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01/02/19

O REINO DA MERCADORIA

Manuel Joaquim

http://informacaoincorrecta.com/2018/07/11/breve-historia-do-neoliberalismo-parte-ii/


Quem acompanha a actual situação política, económica e social, nacional e internacional, apercebe-se da existência de um entrelaçamento complexo de difícil compreensão. 

Políticos e economistas, bem conhecidos, defendiam o liberalismo até há relativamente pouco tempo, tal como era defendido nos finais do século XIX, princípios do século XX. O(s) Mercado(s) autorregulado(s), sem intervenção do Estado, através da Oferta e da Procura encontravam os preços dos bens e serviços. 

O equilíbrio do poder, a moeda assente no padrão-ouro, o mercado autorregulado e o Estado liberal, bases da civilização de então, desabaram e a civilização do século XIX acompanhou esse processo. O capitalismo que se desenvolveu e consolidou a partir da revolução industrial sofreu transformações muito grandes. As guerras mundiais, o colonialismo e o seu fim, são acontecimentos que também contribuíram para essas transformações.

As tentativas que entretanto foram defendidas teoricamente e aplicadas pelo grande capital para a reconstrução do liberalismo, agora denominado de neoliberalismo, em que tudo é reduzido a dinheiro, tem dado os seus frutos: os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. A economia não pode desligar-se da sociedade, das pessoas. O desemprego prolongado, a desigualdade, a pobreza, a fome e miséria, têm consequências sociais desastrosas, sendo um cadinho para a violência. Há quem diga que o desemprego não é uma fantasia. Transformar o trabalho, que é a actividade dos seres humanos e o meio natural, a Terra, em simples mercadoria, como faz a economia de mercado, nome pomposo para o capitalismo, é criar condições para novas e grandes transformações na civilização.  



02/01/19

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ANO NOVO, VIDA VELHA

Mário Martins



https://www.google.com/search?q=ano+novo+imagens

“O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.”
Eclesiastes


Agora que, como ouvia aos velhos de outrora, vou testemunhando, até que o inverso se consume, o desaparecimento de pessoas da minha geração, ocorre-me aquela afirmação bíblica de que “nada há de novo debaixo do sol”. Num tempo em que vivemos uma acelerada bebedeira tecno-digital, que nos faz passar pela cabeça a vertigem da imortalidade e da eterna juventude, e que torna o futuro próximo cada vez mais imprevisível, podemos, paradoxalmente, dizer que tudo muda mas, afinal, nada muda? 

Quando afirmamos que tudo muda referimo-nos às condições de vida que, para não dizer desde os tempos bíblicos, tanto mudaram nas últimas cinco ou seis décadas: a tecnologia deu saltos exponenciais, a esperança média de vida em Portugal aumentou 17 anos, o trabalho alterou-se dramaticamente, o lazer e o turismo ocuparam cada vez  mais a nossa vida, o nível médio de bem estar subiu de patamar. O futuro, esse, adivinha-se vertiginoso e mais inesperado do que nunca.

No entanto, a um nível que podemos qualificar de essencial, nada mudou: continuamos a não saber o sentido da existência do todo de que fazemos parte; tal como os nossos antepassados e os outros seres vivos, todos morremos mais cedo ou mais tarde; o sofrimento continua a ser o reverso do bem estar, um e outro desigualmente repartidos; a estupidez mais insana continua a ofuscar o brilho da nossa inteligência, tão natural uma como a outra. 

É por isso que, como tudo muda e nada muda, é tão apropriado dizer “ano novo, vida nova”, como “ano novo, vida velha”…

NO CORRER DOS DIAS


Marques da Silva



Estou num desses momentos inesquecíveis em que me deixas espreitar a beleza do mundo que se esconde no interior do teu olhar. Deslumbrado, ouço-te dizer que vivemos dias de festa, de harmonia, de paz, tempo de pensar ainda mais nos outros, sobretudo naqueles que amamos e que acabam por ser o nosso amparo na rudeza agressiva dos obstáculos que a vida sempre semeia pela mão da maldade humana. Sigo o teu conselho e procuro tudo o que de positivo pode ser lembrado. Mas, diz-me, já que em ti tudo é formosura, enternecimento, delicadeza, como posso viver em harmonia, valorizar a paz se quando fecho os olhos, me aparece, como um ferro a arder, a escaldar os sentimentos, a esmagar-me a vontade, o frágil e pequeno corpo de Alan Kurdi numa praia turca. Que serenidade nos mostra a foto, quantas lágrimas correram pela face da mulher que fotografava para que o mundo não pudesse descansar, não ter tempo de festejar, enquanto aquele pequenino corpo jazia com o rosto a ser beijado pelas águas do Egeu e as sua s débeis pernas sobre a areia, num último sono, enquanto do outro lado do Atlântico, Hillary Clinton, a incendiária da destruição da Síria, ria, em riso aberto, enquanto dizia num grande contentamento, «chegamos, vimos e ele morreu». Assim, referindo-se à Líbia que sepultada numa catástrofe, deixava de ser um Estado para ser a terra de todos os crimes. Hillary, pirómana inflamada, ria, feliz, abertamente satisfeita, da morte de Kadhafi e de Alan Kurdi, enquanto este regressava à terra Síria de Kobane para jazer para todo o sempre, enquanto me incinera de impotência a consciência por não ter agido contra um mundo que impediu que aquela pequena alma chegasse a ter sonhos. Suponho que Hillary continua hoje a rir perante a morte aos milhares das crianças iemenitas que as bombas americanas enterram nas areias da milenar terra de Saná, na fronteira do Mar Vermelho e do Índico. Morrem pelo fogo das bombas assassinas e da fome impiedosa desta guerra esquecida e ignorada. Abre os teus olhos, deixa-me entrar na profundidade desse teu olhar tão puro, onde a maldade não consegue lugar, para tentar apaziguar a alma dorida, tentar apagar todo este incêndio que perturba as minhas madrugadas sem sono e me aparece, cheio do gozo, do riso da Hillary, também pelos milhões de afegãos mortos para ao fim de dezassete anos o exército milionário do seu país erguido sobre os ombros de um imenso genocídio, vir dizer que não é possível vencer a guerra contra o exército de fanáticos esfarrapados. Entretanto, quem faz renascer os milhões de mortos semeados na terra afegã? E quando tento fugir das praias turcas, aparece-me a coragem da jovem Ahed Tamimi a desafiar o exército judeu, autor do holocausto palestiniano, essa monstruosidade que, com a nossa omissão e complacência, foi sendo erguida ao longo de setenta anos. Não há exemplo de um outro Estado cuja totalidade da sua história, seja feita de guerras, de crimes, de indignidades, de campos de concentração, do incumprimento de todas as resoluções das Nações Unidas. No meio da noite chegam-me os gritos de Maria Mharta Brea a jovem médica raptada pelo estrume do exército argentino, à luz do dia, no hospital onde exercia e desaparecer para todo o sempre. Só trinta e quatro depois, soubemos que resistiu sessenta dias às torturas nesse antro de bestialidade humana que foi a Escola Mecânica da Armada e enterrada numa vala comum. Sim, desejava viver num tempo de paz e harmonia, mas diz-me como fazê-lo se quando fecho os olhos à procura de sonhos, de infinitos, da ciência à pesquisa de estrelas, só me aparece aquela face direita do menino Alan Kurdi deitada sobre a areia daquela praia que a foto imortalizou, retirou o som e lhe dá um silêncio que não consigo ouvir? Porque é que dentro da minha alma nocturna não ouço os sinos de Tchaikovski a celebrar a vitória em Borodino, mas antes o Dies Irae de Mozart a fazer-me sentir culpado por viver num mundo assim e quando tento fugir, perseguem-me os sinos que dobram, que Hemingway perpetuou, que dobram pela humanidade e por mim?

