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01/11/18

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva



Quando ainda os nossos passos não se haviam encontrado para caminharem afastados mas lado a lado, acreditava que o mundo era composto de silêncio e que a ausência de sons era o complemento necessário à existência da beleza, ao irradiar da perfeição que procurávamos nas formas dos objectos e das paisagens. Foi o sorriso do teu olhar que me mostrou que o planeta onde habitamos está organizado em ritmos, em melodias e que só quando sabemos viver amando, as podemos detectar por sobre o rumor do silêncio. Mas tudo isto foi muito mais tarde. Naquela época apenas sabia que “ao princípio é nada, um sopro apenas” e assim se coloca uma primeira pedra no que desejamos construir, nas amizades carregadas do belo, dessas que ansiamos viver, e a harmonia aparece quando aprendemos a conhecer a música que nos rodeia e somos capazes de compreender os murmúrios melodiosos que sobrevoam os planaltos, a canção que se desenha nos rios que descem das montanhas ou a sensação de alienação que nos alcança nos picos elevados da vida. “Como ao vento, As searas da terra, E as crinas dos cavalos, Entre dois infinitos de azul”. Rasgamos tudo o que sabíamos e aprendemos a escutar e a amar com um simples olhar, não apenas a natureza mas, sobretudo, os rostos humanos e em especial aqueles que de nós se aproximam para ficarem entre o mar e o céu no horizonte onde se tocam os azuis. “No leito de negras rochas, Que na costa se adorna, De mil vidas fervilhantes, Mais alto ainda”. Era uma tarde de Outono, idêntica a tantas outras e sentia já esse estremecimento de correr contra o tempo, fazer com que a vida acelerasse dentro do próprio tempo e partisse pelas estradas do mundo na procura de pessoas e verdades. Estava um dia de sol ameno, retemperador, nessa temperatura que nos envolve os sentidos e nos deixa frágeis mas tranquilos. Foi já na saída que escutei aquela voz, «o Saramago ganhou o Nobel». “As águas se suspendem, E no segundo final, A gestação imensa”. Não era possível parar, deter o pensamento e as ideias porque esse ponteiro que nos comanda a vida e desregra o seu usufruto, que antes de ser uma necessidade, deveria ser uma obrigação, nos empurrava para diante. No entanto, a estrada adquiriu nesse dia uma outra dimensão. Ainda não aprendera a ouvir os delírios musicais da natureza, porque só quando chegaste os havias de trazer, mas as vozes excitadas na rádio, falavam exaltando o Homem e as palavras, a vida e o amor que nelas aparecem. “Da branca espuma, Do sol, Do vento que soprou, Dos peixes, Das flores, E do seu pólen”. No entusiasmo que se pressentia, surge o poema musicado, do escritor, que desconhecia, e me vai fazer transcender as ideias e alar o pensamento. Principia num som longínquo e vai erguendo-se como a nossa existência desde criança trepando até à velhice, exaltando a vida e o seu nascimento, os frutos dos abraços e dos beijos a que os seres humanos se dedicam quando se entregam no delírio do sonho e do amor. “Das algas trémulas, Do trigo, Dos braços da medusa, Das crinas dos cavalos, Do mar da vida toda”. Deixamo-nos subir na alegria do infinito, galvanizados pela mistura dos sons e das palavras e chegamos em êxtase ao final na letícia cantada, “Nasce Afrodite, amor, Nasce o teu corpo”. Sentimos que algo se quebrou em nós no momento final do poema. Percebemos que no interior do silêncio há uma música que é premente escutarmos. Foi há 20 anos. O Nobel da Literatura foi atribuído a José Saramago. Foi escritor e poeta, um Homem do mundo, um humanista, um ser humano com a coragem de apontar os erros humanos, a ganância e a luxúria como males a erradicar e denunciar as oligarquias obscenas que mergulham o nosso tempo no caos da avareza violenta. Foi um prémio merecido. Outros o mereceriam? Acredito, mas não na vez de José Saramago.

Quando uma parte significativa de 60 milhões de brasileiros acredita que a violência pode pôr fim à violência, percebemos que a humanidade não consegue aprender com os seus próprios erros. Quando um boçal, inculto e desmiolado obtém a maioria dos votos de um país com a grandeza do Brasil, sem saber construir uma frase gramaticalmente coerente, sem uma ideia com conteúdo, compreendemos que a História se repete em tempos diferentes, com os seus mortos, os seus censores, os seus autocratas que se acreditam iluminados por Deus. 



ENCRUZILHADAS

Manuel Joaquim

(social-bots-eleições-brasil)


A dita “opinião pública” é comandada pelos média e pelas redes sociais. Estes veículos de “informação” são alimentados por grandes centrais de comunicação que dispõem de meios técnicos e de profissionais que lhes são disponibilizados pelo poder dominante e pelo grande capital. Naturalmente que são instrumentos ao serviço da luta ideológica e dos exclusivos interesses dos seus donos.

A campanha que se desenvolveu recentemente à volta dos chamados refugiados da Venezuela, independentemente da grave crise económica, social e política que este país atravessa, teve como objectivo a preparação da “opinião pública” para o derrube violento do governo de Maduro. Este foi eleito com mais votos e maior percentagem do que o Prof. Marcelo, mas isso é omitido.

