações europeias.  

O que está em causa nas eleições  de Maio é a opção entre o regresso a um nacionalismo serôdio e aventureiro e um europeísmo mais consentâneo com a concorrência de grandes potências político-económicas e com a crescente mundialização, empurrada pelo avanço das comunicações, dos problemas e das relações humanas. Nessa opção, em última análise, pode estar o regresso da guerra ou a manutenção da paz no espaço da União.   

*O livro “A Primeira Guerra Mundial”, de Martin Gilbert, é um horrível testemunho da validade desta predição.

**Apesar de esta frase sugerir uma completa inacção, a verdade é que o célebre físico assinou várias petições contra a guerra.

CORREIO DE DROGA

António Mesquita



Um horticultor, veterano da guerra da Coreia, esquece a família para tratar dos seus lírios de um dia. Falta ao casamento da filha e apenas se dá bem com a neta. Um dia o seu negócio vai à ruína por causa da venda de flores pela internet (por essas e por outras é que ele abomina a tecnologia). Porque é um condutor seguro, e pela sua idade provecta, que o torna insuspeito, oferecem-lhe uma boa maquia para conduzir (com uma carga de droga no porta-bagagens, da qual ele, implausivelmente, não quer tomar conhecimento). A coisa corre tão bem que Earl começa a poder ajudar a família, a pagar as bebidas nas festanças e até a salvar da falência a Associação dos Veteranos.

A polícia, pelo seu lado, está numa corrida contra o tempo para apanhar o correio da droga e os chefes querem resultados retumbantes. Mas o velho Earl é a última pessoa de quem desconfiariam.

A certa altura, Earl tem de escolher entre entregar a sua carga dentro dos prazos ou confortar a mulher que deu entrada no hospital para morrer. Apesar das ameaças de morte da parte dos traficantes, ele encosta a carrinha e redime-se aos olhos de toda a família acompanhando os últimos momentos da moribunda que tudo lhe perdoa.

Earl é depois confrontado com os 'dealers' e compromete-se a levar até ao fim a sua incumbência. Mas já é tarde de mais. A polícia intercepta a sua carrinha e o agente que o prende é o mesmo com quem teve uma conversa serena numa das suas paragens, e em que,  sem que o outro desconfiasse de que estava alí o homem que procurava, se considerou um falhado por ter feito as escolhas de vida erradas, preferindo o trabalho aos afectos.

No tribunal, antecipa-se ao seu advogado e declara-se culpado. Todos percebemos que a culpa que assume é sobretudo a de ter preterido as pessoas a favor do trabalho. 

As últimas imagens mostram-no de regresso aos seus 'hemercale', mas desta vez em paz consigo próprio.

A história está bem contada e soberbamente interpretada, mas não podemos deixar de nos sentir desconfortáveis com o pouco que pesa nas decisões de Earl o facto de estar ao serviço de uma rede criminosa. Como se poder ajudar a família e fazer um brilharete com os amigos fosse o passa-culpas perfeito. Ficamos com a sensação de que se não fosse a polícia, nenhum prurido de consciência afectaria o nosso homem. De resto, a admissão de culpa, no tribunal, é outra coisa que a confissão de que o seu desejo profundo é ser deixado em paz - pelos agentes, traficantes e, 'last, but not the least', pela própria família? A idade não perdoa...