O início é sempre o mais penoso. Sabemos tudo, mas a primeira palavra não chega. O tempo, talvez o tempo. Não o que passa por nós e nos arrasta, mas o outro, o que não controlamos e chega do céu. Veio com os seus pingos minúsculos, molhados, inserindo-se no corpo e na alma, varrendo de cinzento a luz. O grito das gaivotas explode nos ouvidos e à alma dorida, junta-se a do corpo com os seus batalhões de frio e prostração. E não vi o primeiro entardecer da Primavera, penetrando pela noite. À alma derrotada juntou-se o corpo vencido.

O primeiro-ministro português, no Natal, foi visitar as tropas portuguesas no…, Afeganistão. Que pátria, estarão ali a defender os soldados a quem pagamos? O exército alemão admite a possibilidade de contratar soldados de outros países por falta de voluntários alemães! Para já, são médicos polacos. Há uns anos atrás, chamavam-se mercenários. Agora devem ter outro nome. A democracia tem tantas vitalidades!

PARA A HISTÓRIA DO FCP

Manuel Joaquim

Ao fazer arrumações encontrei entre papéis velhos diversos números do primeiro Boletim do Futebol Clube do Porto, cujo número 1 é de Outubro de 1945. 

Encontrei também a publicação do emblema do FCP, em tamanho A4, com a fotografia de Artur de Sousa, e com o pensamento “Fraquejaram os músculos, mas o meu coração continua a lutar pelo Clube, pelo Desporto e pelo Porto – Artur Souza 7-7-946”. O primeiro jornal tinha-lhe rendido uma homenagem. Quando eu era criança cheguei a ouvir conversas de muita admiração pela grande qualidade desse jogador. No seu tempo provavelmente o melhor jogador português. 

A partir do 3º número do Boletim, é contada em folhetim a História do Futebol Clube do Porto, por Camilo Moniz. O papel de José Monteiro da Costa e do seu “Grupo de Destino”, todos republicanos em tempo de monarquia, o primeiro campo de jogos na Rua de Antero de Quental, antiga Rua da Rainha, a influência dos clubes ingleses e dos seus equipamentos. 

Publico algumas páginas do Boletim para melhor apreciação.
  











SÍLVIO E OS OUTROS

António Mesquita

Sardenha, as orgias de Sérgio Morra (Riccardo Scarmacio), na vivenda em frente, com as suas raggazze dispostas a tudo, para atrair as atenções de Berlusconi. O contrato para uma escola conseguido graças a uma embuscada sexual a bordo.  Na primeira parte, algo enfadonha, ouvimos falar dessa espécie de Rei-Sol duma fauna decadente que chafurda no sexo e na droga. Os seus (loro) admiram o poder e o carisma do personagem.

Um terço do filme decorrido (esta é uma versão reduzida) surge, enfim, o ídolo tão cortejado, Sílvio Berlusconi (Toni Servillo), que nos surpreende pela complexidade do retrato. Não é a imagem do palhaço que prevalece, essa com que nos deixou a comunicação social naqueles anos. O homem na intimidade não força a admiração, mas está para além da caricatura. Não somos ingénuos para achar que esse é o Sílvio 'verdadeiro', mas ele tem o carácter e  a vitalidade duma grande figura de ficção. 

Verónica (Elena Ricci), a mulher que lê. Por fim, o assediante é convidado com as raggazze para a vivenda de Sílvio. A jovem de 17 anos que lhe diz que o seu hálito lhe lembra o do avô: nem perfumado, nem desagradável, de velho.

Para fazer cair o governo, compra seis senadores, com a mesma técnica do 'sogno e desiderio' com que vendia apartamentos. Por essas e por outras, Verónica pede o divórcio, mas confessa que esteve sempre apaixonada.

Regressa ao governo e rebenta o escândalo da corrupção dos seis.  O terramoto de Aquila (Abril de 2009) parece um castigo divino. Sílvio visita os desalojados e promete construir apartamentos para todos e pagar uma dentadura a uma anciã.

Mas o homem que 'nunca se ofende' e que crê que o melhor meio de servir o egoísmo é ser altruísta, está triste. Abandonado pela mulher, acossado pelos processos judiciais, todos o impedem de continuar a ser jovem e a fazer projectos.

Já sem convivas na sua villa, provoca mais uma erupçãozita no seu vulcão-miniatura.

Já se comparou esta abordagem ao mundo circense e às máscaras de Fellini. A personagem 'morde' pelo patético da sua situação. O vazio é o seu verdadeiro 'toque de Midas', porque cria o vácuo à sua volta. E não é esta a espécie de maldição do poder?

Enquanto o genérico se desenrola no final, assistimos às cenas de salvamento em Aquila. Cenas mudas, quase fantasmáticas. A certeira demonstração da máxima berlusconiana sobre o altruísmo. O paradoxo ilustra de facto a falência do social e o barbarismo do magnata dos mídia e do seu mundo.

Mais do que um retrato do 'Cavaliere', é a própria Itália desse período e o poder inexplicável de um tal homem que nos confronta.