Hoje, estão em marcha dezenas de milhares de migrantes de vários países da América do Sul e Central, a caminho dos EUA mas a informação é muito escassa. Trump enviou milhares de militares para as fronteiras para fazer frente a essa gente pacífica, que simplesmente foge à fome, ao desemprego, à violência. Trump chama-lhes malfeitores, delinquentes. Nove milhões de guatemaltecos vivem com menos de três dólares por dia.  

As eleições no Brasil encheram-nos de notícias sempre com o ferrão espetado no candidato do PT e no PT, reflexo da intensa campanha das redes sociais e dos média brasileiros. Meteram o Lula na cadeia para o impedir de ser candidato e sem uma acusação objectiva. O golpe de estado em curso levou ao afastamento da Presidente Dilma, cujo aprofundamento se deu agora com esta eleição. Dilma foi acusada de transferir verbas dumas rubricas para outras em termos orçamentais. Se o senhor do poder judicial brasileiro que julgou Lula e Dilma viesse a Portugal, certamente que metia na cadeia vários primeiros-ministros portugueses. Esse senhor do poder judicial vai ser agora recompensado com um lugar no próximo governo e, no futuro, com um lugar no Supremo Tribunal.

As sondagens apontaram durante muito tempo para o desaparecimento do PT e do candidato do PT. Enquadradas pela campanha desenvolvida, naturalmente que as mesmas tiveram influência na votação dos cidadãos. Os resultados foram maus, mas não foram tão maus como à primeira vista pareciam ser. O vencedor teve 55, 13% - 57.797.456 votos; o vencido teve 44,87% - 47.040.819 votos; votos nulos e brancos 9,57% - 11.110.422 votos. A maior representação no Parlamento é do PT e seus aliados. 

Os resultados da votação dos brasileiros em Portugal deram uma larga vitória ao candidato vencedor. Mas os resultados no Japão, França, Inglaterra e Alemanha deram uma grande vitória ao candidato do PT. Qual a explicação?

No jornal Avante!,  de 26 de Junho de 2008, foi publicada uma entrevista com Jerónimo de Sousa sobre uma visita que tinha acabado de fazer  ao Brasil a convite do PCdoB. Refere os importantes progressos sociais registados no segundo mandato do governo de Lula. Mas que isso não podia iludir “a questão de fundo com que se debatem as forças políticas progressistas brasileiras: sem pôr em causa o sistema capitalista não há solução para os problemas a que têm de fazer face.” Tal como na altura, neste momento “o Brasil está numa encruzilhada e terá de escolher o caminho”. E Como Mujica disse: “Não há vitórias definitivas, nem derrotas definitivas”.

Uma das grandes medidas já anunciadas pelo vencedor é liberalizar a venda de armas. Não sei se também vai incluir facas mais afiadas. Trump continua a defender a liberalização da venda de armas nos EUA. Entre Janeiro e 29 de Outubro de 2018, registaram-se 47.467 incidentes com armas de fogo nos EUA. Por este caminho o Brasil não ficará atrás.

Uma medida defendida durante a campanha e agora confirmada é a reforma da Previdência, entregando-a às companhias de seguros e bancos. É a passagem para o sistema de capitalização. Essa e outras medidas conhecidas pelos portugueses estão na forja: privatizações, venda do património público e de sectores estratégicos, precarização do trabalho, cortes na saúde e na educação. 

Mas este tipo de informação faz-nos distrair de questões muito importantes que se passam na Europa. A saída dos EUA do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio – INF e a instalação de grandes quantidades de material de guerra em vários países da Europa e junto à fronteira com a Rússia, vai levar, inevitavelmente, a uma corrida aos armamentos com consequências imprevisíveis. Dirigentes alemães têm-se pronunciado criticamente considerando que “a actual situação é a mais perigosa desde o fim da guerra-fria” (Presidente da Conferência de Segurança de Munique). As crises acentuam-se. Historicamente, há quem defenda a guerra para superar crises.

Por isso, é preciso tomar consciência, “avisar toda a gente”, de que é preciso preservar a PAZ.  

Em 20 de Outubro realizou-se em Loures, no Pavilhão Paz e Amizade, um grande Encontro pela Paz. 

É um tema a tratar na próxima vez.

A GOLPADA

Mário Faria




OS SINTOMAS

7 Abril 2016

O General Carlos Jerónimo, chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), pediu a demissão na sequência da polémica sobre discriminação homossexual no Colégio Militar. O Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, pediu explicações, considerando a situação inaceitável. Em consequência, segue o pedido de demissão do responsável militar que tutela aquele colégio. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de quem dependem todas as Forças Armadas do país, já aceitou a exoneração.