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Levas-me pelos caminhos românticos deste jardim, abrindo-me as suas portas como se fosse uma visita guiada. Procurei-o quando pretendia ver Darwin na sua expedição descobridora que alteraria o olhar da humanidade sobre si própria e assim cheguei até ti e nele usufruí de um dos mais bonitos encontros da vida. De seguida tornou-se um espaço que é um misto de refúgio, de lembranças e recordações, de sonhos que desejava fossem reais. A Sofia, não a poetisa, mas antes uma jovem bióloga, apresentou-se. Falou com poesia da Casa Andersen, das suas simetrias e que aquando da sua construção destinou-se a um armazém de pólvora. Mais tarde, adquirida pelos avós da poetisa, a qual, na verdade nunca chegou a viver ali, mas antes um pouco adiante, na Rua António Cardoso, na Casa Cordeiro. Esta casa, cuja quinta possuía o dobro do tamanho, chegando até ao rio, até ser cortada pela VCI, era o seu espaço de lazer e repouso, de descanso e passeio e lhe marcou a infância. À entrada do lado direito a Sofia, a bióloga, mostrou-nos uma araucária. Espanto-me com esta gigantesca árvore tão presente na poesia de Neruda por ser oriunda da sua terra natal. Pensar no poeta, foi pensar num tempo de alegria e nas palavras que escreveu e fui soletrando ao vento, «as minhas palavras chovem sobre ti acariciando-te» e eu a desejar voar com elas em visita a esse espaço onde habitam os silêncios. Mostrou-nos a árvore do âmbar, o liquidâmbar. Prosseguiu caminho e explicou que as hidranjas são plantas invasoras nos Açores e que começam a tornar-se problema, pois vão diminuindo o espaço das plantas autóctones. Falou-nos dos plátanos e como as suas folhas se confundem com aquela que faz parte da bandeira do Canadá, e das bétulas, até pararmos junto ao jacarandá, mais conhecido como pau-santo, santo por ser com esta madeira que se construíam as igrejas no Brasil. Disse-nos também que quando a sua flor azul avioletada cai, transforma o caminho num tapete azul. Estamos agora junto aos cactos mas ao tentar fotografar pormenores, recantos, já não alcanço a explicação da totalidade. Entretanto, já havíamos apreciado, o alecrim e o tominho. Paramos agora junto dos dragoeiros e podemos apreciar o bosque que em tempos ali se iniciava e descia pela Arrábida. A estrada roubou as árvores e o silêncio, a tranquilidade. Estamos a meio e o meu pensamento passou a deambular em sonho. A árvore-da-borracha e o pau-brasil, aparecem já como som de fundo. Os lagos de nenúfares e papiros sobre o antigo campo de ténis são um momento de descanso. Caminhamos e aproximamo-nos da fonte que aparece na história do menino de bronze. O roseiral extenso, com alfazema, que serve para afugentar os mosquitos nas noites de Verão, e os lírios. Por fim, o jardim mais romântico do conjunto, o J, construído pelo avô da Sofia, a poetisa, para a Joana a sua avó. Tudo é bonito e belo. Deixo o olhar nas açucenas amarelas e no caramanchão sobre o banco. A Primavera faz viver o Outono. Estamos junto à entrada e o meu olhar e pensamento voam para o fundo do tempo, onde reina outra fragrância, outra beleza, outro aroma, outra alegria, no silêncio dos momentos infinitos e inesquecíveis. Lá dentro, no interior da casa grande, reinam cópias dos livros da poetisa, não dos que escreveu, mas dos que recebeu com palavras dedicadas, de ternura e carinho. E foram muitos, de homens e mulheres que admiraram o seu fulgor poético, a sua Grécia elevada no azul mediterrânico, ou a dignidade humana que outros cantaram. A tarde tomba devagar enquanto o sol penetra pelas janelas num banho de luz que nos acaricia enquanto contemplamos e lemos. No fim, ficamos sempre com aquele vazio na alma que nos faz ter vontade de regressar ao início, mesmo sabendo que a viagem, tal como a vida, já vai declinando para o crepúsculo.

O Estado espanhol prossegue em directo a farsa de julgamento dos presos políticos catalães, aos quais já condenou de antemão. O Partido Ciudadanos hesita, metaforicamente, entre a prisão perpétua e o fuzilamento; o Partido Popular não tem dúvidas: fuzilá-los e o antro de imundície que dá pelo nome de VOX, fuzilava-os todos os dias, e há cerca de 50% de espanhóis que se prevê votem nestes partidos. Na verdade, não conseguimos aprender nada com a história. 