01/12/18

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva
https://alunosonline.uol.com.br/historia/civilizacao-persa.html


Há momentos na vida em que as palavras que nos amparam se apagam, parecem jazer adormecidas no cemitério da humanidade, caladas entre os cedros das áleas onde só resta a terra do piso onde caminhamos. Silenciadas, deixam-nos naufragados entre as ruínas do tempo, vogando sem rumo, acreditando no infinito, mas com a certeza de que esse ponto onde se unem as linhas marginais da vida e no qual termina a esperança se torna visível como um radar cujo feixe se mostra cada vez mais perceptível. Sem palavras, queda a memória na procura de recordações. Tendo aprendido a perceber o mundo através dos teus olhos, tornando-os refúgio da alma face às calamidades da vida, regresso às lembranças do passado nas asas de aves andinas. Não resisto em regressar ao deserto levantino onde as palavras se tornam inúteis quer pela beleza dos seus murmúrios, ou pela tempestade de violência que os homens semeiam sobre as suas areias. Alepo vive em mim. Mesmo agora, um espectro de si mesma e um esqueleto da sua glória, impressiona-me, deixa-me nesse mutismo em que ficamos quando a grandeza supera a nossa imaginação. Por momentos, parece que a ternura voltou a inundar as areias do deserto, mas o fragor das bombas para além do Eufrates, ainda interrompe esta melodia melancólica. É verdade que são bombas democráticas, bombas com direitos humanos, bombas com justiça, fogo dos bons contra os maus, mas quando procuramos melhor, percebemos que os ladrões matam os seus infames servidores. Apesar do êxtase que gera em mim a quietude da paisagem, da brisa que não chega a desacomodar-nos, dos oásis onde descansamos a sede e a fadiga, levas-me pela mão para lá desta loucura humana, fazes-me atravessar o Tibre, percorrer caminhos solitários até te deteres no palácio de Persépolis. No entardecer encantador de um passado longínquo acredito que os únicos sons que escuto são marítimos, como se o golfo estivesse espreitando para além dos seus muros que resistem soberbos ao passar da história. Falas-me em farsi e acredito encontrar na doçura desta língua, as palavras que se me secaram em latim. Falas-me do tempo, do pretérito, da maldade, da beleza e da violência que a humanidade leva no seu caminho. Percorres em passo vagaroso as áleas outrora soberbas deste reduto real e escuto em silêncio magoado essa evolução mental que nos leva desde as pedras lascadas até ao espaço extragaláctico. Continuam a faltar-me as palavras e sem elas, deixamos de amar, pois mais do que com os gestos, amamos com as palavras, são elas que nos expressam perante os outros e o que nos rodeia. Sem palavras, sem esse som em que modelamos os sentimentos e os afectos o amor esconde-se, como eu agora me oculto nas ruínas deste símbolo de um poder grandioso. Da humanidade chegam-me sussurros, tudo mais são gritos que me recuso a ouvir. Berros dos senhores, dos que sempre mandaram e impuseram a docilidade dos seus servos e cultivaram a obediência a que chamam ordem. E a cada rugido senhorial, uma bomba rebenta sobre a terra dos seres humanos, os que acreditam que com uma cruz no interior de um quadrado podem mudar o mundo, mas apenas mudam os que mandam no mundo, os que impõem, os que bombardeiam. E assim vamos perecendo, seja ontem, será amanhã. O dia declina e persistes em falar numa língua que decides ser ela própria, ao mesmo tempo, poesia e jardim de rosas. Desconheço a língua, mas compreendo tudo o que me dizes. Falas-me de humanidade, da ternura humana, das odisseias que engrandecem a vida e da esperança que um dia sem data se sobreporá sobre o estrume de qualquer comunidade internacional que quotidianamente nos esmaga a alma. Disse-te que se me esgotaram as palavras.

Desde a Idade Média, a morte por enforcamento ou decapitação, ou mesmo nas fogueiras inquisitoriais, era motivo de mobilização popular. Em torno do lugar da morte, juntava-se uma turba, maioritariamente para desfrutar do gáudio de ver morrer. Em qualquer das situações, sobretudo na decapitação e no enforcamento, a morte não ocorria ao primeiro golpe o que aumentava o sofrimento do supliciado e projectava ainda mais o deleite da assistência. Não era um acto censurável. Era normal e tradicional. Na Revolução Francesa, Guillotin, impressionado com o padecimento das vítimas, inventou um aparelho eficaz e rápido, a guilhotina, cujo uso diminuía a ansiedade e a dor da morte. Das primeiras vezes, a multidão aumentou para ver a eficácia do aparelho, mas um ah! de desolação percorreu a massa embrutecida, pois o espectáculo era demasiado rápido para o seu gosto e a tortura em que se tornava a morte, praticamente desaparecia. A pena de morte encontra-se hoje quase erradicada do hábito humano, mas muita dessa maldade foi transferida para lutas de morte entre animais e, uma outra turba, em tudo idêntica à medieval, junta-se para de novo erguer os seus instintos maldosos, sentindo-se agora menos culpada, pela exclusão do sofrimento humano. No Paquistão é uma tradição cultural colocar um urso ao qual previamente foram extraídas as garras, a lutar com seis cães selvagens, até à morte, naturalmente. Faz parte da cultura tradicional. Por cá, neste território de nome Portugal, temos algo parecido mas mais civilizado, a que chamamos touradas, em defesa das quais apareceu Manuel Alegre com um conjunto de frases como emblema, nomeadamente quando nos diz que, «que aqueles que não compreendem as touradas não compreendem a literatura nem a poesia», acrescentando que é «preciso compreender a relação sagrada que existe entre o toureiro e o touro». Definitivamente, a idade não perdoa. 

O PCP, o PSD, o CDS e uma parte do PS, aprovaram na Assembleia da República que os impostos de todos nós vão subsidiar a assistência às touradas. É a política no seu esplendor.

“Vivemos na sociedade do conhecimento mas sem conhecimentos suficientes. Olhamos para a Prodata e verificamos que um dos índices mais dramáticos é o da população activa sem ensino secundário ou superior. Em Portugal 52% não tem escolaridade suficiente. Na Europa, a média é de 22%. É uma catástrofe.”, diz-nos Carlos Fiolhais em entrevista ao suplemento educação do JL. Depois admiramo-nos quando deixamos ruir pontes, famílias morrem inteiras em condições sub-humanas por não pagarem atempadamente a energia eléctrica enquanto um crápula recebe 3 milhões por ano de prémios. Por fim, deixamos que uma estrada desapareça no fundo de uma vala com 80 mts e, tal como há 20 anos os areeiros se apressaram a afastar a sua responsabilidade, agora apareceram na primeira fila os marmoristas no mesmo clamor: «eu não»! E pensar que são aqueles 52% que decidem sobre a vida e o futuro dos restantes 48%, democraticamente, naturalmente.

O presidente da Câmara de Borba não se demite porque nunca imaginou que a estrada pudesse ruir. O dono da pedreira também não imaginou. As vítimas mortais certamente não imaginaram, pelo que não há responsáveis. A não ser que imputemos a responsabilidade a alguém que possa ter imaginado!



UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES

António Mesquita
Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões
de Hirokazu Kore-eda



Eis a história de uma estranha família a que faltam laços de sangue, mas em que o maior desejo de grandes e pequenos é merecerem o nome de pais e filhos. A família típica acaba por ser a ideia que une estes seres cujo encontro parece dever-se ao acaso.