4 Setembro 2016 

Hugo Abreu morre às 21h45 do primeiro dia da instrução e da “prova zero” do 127º curso de Comandos, devido a um “golpe de calor”, após o exercício do "carrossel"; 

Dylan da Silva chega ao Hospital do Barreiro já depois da meia-noite, às 00h20, depois de se sentir indisposto na instrução técnica de combate (progressão no terreno) e de ser também diagnosticado como "golpe de calor";

- 19 arguidos e 539 crimes. Arranca julgamento das mortes nos Comandos;
- Todos os arguidos vão a julgamento;
-  Instrutores negam falta de auxílio e agressões;
- Director do curso processa chefe do Exército;
- Dos 57 militares do curso apenas 13 acabaram e recebem a boina;
- Exército substituiu comandante dos Comandos cinco dias antes de se saber da acusação a 19 militares. 

TANCOS

A Polícia Judiciária (PJ) já identificou e deteve o alegado autor do roubo de armas do paiol de Tancos. É um homem de 36 anos, ex-militar, referenciado pelas polícias como traficante de droga e de armas e terá contado com a cumplicidade de elementos da GNR. Foi igualmente pedida a detenção de um antigo porta-voz da PJ Militar, que se encontra actualmente numa missão na República Centro Africana.

Entre os detidos está o próprio director da Judiciária Militar, o coronel Luís Vieira, cujo papel em todo o esquema ainda não é claro. 

Como ex-militar que é – embora nunca tivesse pertencido aos quadros das Forças Armadas –, o suspeito do roubo do paiol terá contado com informações privilegiadas por parte de ex-colegas para saber como tirar o material de Tancos. Não contava, porém, com a repercussão que o caso ganhou a nível nacional e assustou-se. Queria devolver as granadas, os explosivos e tudo o resto – mas em segredo. Não queria que lhe arranjassem problemas.

Terá resolvido contactar um ex-companheiro de armas, um soldado do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé, que por sua vez falou com o seu superior hierárquico, um sargento. Este conheceria alguém na Judiciária Militar do Porto, e o plano ganhou forma: guardas e inspectores da PJ Militar ficavam com os louros da descoberta do material, mas em troca disso encobriam o traficante.

O piquete da PJ Militar de Lisboa recebeu durante a noite uma chamada anónima a alertar para o aparecimento das armas e restante material na Chamusca, a 21 quilómetros do local do furto, cerca de três meses e meio depois de o Exército ter confirmado o roubo, a 29 de Junho do ano passado. Por estranha coincidência, uma equipa constituída por guardas de Loulé e inspectores da PJ Militar do Porto encontrava-se nesse momento no Parque das Nações, em Lisboa, a trabalhar numa outra investigação. Foram enviados pelo piquete para a Chamusca, onde encontraram todo o material, à excepção das munições de 9 milímetros, que o ladrão já teria vendido. O pacote incluía mais de duas centenas de velas de explosivo plástico de alta potência que nem sequer estavam contabilizadas nos registos do Exército.
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Ministro reúne-se com PGR

O inquérito sobre o reaparecimento do material militar está a cargo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), uma unidade especializada na criminalidade complexa e especialmente violenta. Trata-se de uma investigação diferente da do desaparecimento, embora não esteja de lado a hipótese de os inquéritos virem a ser fundidos num só, uma vez que dizem respeito ao mesmo assunto.

A investigação ao aparecimento das armas foi aberta após a PJ ter considerado altamente suspeitas as circunstâncias em que o material foi encontrado. Os inspectores da Judiciária, que lideravam a investigação ao alegado roubo, foram avisados com umas horas de atraso do aparecimento das armas. Por outro lado, o material foi retirado do local onde foi encontrado e transportado para um quartel ainda antes dos investigadores da Judiciária chegarem ao local, o que impediu qualquer perícia naquele descampado. Foi igualmente considerado estranho o facto de ter estado envolvida naquela operação a GNR de Loulé, sedeada a mais de 300 quilómetros da Chamusca, onde foi encontrado o armamento. 

A sensibilidade da operação levou esta terça-feira de manhã, a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, a reunir-se com o ministro da Defesa, José Azeredo Lopes, que tutela a Polícia Judiciária Militar e, segundo a procuradoria, é o superior hierárquico do seu director. "Neste contexto, o director do DCIAP e a procuradora-geral da República procederam à entrega formal ao ministro da Defesa da notificação da diligência pretendida [a detenção], a qual foi concretizada posteriormente, nos termos da lei, por militar de patente superior", esclareceu a procuradoria. As hierarquias do Exército tiveram igualmente de ser informadas. 

Coube ao major-general Figueiredo Feliciano, chefe de gabinete do chefe de Estado-Maior do Exército, fazer formalmente a detenção do coronel Luís Vieira, oriundo deste ramo das Forças Armadas. 