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, manifestou-se consternado com a morte de três pessoas nos incidentes ocorridos na fronteira da Venezuela com o Brasil, aquando da tentativa frustrada da entrada ilegal de veículos com suposta ajuda humanitária; Qualquer morte de um ser humano é sempre de lamentar, mas ao fim de um mês de manifestações dos coletes amarelos em França, registavam-se 6 mortos, mais de 1400 feridos e milhares de detenções (http://visao.sapo.pt/actualidade/mundo/2018-12-14-Os-numeros-impressionantes-de-um-mes-de-coletes-amarelos) e nem uma palavra de consternação se ouviu do dito secretário-geral!

Já tínhamos no Brasil, Tiririca como um palhaço deputado e outro em Itália. Agora temos um deputado palhaço na Venezuela. Este é ventríloquo. Falam em Washington e ele repetia na Venezuela. Auto-proclamou-se presidente do país, no meio da rua em cima de um palanque. Nicolás Maduro foi eleito presidente com mais de 6 milhões e duzentos mil votos, Juan Guaidó foi eleito deputado com pouco mais de 90 mil. O espantoso é que este espectáculo grotesco foi reconhecido por 50 governos. Os EUA e o cartel de Lima, não é surpreendente, mas o número de países europeus, é demonstrativo de que a democracia entrou em terreno lamacento.

O impagável Augusto Santos Silva, reconheceu Juan Guaidó como presidente da Venezuela e de seguida foi solicitar ao governo de Maduro que permitisse a entrada de jornalistas portugueses, retidos no aeroporto por falta de autorização! Disse então que se dirigiu a quem controla as forças de segurança! O que controlará então o tal Juan Guaidó?


A SITUAÇÃO DO PAÍS

Manuel Joaquim

https://www.publico.pt/2018/03/20/politica/noticia/eleicoes-europeias-decorrerao-a-26-de-maio-de-2019-em-portugal-1807299



No próximo dia 26 de Maio vão realizar-se as eleições para o Parlamento Europeu cuja campanha está a realizar-se com muito empenho. Muitos locais estão a ser decorados com grandes fotografias de candidatos conhecidos e desconhecidos. O objectivo é a conquista de votos. Para muitos são lugares apetecíveis, são lugares ao sol.

A situação do país não é discutida com seriedade. A chicana política é o prato de todos os dias nas rádios, nas televisões e nos jornais para alimentar as conversas de café sobre assuntos tratados superficialmente e sem racionalidade. É a podridão a entrar nas mentes das pessoas sem quaisquer meios de defesa. É óbvio que existe uma orientação clara para atingir determinados objectivos.    

Os problemas da dívida pública e privada, com os respetivos encargos financeiros e a consequente falta de capital, os défices da produção, da agroalimentar, tecnológico, energético, de mão-de-obra e de mão-de-obra qualificada, a perda de capacidade de intervenção em sectores e em empresas estratégicas, designadamente no financeiro, hoje dominados por capitais estrangeiros servindo interesses que não os do país, não são tratados de forma esclarecedora com os portugueses.

Segundo o Relatório do Orçamento do Estado para 2019, os juros pagos pela dívida pública serão equivalentes a 3,3% do PIB, cerca de 6,9 mil milhões de euros por ano. Cerca de metade de divida interna é detida por instituições nacionais públicas e privadas e por aforradores/investidores. Em 10 anos Portugal pagou cerca de 73 mil milhões de euros de juros da dívida pública. Para os próximos cinco anos são mais 34 mil milhões de euros.