Num tugúrio com a avó, Hatsue, vivem Osam, um ser esquivo e amoral, dado às artes da sonegação, a companheira Noboyu, que, por um tempo, trabalhou numa lavandaria, a jovem irmã, Aki, que contribui para o mealheiro com sessões de pornografia 'soft', Shota, um rapaz de 12 anos que não conhece os pais e Yuri, uma menina de 6, recolhida na rua. 

Começamos por assistir ao 'modus operandi' de Osamu e de Shota num supermercado. Enquanto um faz cair os artigos na mochila, o outro cobre   o ângulo de visão da vigilância. O grupo sustenta-se da pensão da avó e destes pequenos furtos.

Mas a avó morre depois de um momento de graças e de contemplação diante do mar. Para não faltar a principal fonte de pecúnia, é enterrada em casa e a vida segue em frente com mais um espírito do lar.

Shota começa a reparar nos seios femininos e tem a primeira erecção. Isso coincide com um rebate de independência. Ao iniciar a menina na manobra  do furto, é surpreendido pelo logista que oferece uma guloseima a Yuri e aconselha o rapaz a não ensinar a criança a roubar. A partir daí, a autoridade de Osuma é posta em causa. Já não basta que os roubos não provoquem a falência, espécie de justificação do chefe. A dúvida corrói o pequeno delinquente que parte una perna na fuga e se deixa apanhar.

A família, temendo a perseguição, faz as trouxas e tenta escapar durante a noite. São surpreendidos pelos faróis da polícia.

Noboyu é presa, assumindo as culpas de Osuma, que é reincidente. Yuri é entregue à família verdadeira (que a maltratava), Shota inicia a sua reeducação institucional.

Um dia encontra-se com Osuma e dorme em sua casa. Mas já nada é como dantes. Aquele já não pretende o título da paternidade, nem Shota acredita nele.

É assim que este filme complexo, baseado numa notícia, nos leva a interrogar algumas das nossas certezas e, sem parecer fazê-lo, mostra através de uma célula atípica, como é esta convivência feita de afectos e de práticas marginais, a ideia de uma sociedade em crise de identidade.

Hirokazu Kore-eda, que obteve a Palma de Oiro no Festival de Cannes deste ano, é também o realizador, entre outros filmes, de "Ninguém Pode Saber" (2004), "O Que Eu Mais Desejo" (2011), "Tal Pai Tal Filho" (2013).

LIÇÕES PARA O PRESENTE

Mário Martins


http://www.elsinore.pt/livros/21-licoes-para-o-seculo-xxi



Os seres humanos pensam através de narrativas e não através de factos, números ou equações, e quanto mais simples a narrativa, melhor.”

“As políticas democráticas, os direitos humanos e o capitalismo de mercado livre pareciam destinados a conquistar o mundo inteiro; mas, como de costume, a História tomou um rumo inesperado, e, depois de o fascismo e o comunismo colapsarem, agora é o liberalismo que está em apuros.”

“Se o liberalismo, o nacionalismo, o Islão ou qualquer outro credo novo quiser moldar o mundo do ano 2050, terá não só de conseguir explicar a inteligência artificial, os algoritmos da Big Data* e a bioengenharia como também de os integrar numa nova narrativa com sentido.”
Yuval Noah Harari

Este novo livro de Harari anda à volta de uma preocupação central: “a crise ecológica iminente, a crescente ameaça das armas de destruição maciça e o surgimento de tecnologias disruptivas” tornam premente o debate sobre “as limitações da democracia liberal, e de que modo podemos adaptar e melhorar as suas instituições actuais”, já que, se não o fizermos, “a mão invisível do mercado vai impor-nos a sua resposta cega”. Explica o autor que “grande parte do livro analisa as falhas da mundividência liberal e do sistema democrático, não por julgar a democracia liberal particularmente problemática, e sim por pensar que se trata do modelo político mais bem-sucedido e versátil que os seres humanos já desenvolveram para enfrentar os desafios do mundo moderno.”

Harari preocupa-se, desde logo, com a questão do trabalho ou do emprego. Embora ironize - “quando fores grande, talvez não tenhas profissão” -, reconhece que não tem a menor ideia de como será o mercado de trabalho em 2050. Em todo o caso, defende que “para lidarmos com as disrupções tecnológicas e económicas inéditas do século XXI, há que desenvolver novos modelos sociais e económicos o quanto antes; estes modelos devem reger-se pelo princípio da protecção das pessoas e não dos postos de trabalho”, conceito que, segundo o autor, está já a ser posto em prática na Escandinávia. “E se apesar de todos os nossos esforços uma percentagem significativa da Humanidade for empurrada para fora do mercado de trabalho, podemos ter de explorar novos modelos para sociedades pós-trabalho, economias pós-trabalho e políticas pós-trabalho”. Com efeito, Harari admite que “em 2050 pode surgir uma classe ‘inútil’ não apenas devido a uma total falta de empregos ou de habilitações relevantes, mas também devido a uma falta de resistência mental (às mudanças abruptas e cada vez mais aceleradas a que as pessoas serão sujeitas)”. Neste quadro, profissões como as de psicólogo e de psiquiatra não correrão perigo de extinção…

Outra preocupação do autor é a vaga nacionalista em curso: “Hoje temos uma ecologia mundial, uma economia mundial e uma ciência mundial – mas ainda estamos presos a políticas nacionais (…) Não sendo possível desglobalizar a ecologia e a marcha da ciência, e dado que o desglobalizar da economia teria custos proibitivos, a única solução viável é globalizar a política. Isto não implica, no entanto, o estabelecimento de um ‘governo global’ (…) significa apenas que as dinâmicas políticas dentro dos países – e até cidades – deveriam colocar muito mais ênfase nos problemas e interesses globais.”

Harari alerta que “os algoritmos da Big Data  podem criar ditaduras digitais em que todo o poder se concentra nas mãos de uma pequeníssima elite, enquanto a maioria das pessoas sofre não devido à exploração, mas devido a algo muito pior: a irrelevância.”; e conclui: “Se o futuro da Humanidade se decidir na nossa ausência – porque estávamos demasiado ocupados a alimentar e a vestir os nossos filhos -, tanto eles como nós não ficaremos imunes às consequências. Isto é muito injusto; mas quem disse que a História é justa?”

O autor aconselha, enfim, que não entremos em pânico (que, para ele, é uma forma de soberba de quem “sabe” que nos espera o fundo do poço) e que, em vez disso, adoptemos uma atitude de perplexidade, própria de quem não compreende o que se passa no mundo. Afinal de contas, a crédito de uma razoável confiança no futuro, podemos convocar o extraordinário poder de adaptação da Humanidade revelado até agora e as previsões apocalípticas de todo o tipo que ficaram pelo caminho. 