Por ironia, coincidência ou sarcasmo, o despacho 49 de 2018 para apurar quem é quem nos alugueres do IASFA, expirou no mesmo dia em que o ministro abandonou funções sem se saber se a ordem ministerial foi cumprida. E com a sombra de corrupção no comportamento de alguns militares. Seria um match nulo, um empate entre a demissão do civil que esteve à frente do Ministério da Defesa e a nuvem de dúvidas que Tancos e os alugueres deixam sobre as Forças Armadas.
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“Não há braço-de-ferro entre os militares e o Governo, há necessidade de uma reversão da política seguida em relação às Forças Armadas no sentido de as dignificar e de dar os recursos necessários ao cumprimento da sua missão”, comenta o almirante Melo Gomes, antigo Chefe do Estado-Maior da Armada.
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Apesar do desmentido de um embate perpétuo, este militar não deixa de evidenciar que esperava outro desempenho governamental. “A política seguida precisa de ser mudada, a reforma 2020 [do executivo de Passos Coelho] precisa de ser revertida, como se esperava que acontecesse quando este Governo e este ministro tomaram posse”, destaca o presidente da direcção do think tank Grupo de Reflexão Estratégica Independente.

Corrigir trajectória

Corrigir esta trajectória não se afigura possível no último Orçamento, que esta tarde é discutido pelo Governo em Conselho de Ministros, embora o primeiro-ministro tenha prometido que as contas da Defesa de 2019, fechadas no Ministério de Azeredo Lopes e Marcos Perestrello, sejam as maiores de toda a legislatura.

“Corria-se o risco de uma desautorização, não é chantagem, do Estado por militares. Tivemos de tomar providências para que tal não acontecesse, para que a subordinação do poder político legítimo e democrático não fosse posta em causa”, conclui Melo Gomes. O abismo descrito entre o ministro e a tropa não vem, pois e só, da escassez de meios.

“Não vai mudar nada”, antevê um oficial na reserva que solicita o anonimato. “Houve um grande desinvestimento nos últimos anos e, em vez de mimar o bebé, o ministro deu-lhe um encontrão”, prossegue. “Teve o azar de lhe rebentar nas mãos, podia ter sido outro”, destaca.

Encontrões ministeriais 

O “encontrão” tem episódios e datas. Em Abril de 2016, o Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), Carlos Jerónimo, saiu por não concordar com a demissão da direcção do Colégio Militar na sequência da revelação de discriminação de alunos homossexuais.

“Para nós está em causa a interferência do ministro da Defesa na acção do CEME”, assinala o mesmo oficial. O embate, numa sociedade atenta e contrária à homofobia, colocou os militares sob os focos mediáticos. A substituição do general Jerónimo pelo general Rovisco Duarte não resolveu a questão. Como se veria.

Neste filme negro, sem direito a heróis, e com representações medíocre da parte dos principais artistas, o Major Vasco Brazão é o patife simpático que emerge pela sua coragem, sacrifício e amor à Pátria. Tem futuro. O mau da fita foi julgado e expulso pelo crime político cometido, seja lá o que isso for. É uma espécie de lavagem da honra. Os militares sairão reforçados e as mudanças serão cosméticas. A bem da Nação. Afinal, são eles que tem as armas e há por aí muito Bolsonaro escondido com rabo de fora.

Fontes: Público e Observador


01/10/18

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ROMA: O EXCESSO DE BELEZA

mário martins



(Fonte das Ninfas - Foto do autor)

“Em Roma há uma beleza objectiva, que está nas coisas, na arquitectura, na visível estratificação dos séculos e depois há uma beleza oculta, às vezes invisível.”
Paolo Sorrentino

(citado no livro “La Roma Segreta”, de Costantino D’Orazio)


Roma é excessivamente bela. Banhada pela água das fontes, no recato de palácios, galerias, museus e igrejas, nas ruínas do passado remoto, no renascimento de quatrocentos ou no barroco de quinhentos, a Arte jorra por todo o lado, em camadas sobrepostas, testemunhando o poder, a vaidade e o gosto de imperadores, papas e nobres que, não poucas vezes a par das maiores ignomínias, favoreceram o génio dos artistas e o engenho dos construtores. 

E, no entanto, Constantino D’Orazio, historiador de arte, lamenta “que os romanos (ao contrário dos estrangeiros) não sabem apreciar a beleza que os rodeia. Estão de tal modo habituados a vê-la que não se apercebem dela. Os romanos (…) ignorantes (…) não merecem de modo nenhum a herança que a história lhes atribuíu.” Esta crítica, excessivamente contundente, esquece que os visitantes estão livres da vida de todos os dias que, de igual modo, nos seus países, tornará a beleza habitual. Já Linda Baseggio, Jornalista e Professora de Literatura, é mais benevolente e razoável com os romanos do presente: “Poucas cidades do mundo conseguem essa mistura de magnificência e quotidianidade como Roma. Talvez pela alegre despreocupação que exibe ante a sua extraordinária beleza; uma cidade em que comer, conversar e rir é lei de vida”*

Paolo Sorrentino chamou ao seu oscarizado filme “A Grande Beleza”, mas bem poderia chamar-lhe “O Excesso de Beleza”…


*in “Viajes” nº. 222, National Geographic.

'PICKPOCKET' REVISITADO


antónio mesquita






Tenho a ideia que a sobriedade aguenta melhor a prova do tempo do que qualquer outra forma. Mas será que as maravilhas do barroco, ou da arte  védica, precisam assim tanto da nossa complacência?