Quando se conhece que Portugal tem a maior zona exclusiva de pesca da EU e tem um saldo negativo na balança de pescado em mais de mil milhões de euros o que se pode pensar? O trigo produzido dá para 15 dias do ano, o milho dá para 4 meses e importamos 100 mil toneladas de arroz por ano. No leite somos autossuficientes para importamos 50 mil toneladas de queijo e 75 mil toneladas de leite. Falar da batata, da carne, da fruta, do azeite é falar das situações de desespero das pessoas que vivem nesses sectores. O Ministério da Educação compra maçãs francesas para oferecer nas escolas. 

O SNS tem sido o alvo dos grupos económicos da saúde. Pretendiam que o SNS se transformasse numa plataforma de transferência de dinheiros públicos para eles. Tirar ao Estado a sua verdadeira função. Os privados já têm mais de 50% das unidades de saúde existentes. 

São assuntos que merecem ser acompanhados com muita atenção. Das respostas que forem encontradas resultará um Portugal melhor ou um Portugal pior. E nessas respostas temos um papel a desempenhar.

01/02/19

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UM CERTO AMARELO

António Mesquita
("Trigal com corvos" de Van Gogh)

A simbólica das cores tem mudado ao longo dos tempos. O amarelo, ligado ao sol e ao oiro, já foi um atributo dos deuses, como Mitra, na Pérsia, e Apolo, na Grécia. Na Antiga China, era a cor do imperador, centro do universo, como o astro-rei e o famoso inquilino de Versalhes. O amarelo é a cor das espigas maduras e da terra no Outono. Além disso,  há aquele ditado que reza: "se não fosse o mau gosto, o que seria do amarelo?". Mais recentemente, essa é a cor dos coletes retroreflectores que todos temos de trazer no carro.

O fenómeno dos 'Gilets Jaunes' trouxe à política uma simbologia nova, ligada às emergências da condução, ao perigo na estrada, mas também a uma situação em que o indivíduo se encontra isolado na  cápsula automóvel que é sua responsabilidade. No movimento dos 'Coletes Amarelos' não houve só um desvio de função na indumentária obrigatória. Houve uma acção colectiva, digamos, de segundo grau, porque os indivíduos conservam, de algum modo, aquele vínculo com o automóvel. Talvez por isso o movimento  tenha resistido à hierarquia e à organização. 

Percebe-se o alcance simbólico disso. A acção política e social ganha  um novo poder expressivo, um novo dispositivo de acção, quaisquer que sejam os objectivos. Envergar o colete numa acção de rua significa já uma ideia, uma posição. Porque o colete é uma espécie de farda. O movimento poderá 'fazer escola', repetir-se, para outros desígnios,  sem cair no ridículo ou na irrelevância? Não é uma profissão que identifica os intervenientes, apenas um acessório do seu porta-bagagens.  Se é a cidadania, é uma cidadania fardada.

O amarelo acaba de levar uma volta na simbologia da política e do sindicalismo. Porque é verdade que, no século XX, 'amarelos' eram os sindicatos que punham em causa a unidade operária, 'amarelos' eram os 'fura-greves'. Amarela era também a estrela com que os nazis  quiseram marcar os judeus, e talvez precisemos de recorrer  à poesia para identificar o amarelo com a traição e a cobardia (yellow), por exemplo. Assim, de um momento para o outro, o contexto parece ter tornado estas conotações inactuais. E se não é a cor dos atributos de Apolo que podemos invocar, já não é também a palidez de Judas ou de Iago. 

Dir-se-ia que isto é lateral à política, mas não deixa de ser uma mudança de referências. É como dizer que o vermelho já não é a cor da Revolução. 

Este tempo de tecnologia vertiginosa sugere-nos que talvez precisemos de aprender a viver com a mistura e o precário, onde os signos e os valores se trocam como  numa grande Bolsa.

Mas essa é a atracção própria da vertigem. E alerta-nos para esta verdade esquecida: o tempo torna-se, cada vez mais, um objecto de conquista. Não se muda de paleta, acrescentam-se novas cores. Não é o amarelo do sol, nem o da traição. É o dos coletes.


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