*grande conjunto de dados que só as novas tecnologias da informação permitem recolher, armazenar a analisar.

ALGUMAS NOTAS SOBRE AS GREVES

Mário Faria



O protesto nacional dos juízes contra a revisão "incompleta" do Estatuto, por não contemplar reivindicações remuneratórias e de carreira, espoletou uma greve geral, que levou ao cancelamento de muitos julgamentos e outras diligências processuais.

O presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) previu que a greve geral terá uma "adesão muito forte", culpando o Governo por não deixar outra alternativa aos magistrados judiciais ao apresentar uma proposta de revisão do Estatuto que "não é aceitável".

Os enfermeiros iniciam uma greve inédita às cirurgias programadas em cinco blocos operatórios de hospitais públicos que durará até ao último dia do ano. Hospital de Setúbal, hospital de Santa Maria, hospitais de Santo António e São João e no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra aderiram a esta greve; “A adesão dos enfermeiros que trabalham nos blocos operatórios estará muito perto dos 90%. 

Os estivadores em protesto no Porto de Setúbal bloquearam a passagem de um autocarro que transportava os trabalhadores que os vão substituir no carregamento de um navio com viaturas da Autoeuropa. Ao todo, há 150 precários em Setúbal, um porto que tem sido notícia exatamente pelo número excessivo de trabalhadores sem vínculo laboral (90%) que asseguram, ali as operações diárias. "Restam uns 30 trabalhadores efetivos, o que não é suficiente para assegurar o movimento de navios em todos os turnos, até porque a par da indisponibilidade para trabalhar dos precários, também, está em curso uma greve às horas extraordinárias", diz o sindicato.

Agora, numa altura em que a troika deixou o país há quatro anos e com um novo Governo em funções, o cenário não é muito diferente, sobretudo entre os trabalhadores da administração pública. Quando o Executivo liderado por António Costa assumiu funções, em 2015, começou-se a assistir a uma redução nas greves gerais e setoriais. Só nesse ano houve 87 paralisações em todos os setores da administração pública, de acordo com os números do Ministério das Finanças. No entanto, desde o ano passado que os ânimos entre os funcionários públicos voltaram a aquecer e o número de paralisações voltou a subir. No total, em 2017 houve 144 greves, e tudo indica que este ano o número de paralisações seja superior. Em 2018, face aos indicadores já conhecidos, vão aumentar os números de paralisações face ao ano anterior e muito provavelmente ultrapassar os valores registados no tempo da troika. 

O Privado em contraciclo: ao contrário da administração pública, entre os trabalhadores do privado o número de greves tem vindo a reduzir nos últimos anos. Segundo dados oficiais do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, dos 488 pré-avisos de greve entregues em 2016 pelos trabalhadores do privado, apenas 76 se concretizaram. Os números revelam ainda que o número total de paralisações entre os trabalhadores do privado tem vindo a reduzir. O sector dos transportes é o mais reivindicativo.

Os sindicatos têm milhares de funcionários cujo trabalho não é outro senão esse, e os meios de comunicação social têm formas de trabalhar que são sempre iguais: directo à porta do protesto, conversa previamente combinada com o sindicalista de serviço, números de adesão estratosféricos, jornalistas a debitar a cassete do trabalhador oprimido, discussão do tema nos canais por cabo à noite, e por aí fora. Esta coreografia está altamente rotinada e não é nada fácil de quebrar. Se a esquerda não dança, a comunicação social fica sem par – e a direita não conhece os passos. Esta foi a grande fragilidade de PSD e CDS nos últimos três anos. Ao mostrarem-se incapazes de ocupar o espaço que PCP e Bloco deixaram ao abandono, a direita ficou não só sem governo, mas também sem oposição. (João Miguel Tavares)

Apenas a esquerda e o PAN votaram a favor da recomendação do PCP para aumentar o Salário Mínimo Nacional (SMN) para 650 euros mensais em Janeiro. PS, PSD e CDS votaram contra e consideraram que o assunto deve ser tratado em sede de concertação social, que servirá (como habitualmente) de refúgio para adiar esta reivindicação mais do que justa. Os salários no nosso país são baixos e o salário mínimo deve constituir-se como objectivo primeiro da acção sindical. E o período pré eleitoral deve servir para denunciar o que o governo não vai ser capaz de propor e negociar. Se a greve dos estivadores se percebe tão bem (e até faz parte do nosso imaginário (quem não se lembra do "Há lodo no Cais"?), acho que a greve dos enfermeiros e a dos juízes apelam a um estatuto elitista e não deveriam ser autorizadas. 


PELA PAZ

Manuel Joaquim



A necessidade de se trabalhar para a construção de um mundo melhor, sem miséria, sem fome, com mais e melhores empregos, com mais educação, mais saúde, o que, ao fim e ao cabo, Sérgio Godinho sintetiza numa canção sua, obriga-nos a ter presente os problemas da Paz, pois, sem ela, tudo o que sonhamos vai por água abaixo, com muita dor e sofrimento. 

Existem pessoas que pensam que a civilização após uma guerra nuclear voltaria a uma situação idêntica à que existia na Idade Média. Nada mais falso. As imagens das cidades do Japão que foram bombardeadas na segunda guerra mundial e das cidades da Síria, do Iraque e do Afeganistão que estão neste momento em guerra, demonstram que as pessoas, só por si, não têm meios de sobrevivência. A Idade Média foi um período de reconversão e de reorganização da sociedade, onde se deu o desenvolvimento do ensino e criação das universidades, das artes e ofícios, avanços acentuados nas ciências e nas técnicas, o renascimento.
Uma guerra entre as grandes potências pode ser o fim da nossa civilização. Normalmente as guerras começam quando estão em causa poderes que são liderados por cabeças perturbadas.

As arrogâncias que observamos em alguns líderes, os gastos em armamentos, suficientes para acabar com a fome em todo o mundo, obriga-nos a meditar.

No passado dia 20 de Outubro, realizou-se o Encontro pela Paz, no Pavilhão Paz e Amizade, na cidade de Loures, com a presença de mais de 700 pessoas, representantes dos vários núcleos existentes no país do Conselho Português para a Paz e Cooperação, das Câmaras Municipais de Évora, de Gaia, de Montemor-o-Novo, de Palmela, do Porto, do Seixal, de Soure, Movimento Municípios pela Paz, diversas Juntas de freguesia, diversas organizações sindicais, diversas colectividades, associações de estudantes do ensino secundário e superior, Juventude Operária Católica, Liga Operária Católica, Movimento de Trabalhadores Cristãos, Pastoral Operária, URAP, Associação Nacional dos Sargentos, Liga Portuguesa dos Direitos Humanos-Civitas, Movimento Erradicar a Pobreza, Organização dos Trabalhadores Científicos e muitas outras instituições. 