Este filme de Robert Bresson, de 1959, impressionou-me, da primeira vez, por uma espécie de integridade minimalista. A própria música se retrai nesse pudor da dramaturgia. Os raros trechos de Lully dão, em certos momentos, o tom da solenidade, do destino, o resto é o monólogo de um aprendiz de fora-da-lei. Michel  é um niilista, um revoltado sem causa. O seu 'mal de vivre'  está-lhe no olhar de animal acossado - a escolha do actor -Martin LaSalle - não foi pequeno mérito. 

As figuras evoluem por grandes saltos que chocam quem está à espera do tempo de uma narrativa convencional. Não se  desenvolve o triângulo amoroso entre  Michel, o amigo e a vizinha da sua mãe, Anne, personagem angelical. Mas este não é o tempo de contar uma história. O que se quer atingir é, em vez disso,  a parábola.

Michel é, finalmente, surpreendido pela polícia em flagrante delito. Preso, é visitado por Anne, e é a ocasião para a irrupção da música e para a exaltação do tema do amor. A frase pronunciada pelo prisioneiro é daquelas que fica na memória: - 'Anne, que estranho caminho para chegar até ti!'

Poderíamos resumir 'Pickpocket' como o extravio de um homem que se reencontra na inocência do amor. A acção (e o que sobra da parábola) é um exercício das mãos.  Uma feia manipulação no gesto de roubar um passageiro do autocarro ou um espectador das corridas.

Para o cineasta de 'Diário de um pároco de aldeia' e de 'Fugiu um condenado à morte', o orgulho, pecado luciferiano, explica todo o percurso de Michel. Ao tentar ludibriar as leis, julga-se acima do comum. O filme termina com a redenção pelo amor, tema cristão e dos romances de cavalaria. Não é 'Lancelot do Lago' um dos títulos de Bresson?

MANUEL GUSMÃO

manuel joaquim





Sendo um dos mais importantes poetas contemporâneos portugueses, Manuel Gusmão, que começou a publicar em 1990, desde logo, chamou a atenção da critica e dos estudiosos. Rimbaud, Éluard, Carlos Oliveira, Ramos Rosa, Brecht, Mayakovsky, Carlos Drumond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Neruda, Jorge e Nicolas Guillén, Aragon,Yiannis Ritsos, Hikmet, Herberto Helder e muitos outros são referenciais na sua obra. Ao longo do tempo tem recebido prémios da poesia e ensaios publicados.

Publicou recentemente “A Foz em Delta” , um livro de poesia que merece ser lido, por ser um registo auto-biográfico. 
Um dos poemas do livro



“ELOGIO DA TERCEIRA COISA

Entre mim e ti há a terceira coisa
aquela que nos põe ao alcance da mão
os nomes todos das coisas e as coisas sem nome
quando a multidão sagrada dos pronomes pessoais nos
permitir dizer nós contra o tempo e o vento
Nós que aos cinco sentidos acrescentamos os outros
Nós a sensibilidade que imagina o comum
quando uma multidão deixa de ser
um rebanho de escravos para começar a ser
uma assembleia de humanos livres
de pé no chão da terra discutimos o que fazer
pelas mãos em concha bebíamos a água
onde a luz do sol cintila irisando-a
Nós que para além de ti e de mim somos
A terceira coisa : a promessa sem garantias
a invenção do incomum que partilha o comum
o comunismo que vem connosco
e para além de nós recomeça.

Manuel Gusmão “

JOANA MARQUES VIDAL

mário faria



Porque é que um procurador-geral da República tem de ser especialmente corajoso para investigar "poderosos e ricos"? Quem chega a este lugar, um dos mais poderosos do Estado, tem alguma razão, objetiva ou subjetiva, para temer seja quem for e seja o que for? (Pedro Tadeu)

Temos o dever de desconfiar da substituição de Joana Marques Vidal.

Os poderes do dia têm medo da independência do Ministério Público. O que correr mal no combate à corrupção será agora responsabilidade política de Costa e de Marcelo. (José Manuel Fernandes)

Cavaco Silva considerou, esta quarta-feira, que a não recondução da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, foi a decisão "mais estranha" do Governo liderado por António Costa. O antigo Presidente da República falou à margem de um congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), referindo que a não recondução de Joana Marques Vidal é algo que considera "muito estranho, estranhíssimo, tendo em atenção a forma competente como exerceu as suas funções e o seu contributo decisivo para a credibilização do Ministério Público".

O governo pôde sanear a Procuradora-Geral da República porque a oligarquia política está finalmente em sintonia e porque, acima de tudo, aprendeu a desprezar os portugueses. (Rui Ramos).

Marcelo foi mais um daqueles notários que validam qualquer assinatura do que um Presidente ciente do seu poder de nomeação. Para o bem e para o mal, foi cúmplice da revanche do PS contra (Luís Rosa).

O último pico de calor neste ambiente de populismo difuso foi a substituição da PGR, Joana Marques Vidal. Como pudemos  verificar, o resultado do processo, como é próprio do populismo, acaba por ser  a despolitização, a despolitização generalizada da matéria política. (António Guerreiro).

Regressado duma saída à Suécia, encontrei um ambiente político assanhado, como é costume, e da ementa constava um alargado número de queixas. A sucessão da PGR estava sob fogo: a controvérsia, como acima se refere, corria acesa e perfumada com o indiscreto cheirinho a direta ressabiada. Na minha perspectiva, os mandatos a cargos públicos deveriam seguir um regime semelhante ao da presidência da república. Não vejo por que razão os "estipulados" seis anos para a PGR não deveriam ser praticados. Falámos nisso no café da esquina. Fiquei espantado por haver mais rapaziada do que esperava que pensava exactamente o contrário e a discussão aqueceu. Valeu o Chico Fininho, completamente alheio ao que se passava, foi interpelado para dizer o que pensava. E o tipo disse da sua justiça: tenho saudades dos tempos em que "je t´aime mois non plus" era dançado nas festas populares e nos bailes de garagem e era porreiro porque a malta acabava sempre por fazer estragos nas calças. O amor inocente é o amor verdadeiro e já não há disso. Acho que a Joana nuca foi a um baile desses. Rimos e gargalhámos. E foi assim que se passou.

NO CORRER DOS DIAS

marques da silva



Passaram os anos e fui guardando os factos num lugar escondido da memória e só hoje perante a profundeza infinita do teu olhar consigo libertar as palavras há longo tempo contidas. Esse dia primeiro em que se alumiou toda uma vida, recordo com a precisão do presente. Era o mês de Julho de um ano inesquecível, imperecível no lento rodar da história. Regressávamos ao encontro da pátria, que vivia essa época de sonho e da loucura inebriante da liberdade, essa Primavera de todos os voos, da floração intensa de um jardim escondido na alma de quase todos nós. Havia um mar de alegria a encher-se e regressava para mergulhar nessas águas límpidas do sonho. Voávamos sobre os Cárpatos a dez mil metros de altitude quando chegou a notícia que nos imobilizou o pensamento. Os militares gregos na sua estúpida bestialidade golpearam a ilha de Chipre, destituindo o arcebispo Makários, alimentando a voracidade da máquina de guerra turca a invadir aquele território onde no sossego de uma natureza cativante, duas comunidades conviviam secularmente. Quando foi possível parar toda aquela demência, um muro erguia-se de uma ponta à outra, com as populações abandonando as suas casas, as suas terras, os seus bens, o convívio que acompanhava a sua vida desde a nascença, as lágrimas de raiva e desespero de quem perdia tudo. Ficou a ilha purificada de duas gentes, cada uma com o seu Deus e na sombra deste desvario, o Reino Unido a ocupar dez por cento do território, com as suas bases militares, os seus deuses guerreiros, as suas verdades tão impuras quanto mentirosas, embrulhadas num manto snobe e diabólico de uma certa fleuma. Um muro nascia na Europa, uma parede que se estendia divisória e ainda permanece sem perturbar as mentes do poder de um Continente que persiste em viver num engano programado para o bem daqueles sobre quem repousa o mando e o lucro de uma democracia. Foi então que me ocorreu questionar de onde sou, quando nasci e em que tempo vivi. Agora que encontro no teu olhar esse fascínio atraente do que é puro, compreendo que não sou de tempo nenhum e ao mesmo tempo, sou de todo o lado e de todas as épocas, vivendo os padecimentos da humanidade que se flagela periodicamente, fazendo sobressair a cada momento, o espelho perverso onde se aloja o pior da sua alma. Foi um acaso que me levou à Irlanda naquele dia medonho que todos conhecemos como a «matança da Páscoa», com as armas de novo a fazerem sobressair os seus sons, as suas vozes, as suas maldades com o cortejo de crimes que sempre abrigam. A Irlanda dividida, separada como um corpo sem um dos seus órgãos. Aqui era o mesmo Deus a separar as almas, mas presente de novo, o Reino Unido e a sua democracia e lá persiste um outro muro, escuro e silencioso, a separar Derry, Belfast, a fazer viver duas Irlandas, a desunir um território, um país, uma nação. Sobre as ruínas da Europa, os judeus sobressaíam de novo, agora como vítimas e elevando-se ao pedestal de únicas, especiais e chamando sobre si os louvores universais, recusando que as lágrimas dos sobreviventes cobrissem também o horror e o delírio fanático que fizeram perecer mais cinquenta milhões de seres humanos. Mas os seus mitos, as suas alucinações religiosas, depressa mostraram que as vítimas privilegiadas, escondiam dentro de si, os mesmos sentimentos de maldade e de violência dos carrascos acabados de tombar. Não estiveste em Deir Yassim, caso contrário ainda escutarias os gritos, o choro, o estupor estampado no rosto, das mulheres e crianças devastados pelo fogo cobarde e criminoso dos judeus que se auto-inaltecem como vítimas. Afinal, eram tão bons carrascos como aqueles que a Europa tinha derrubado e condenado. O Deus dos judeus conquistava território, destruía aldeias, arrasadas a buldózer para desaparecem da face da terra e não serem mais do que um lugar arqueológico, os barris carregados de pólvora a rolarem pelas colinas e a rebentarem nas aldeias, a destruição das laranjeiras e das oliveiras. Assim chegou o tempo da Catástrofe, essa Nakba que a humanidade não pode olvidar, mas esquece, ou mais maldoso ainda, ignora, como se nunca tivesse existido, como se as lágrimas, os gritos, o horror, o espanto, não continuassem a percorrer as montanhas drusas, o vale de Bekaa, as terras de Belém e de Nazaré, o espaço milenar palestiniano. Persiste um sono interrompido todas as noites por esse clamor lancinante que sobrevoa o deserto. O Deus dos judeus, triunfante e único ergueu um muro onde nunca outro existira, voltava a separar o que era único e ali persiste para vergonha da humanidade a alimentar a impunidade dos judeus e como ave predadora por cima da catástrofe percebe-se de novo o Reino Unido a força armada ocupante que permitiu aos judeus iniciar setenta anos de puro terrorismo, de extermínio lento de um povo. São muros atrás de muros, perante a nossa impotência, a nossa passividade, o nosso silêncio. E é o silêncio que me faz lembrar a travessia de Salang. Olha para mim, deixa-me penetrar nesse teu olhar para que a memória não se perca e a emoção não me turve a voz. Do silêncio de Salang preciso de um dia inteiro para te contar, da montanha nua, da rudeza da paisagem, da pobreza secular, do medo que se apodera da nossa alma. Hoje prefiro lembrar os jardins de rosas de Jalalabad. Cercados, meses sitiados por essa turba de gente armada e benzida pela democracia americana. Quase sempre faltava tudo, mas resistíamos, sentíamos esse sabor da liberdade a cada dia que passava. No exterior, as seitas fanáticas que gritavam Allahu Akbar, erguiam-se como polvos cujos tentáculos não alcançavam a nossa determinação, mas amontoavam-se ruínas, novas lágrimas a acumular a todas aquelas já derramadas. Mas todas as manhãs quando o sol nascia, brilhando com a humidade nocturna, os jardins de rosas persistiam em florir. Jalalabad não se rendeu, mas foi traída. Entraram no seu corpo com a sanha vingativa dos miseráveis e golpearam tudo o que era vivo e só nesse dia as rosas nas suas tonalidades cromáticas morreram sufocadas por tanta sede, não de água, mas de paz, de silêncio, de serenidade e da ternura das mãos que todos os dias as confortavam com as gotas de água que tanto escasseava. Milénios de combates, de maldades, de massacres, de ganâncias e avarezas, tem sido assim a vida humana, e os teus olhos onde navegam as minhas caravelas descobridoras, perguntam-me se ainda acredito na humanidade. Não sei. Lembro-me apenas de um verão tórrido e incendiário em terras australianas. No fim, quando as árvores e a terra ainda fumegavam, um bombeiro exausto e com o rosto enegrecido, depara com um coala sobrevivente. Com uma garrafa de água, amparando o pequeno animal com uma mão permite que durante longo tempo sacie a sede. Não sei, talvez escondida na alma humana, ainda haja uma réstia de esperança.