As intervenções, todas elas exprimindo uma grande sensibilidade para as questões da vida das pessoas e para a necessidade de abrir caminhos para a Paz através da solidariedade e cooperação entre os povos, da defesa do desarmamento, foram muito bem recebidas. Duas intervenções registei com particular atenção: A do padre católico local e do jovem representante da Frente Democrática Brasileira de Lisboa. 

Foi uma grande iniciativa mas como já sabemos a comunicação dita social não noticiou.

No final do Encontro a Presidente da Juventude Católica Portuguesa, apresentou o seguinte documento que foi muito aplaudido por todos os presentes.

Apelo à defesa da PAZ

No encerramento deste Encontro pela Paz, que consideramos de grande oportunidade e importância, e em nome das organizações que o promoveram, saudamos todos quantos participaram e contribuíram para a sua realização e afirmamos o nosso empenho para que prossiga e se alargue ainda mais a convergência de vontades e a acção em defesa da paz, considerando-a essencial à vida humana e uma condição indispensável para a liberdade, a soberania, a democracia, o progresso social, o bem-estar dos povos – para a construção de um mundo melhor para toda a Humanidade.

Reconhecendo que a defesa do espírito e dos princípios da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional é base fundamental para o fim do militarismo, da corrida aos armamentos e da guerra, assim como para defender e promover a paz e o desenvolvimento de relações mais justas e equitativas entre os povos de todo o mundo, afirmamos o nosso empenho e apelo à promoção de uma cultura de paz e de solidariedade entre os povos, dando particular atenção aos povos vítimas de ingerência, de agressão e de opressão, incluindo os refugiados, e desenvolvendo uma acção de incentivo à paz e à cooperação em alternativa à guerra e à rivalidade nas relações internacionais.

Considerando da maior importância a educação para a paz, nomeadamente junto das novas gerações, em prol dos valores da paz, da amizade, da solidariedade, da cooperação, da dignidade e da equidade – valores que devem caracterizar as relações entre os Estados e entre os povos –, afirmamos o nosso empenho e apelo a que se promovam iniciativas neste âmbito, designadamente, com escolas, associações e autarquias, nomeadamente em torno do Dia Internacional da Paz (21 de Setembro) e dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Conscientes da premência do fim das armas de extermínio em massa, nomeadamente de todas armas nucleares, afirmamos o nosso empenho e apelo a que se promovam iniciativas públicas que não esqueçam os bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui e o Dia Internacional para a Abolição Total das Armas Nucleares (26 de Setembro) e pugnem pela assinatura e ratificação por Portugal do Tratado de Proibição das Armas Nucleares.

Recordando que em 25 de Abril de 2019 se comemoram os 45 anos da Revolução de Abril, que acabou com 48 anos de fascismo e 13 anos de guerra colonial, e que consagrou na Constituição da República Portuguesa importantes princípios de relações internacionais para Portugal e o povo português – como a independência nacional e a igualdade entre os Estados, o respeito dos direitos humanos, dos direitos dos povos, a solução pacífica dos conflitos internacionais, o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares ou a criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos – afirmamos o nosso empenho e apelo a que se promovam as suas comemorações.

Conscientes de que a paz é um direito fundamental da Humanidade, sem o qual nenhum outro estará garantido, e alertando para os perigos que a ameaçam, consideramos que este Encontro pela Paz foi um passo importante para o movimento da paz no nosso País e afirmamos a vontade de continuar a unir esforços em Portugal na defesa da paz no mundo, assumindo o compromisso de realizar um novo Encontro pela Paz, pois, pela paz, todos não somos demais!

Encontro pela Paz, Loures, 20 de Outubro de 2018

01/11/18

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A APARIÇÃO

António Mesquita

"A APARIÇÃO"  (de Xavier Giannoli)

Um jornalista (Vincent Lindon) reputado pelas suas reportagens de guerra e que acaba de perder o seu melhor amigo numa missão de alto risco, responsabilizando-se por isso, enfrenta uma grave crise que o leva ao desespero e ao isolamento. É nesse momento que é convidado pelo Vaticano, para fazer parte duma comissão de inquérito aos acontecimentos numa povoação do sul da França que envolvem uma freira noviciada de 17 anos (Galatéa Bellugi) que alega ter tido um encontro com a Virgem. Essa aparição tinha se tornado em pouco tempo um fenómeno internacionial, arrastando multidões de crentes, e à volta da 'visionária' e do padre local (desautorizado pela hierarquia) multiplicaram-se os negócios e os oportunistas dispostos a explorar essa espécie de turismo  e a fé dos crentes.

Jacques Mayano entrega-se a essa investigação, com a mesma escrupulosa perseguição dos factos que o tornaram famoso, factos que desta vez se escondem por detrás da sinceridade comovente da heroína e do ilusionismo de alguns charlatães.

Uma empatia estranha se manifesta, entretanto, entre a freira e o jornalista. Ele, querendo fugir aos clichés, mas nunca satisfeito com as respostas 'toutes faites' que Anna lhe oferece. É o passado dela, sobretudo, que levanta mais questões, e do qual Jacques procura a revelação.

Este método, é escusado dizê-lo, é-lhe sugerido pelo interesse apaixonado em resolver o seu próprio impasse. Como viver com a culpa de termos falhado à pessoa que mais queremos e causado com isso a sua morte? É nas fotografias e cartas antigas de Anna que Jacques descobre o silêncio gritante sobre uma amizade especial (uma amizade 'fusional' diz uma testemunha). Meriem desapareceu da comunidade, com o bebé e um tal Pavel, depois de uma experiência traumática que a história nos leva a identificar com a alegada aparição. Terá sido Meriam a ter a visão (para ela assustadora) que não pôde 'racionalizar', nem, por outro lado', identificar com o 'sagrado', e que Anna, a orfã, chamou sua, como se tivesse visto com os seus próprios olhos. Quer dizer, tomou a experiência do outro no sentido que mais razão dava à sua própria existência, como um destino. A sua única dúvida era, como diz a Jacques, se seria digna de sofrer até ao fim.

Anna acaba por morrer 'em santidade', colocando a questão das provas ao nível da futilidade. E, no entanto, pode dizer-se que escondeu a verdade, porque ela não era Meriem.

A psiquiatra da comissão de inquérito não lhe encontrou nenhuma disfunção psíquica. De qualquer modo, não nos satisfaria um diagnóstico de loucura.