Após a Revolução de Abril, soletrava-se pelo país os sons de uma canção que nos lembrava, «uma criança dizia, dizia, quando for grande não vou combater». Era a vontade expressa de nos afastarmos dos tambores da guerra. Um país que não tem inimigos, com fronteiras estáveis, manifestava o desejo que a aquela que tinha findado, seria a última das nossas guerras. Mas o poder, «os mordomos do universo todo» possui demasiados guerreiros, sobretudo daqueles que mandam os filhos dos outros combater. Assim, acabaram com o serviço militar obrigatório e passaram a contratar soldados. São agora contratados que vão guerrear para o Mali, a República Centro Africana, o Kosovo, o Afeganistão, a Lituânia, derreter milhões de euros do dinheiro que falta na Saúde, na Educação, no desenvolvimento do país, e há dias, o primeiro-ministro de um governo que se quis de esperança, que não tem dinheiro para pagar aos professores nem para que o orçamento da cultura alcance os 1%, disponibilizou-se para aumentar o orçamento da guerra até aos 2%, para que a NATO prossiga as suas campanhas de provocações militares e de matanças gerais pelas diversas partes da Europa, da África e da Ásia. Não contente, o primeiro-ministro justificou a sua decisão com uma blasfémia: “Cada euro investido passará a valer por três porque reforçaremos a Defesa nacional, o sistema científico e o tecido industrial”, quer dizer, o desenvolvimento da nossa indústria e da nossa ciência ao serviço da guerra. Talvez não mereçamos melhor!


02/09/18

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APONTAMENTOS SOBRE O INTERIOR

Manuel Joaquim


(www.flickriver.com)



Depois de concluída a discussão pública sobre o “Programa Nacional de Política de Ordenamento do Território", no passado mês de Julho, o Governo realizou uma reunião extraordinária do seu Conselho de Ministros, em Pampilhosa da Serra, para aprovar medidas para o seu “Programa de Valorização do Interior “e para os seus “Programas Regionais de Ordenamento Florestal”. Programas cujos nomes impressionam.

Não sei se a decisão de realizar a reunião em Pampilhosa da Serra teve como elemento inspirador as presidências abertas de Mário Soares ou de Santana Lopes ou se foi a oportunidade dos incêndios que levou os ministros a aproveitarem a ocasião para aparecerem publicamente com as conclusões de trabalhos.