Jacques Mayano, depois da revelação do segredo de Anna e de Meriem, é capaz de vencer a sua crise existencial e de encontrar uma saída para o seu sentimento de culpa.

Mas o filme mostra que não foi a imparcialidade que lhe fez compreender a 'vidente', nem a sair do seu desespero.

CONTRA A DEMOCRACIA

Mário Martins

(https://www.google.com/search?)

Muitos dos meus colegas têm uma visão algo romântica da política: a política junta-nos, educa-nos e civiliza-nos, e torna-nos amigos com bons princípios cívicos. Do meu ponto de vista, a política faz o oposto: separa-nos, paralisa-nos e corrompe-nos, e torna-nos inimigos sem civismo. (…) O melhor seria a maior parte das pessoas não se preocupar sequer com a política.”
Jason Brennan, “Contra a Democracia”, Ed. Gradiva

Prevejo que a maioria dos leitores encontre muita coisa com que discordar – eu certamente encontro -, e que também a maioria considere, com inquietação, que é difícil resistir aos argumentos de Brennan sem vacilar”
Jacob T. Levy, Universidade Mcgill


Para quem foi educado nos valores da participação política e do ideal democrático, este é um livro desconcertante e politicamente incorrecto, com potencial para pôr à prova o conforto das convicções mais sólidas.

O autor divide o eleitorado em três tipos: “os hobbits, apáticos e ignorantes quanto a política, correspondem ao não-votante típico. Os hooligans, fanáticos desportivos da política, sustentam que as pessoas com ideias alternativas sobre o mundo são estúpidas, más, egoístas ou, na melhor das hipóteses, estão profundamente enganadas; constituem a maior parte dos votantes regulares e das pessoas com actividade política. Os vulcanos pensam científica e racionalmente sobre política, tentam activamente evitar ser tendenciosos e irracionais, mas como todos os indivíduos são pelo menos um pouco tendenciosos ninguém consegue ser um verdadeiro vulcano. A maior parte dos americanos é hobbit ou hooligan, ou encaixa-se algures entre uma coisa e a outra.” 

Definido assim o eleitor típico, que não será só americano, e apoiado numa profusão de dados empíricos impressionantes, faz sentido que o autor o declare inapto para votar, num regime – a democracia – que considera meramente instrumental e não um fim em si mesmo. Daí que proponha, na linha socrático-platónica, a alternativa de uma epistocracia (governo dos sábios) mitigada, em que o regime democrático passaria a envolver também um conselho epistocrático, aberto a todos os cidadãos, mas constituído por membros sujeitos a exames rigorosos de competência, com poder de veto das leis ou decisões políticas tomadas pelos órgãos democráticos. Algo de parecido, embora de natureza democrática, com o poder de veto, ainda que não definitivo, do Presidente da República Portuguesa.

O autor coloca demasiadas fichas na questão da competência, desvalorizando, a meu ver, o simbolismo do princípio da igualdade essencial dos cidadãos e a função de ligador e de escape social que a democracia real, à mistura com a ideal, desempenha. De resto, como lembra João Pereira Coutinho, “a política não é uma ciência (os sábios também falham e, quando o assunto é política, falham ainda mais) e pessoas politicamente analfabetas podem saber, com lucidez, aquilo que desejam para as suas vidas, mesmo que desconheçam macroeconomia ou sistemas eleitorais.” 

Não há dúvida, porém, que em Portugal a democracia está afunilada. O eleitorado continua a não ter nenhum poder de escolha (ou de recusa) dos seus representantes para o parlamento, apenas votando nos partidos cujos estados-maiores “cozinharam” as respectivas listas. Há já seis anos, Rui Tavares chamava a atenção “para um princípio, chamado de Clay Shirky, segundo o qual as instituições procuram preservar o problema para o qual deveriam ser a solução. Caso resolvesse o problema para o qual foi criada, a instituição X perderia a sua razão de existir; em consequência, no conflito entre resolver o problema e assegurar a sua própria manutenção, a instituição tende - a menos que seja forçada por outra via - para a segunda opção.” Com as devidas adaptações, este paradoxo assenta muito bem na partidocracia portuguesa. 

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Quando ainda os nossos passos não se haviam encontrado para caminharem afastados mas lado a lado, acreditava que o mundo era composto de silêncio e que a ausência de sons era o complemento necessário à existência da beleza, ao irradiar da perfeição que procurávamos nas formas dos objectos e das paisagens. Foi o sorriso do teu olhar que me mostrou que o planeta onde habitamos está organizado em ritmos, em melodias e que só quando sabemos viver amando, as podemos detectar por sobre o rumor do silêncio. Mas tudo isto foi muito mais tarde. Naquela época apenas sabia que “ao princípio é nada, um sopro apenas” e assim se coloca uma primeira pedra no que desejamos construir, nas amizades carregadas do belo, dessas que ansiamos viver, e a harmonia aparece quando aprendemos a conhecer a música que nos rodeia e somos capazes de compreender os murmúrios melodiosos que sobrevoam os planaltos, a canção que se desenha nos rios que descem das montanhas ou a sensação de alienação que nos alcança nos picos elevados da vida. “Como ao vento, As searas da terra, E as crinas dos cavalos, Entre dois infinitos de azul”. Rasgamos tudo o que sabíamos e aprendemos a escutar e a amar com um simples olhar, não apenas a natureza mas, sobretudo, os rostos humanos e em especial aqueles que de nós se aproximam para ficarem entre o mar e o céu no horizonte onde se tocam os azuis. “No leito de negras rochas, Que na costa se adorna, De mil vidas fervilhantes, Mais alto ainda”. Era uma tarde de Outono, idêntica a tantas outras e sentia já esse estremecimento de correr contra o tempo, fazer com que a vida acelerasse dentro do próprio tempo e partisse pelas estradas do mundo na procura de pessoas e verdades. Estava um dia de sol ameno, retemperador, nessa temperatura que nos envolve os sentidos e nos deixa frágeis mas tranquilos. Foi já na saída que escutei aquela voz, «o Saramago ganhou o Nobel». “As águas se suspendem, E no segundo final, A gestação imensa”. Não era possível parar, deter o pensamento e as ideias porque esse ponteiro que nos comanda a vida e desregra o seu usufruto, que antes de ser uma necessidade, deveria ser uma obrigação, nos empurrava para diante. No entanto, a estrada adquiriu nesse dia uma outra dimensão. Ainda não aprendera a ouvir os delírios musicais da natureza, porque só quando chegaste os havias de trazer, mas as vozes excitadas na rádio, falavam exaltando o Homem e as palavras, a vida e o amor que nelas aparecem. “Da branca espuma, Do sol, Do vento que soprou, Dos peixes, Das flores, E do seu pólen”. No entusiasmo que se pressentia, surge o poema musicado, do escritor, que desconhecia, e me vai fazer transcender as ideias e alar o pensamento. Principia num som longínquo e vai erguendo-se como a nossa existência desde criança trepando até à velhice, exaltando a vida e o seu nascimento, os frutos dos abraços e dos beijos a que os seres humanos se dedicam quando se entregam no delírio do sonho e do amor. “Das algas trémulas, Do trigo, Dos braços da medusa, Das crinas dos cavalos, Do mar da vida toda”. Deixamo-nos subir na alegria do infinito, galvanizados pela mistura dos sons e das palavras e chegamos em êxtase ao final na letícia cantada, “Nasce Afrodite, amor, Nasce o teu corpo”. Sentimos que algo se quebrou em nós no momento final do poema. Percebemos que no interior do silêncio há uma música que é premente escutarmos. Foi há 20 anos. O Nobel da Literatura foi atribuído a José Saramago. Foi escritor e poeta, um Homem do mundo, um humanista, um ser humano com a coragem de apontar os erros humanos, a ganância e a luxúria como males a erradicar e denunciar as oligarquias obscenas que mergulham o nosso tempo no caos da avareza violenta. Foi um prémio merecido. Outros o mereceriam? Acredito, mas não na vez de José Saramago.

Quando uma parte significativa de 60 milhões de brasileiros acredita que a violência pode pôr fim à violência, percebemos que a humanidade não consegue aprender com os seus próprios erros. Quando um boçal, inculto e desmiolado obtém a maioria dos votos de um país com a grandeza do Brasil, sem saber construir uma frase gramaticalmente coerente, sem uma ideia com conteúdo, compreendemos que a História se repete em tempos diferentes, com os seus mortos, os seus censores, os seus autocratas que se acreditam iluminados por Deus. 



ENCRUZILHADAS

Manuel Joaquim

(social-bots-eleições-brasil)


A dita “opinião pública” é comandada pelos média e pelas redes sociais. Estes veículos de “informação” são alimentados por grandes centrais de comunicação que dispõem de meios técnicos e de profissionais que lhes são disponibilizados pelo poder dominante e pelo grande capital. Naturalmente que são instrumentos ao serviço da luta ideológica e dos exclusivos interesses dos seus donos.

A campanha que se desenvolveu recentemente à volta dos chamados refugiados da Venezuela, independentemente da grave crise económica, social e política que este país atravessa, teve como objectivo a preparação da “opinião pública” para o derrube violento do governo de Maduro. Este foi eleito com mais votos e maior percentagem do que o Prof. Marcelo, mas isso é omitido.

Hoje, estão em marcha dezenas de milhares de migrantes de vários países da América do Sul e Central, a caminho dos EUA mas a informação é muito escassa. Trump enviou milhares de militares para as fronteiras para fazer frente a essa gente pacífica, que simplesmente foge à fome, ao desemprego, à violência. Trump chama-lhes malfeitores, delinquentes. Nove milhões de guatemaltecos vivem com menos de três dólares por dia.  

As eleições no Brasil encheram-nos de notícias sempre com o ferrão espetado no candidato do PT e no PT, reflexo da intensa campanha das redes sociais e dos média brasileiros. Meteram o Lula na cadeia para o impedir de ser candidato e sem uma acusação objectiva. O golpe de estado em curso levou ao afastamento da Presidente Dilma, cujo aprofundamento se deu agora com esta eleição. Dilma foi acusada de transferir verbas dumas rubricas para outras em termos orçamentais. Se o senhor do poder judicial brasileiro que julgou Lula e Dilma viesse a Portugal, certamente que metia na cadeia vários primeiros-ministros portugueses. Esse senhor do poder judicial vai ser agora recompensado com um lugar no próximo governo e, no futuro, com um lugar no Supremo Tribunal.

As sondagens apontaram durante muito tempo para o desaparecimento do PT e do candidato do PT. Enquadradas pela campanha desenvolvida, naturalmente que as mesmas tiveram influência na votação dos cidadãos. Os resultados foram maus, mas não foram tão maus como à primeira vista pareciam ser. O vencedor teve 55, 13% - 57.797.456 votos; o vencido teve 44,87% - 47.040.819 votos; votos nulos e brancos 9,57% - 11.110.422 votos. A maior representação no Parlamento é do PT e seus aliados. 

Os resultados da votação dos brasileiros em Portugal deram uma larga vitória ao candidato vencedor. Mas os resultados no Japão, França, Inglaterra e Alemanha deram uma grande vitória ao candidato do PT. Qual a explicação?

No jornal Avante!,  de 26 de Junho de 2008, foi publicada uma entrevista com Jerónimo de Sousa sobre uma visita que tinha acabado de fazer  ao Brasil a convite do PCdoB. Refere os importantes progressos sociais registados no segundo mandato do governo de Lula. Mas que isso não podia iludir “a questão de fundo com que se debatem as forças políticas progressistas brasileiras: sem pôr em causa o sistema capitalista não há solução para os problemas a que têm de fazer face.” Tal como na altura, neste momento “o Brasil está numa encruzilhada e terá de escolher o caminho”. E Como Mujica disse: “Não há vitórias definitivas, nem derrotas definitivas”.

Uma das grandes medidas já anunciadas pelo vencedor é liberalizar a venda de armas. Não sei se também vai incluir facas mais afiadas. Trump continua a defender a liberalização da venda de armas nos EUA. Entre Janeiro e 29 de Outubro de 2018, registaram-se 47.467 incidentes com armas de fogo nos EUA. Por este caminho o Brasil não ficará atrás.

Uma medida defendida durante a campanha e agora confirmada é a reforma da Previdência, entregando-a às companhias de seguros e bancos. É a passagem para o sistema de capitalização. Essa e outras medidas conhecidas pelos portugueses estão na forja: privatizações, venda do património público e de sectores estratégicos, precarização do trabalho, cortes na saúde e na educação. 

Mas este tipo de informação faz-nos distrair de questões muito importantes que se passam na Europa. A saída dos EUA do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio – INF e a instalação de grandes quantidades de material de guerra em vários países da Europa e junto à fronteira com a Rússia, vai levar, inevitavelmente, a uma corrida aos armamentos com consequências imprevisíveis. Dirigentes alemães têm-se pronunciado criticamente considerando que “a actual situação é a mais perigosa desde o fim da guerra-fria” (Presidente da Conferência de Segurança de Munique). As crises acentuam-se. Historicamente, há quem defenda a guerra para superar crises.

Por isso, é preciso tomar consciência, “avisar toda a gente”, de que é preciso preservar a PAZ.  

Em 20 de Outubro realizou-se em Loures, no Pavilhão Paz e Amizade, um grande Encontro pela Paz. 

É um tema a tratar na próxima vez.

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