Aproveitando a oportunidade da publicidade governamental para o início daqueles trabalhos, um grupo de “amigos do peito”, autointitulado “Movimento para o interior” apresentou publicamente em Maio passado um trabalho com propostas “radicais” para levar vinte cinco serviços públicos para fora de Lisboa, designadamente para a Guarda, Castelo Branco e Beja, além de outras propostas. Teve honras de comunicação nas TVs, rádios e jornais e até um artigo de fundo, nomeadamente de um novel director de um jornal dito de referência, propriedade (?) de uma menina que já foi banqueira (?) e agora vai ser a principal (?) administradora de um grupo económico muito importante.

O relator do grupo, cumprindo as tarefas que lhe foram atribuídas, para justificar os lugares que já desempenhou e que vai desempenhando principescamente, lá deu a cara por tal documento. O que teve o trabalho sobre impostos, fez copy paste de textos de quando foi ministro e dirigente de um grupo de borboletas economistas, que voavam à sua volta, que na altura tiveram coimo tarefa iniciar a destruição do sector público financeiro. Outro é o presidente dos autarcas do seu partido e presidente da Câmara, que certamente está gulosamente à espera de serviços transferidos de Lisboa. Outro tratou do problema da educação. Há ainda um outro, que estudou medidas para a ocupação do território do Estado. Não sei se propõe a venda do território do Estado a nacionais e/ou estrangeiros, ou se pretende aumentar a área de pastagens para aumentar a produção de leite para a sua queijaria ou para estaleiros para obras em parcerias públicas e privadas, provavelmente para participar nos resultados financeiros do empreiteiro.

Sobre o interior do país, como se o país tivesse interior, quando tem cerca de duzentos quilómetros desde a fronteira até ao mar, com rigor, nada se diz. Os incêndios, o papel dos bombeiros, a desertificação, a floresta, os eucaliptos, é que são objecto de notícias. As causas que estão na origem de tantos problemas são ignoradas.

Quando alguém questionava e alertava para as consequências da adesão de Portugal à CEE, designadamente sobre a PAC – Política Agrícola Comum, para Trás-os-Montes e Alto Douro, era imediatamente acusado de catastrofista. Os produtores eram aliciados a abandonarem as suas produções, para o que recebiam bons dinheiros para não produzirem e não trabalharem. Os excedentes produzidos na Europa acabaram por fazer o resto. O dinheiro gasto em novas vias serviu para os camiões trazerem esses excedentes para a distribuição.

As aldeias em Trás-os-Montes estão abandonadas há muitos anos. Os jovens continuam a emigrar procurando emprego e sustento. O encerramento de escolas, de serviços públicos, a falta de trabalho compensador são causas que continuam a agravar a situação. O Bispo de Bragança e Miranda acabou de fazer um apelo para a necessidade de estancar a emigração. Alfaião, uma aldeia próxima de Bragança, hoje não tem escola. As pessoas lembram-se de ter existido quatro classes na escola.

No verão, quem circula nas aldeias, são os emigrantes e familiares. Acabam as férias, as ruas ficam desertas, os negócios acabam. Os que retornaram investiram em habitações e estabelecimentos de restauração e hospedagem, aproveitando os produtos dos seus terrenos. Mas tendencialmente em desfalecimento.

Em Trás-os-Montes a terra ainda está trabalhada. A produção de castanha é ouro. O azeite alarga a sua produção. O vinho também. Os jovens são aliciados para a produção de carne. Mas quem se dedica a estas actividades tem de ter propriedades, capitais e rendimentos compensadores. Os intermediários determinam os preços e o escoamento dos produtos.

Ainda Não se vislumbram eucaliptos e outra florestação que alimentam as celuloses como se vê cada vez mais noutras zonas do país. Ouvimos nas reportagens sobre os incêndios em Monchique que arderam cerca de trinta mil hectares de floresta e mato onde o eucalipto tinha uma presença muito significativa. Sabemos que no início do século XX ainda não existiam eucaliptos naquela zona. Raúl Proença, na sua obra “Portugal – A Terra e o Homem” descreve o arvoredo que existia na serra do Algarve:”… sobreiros, azinheiras, medronheiros, os castanheiros e os carvalhos…”

O eucalipto é uma árvore relativamente recente na Europa. Gustave Flaubert, na sua obra “Bouvard e Pécuchet”, 1881, refere que aqueles dois “artistas” tentaram melhorar a sua propriedade: “…se as árvores mais raras prosperam nas hortas da capital, também deviam resultar em Chavignoles – e Pécuchet arranjou lilases das Índias, a rosa da China e o eucalipto, então nos primórdios da sua reputação. Todas as experiências falharam.”

Aqui, em Portugal, se muitos tiveram prejuízos com os eucaliptos, outros tiveram muitos lucros, até com os incêndios dos mesmos. Os suecos, que dominavam a pasta do papel, em tempo, passaram a pasta para outro(s), agora outras. E são apontadas como sendo detentoras de uma das maiores fortunas de Portugal, alimentada e desenvolvida já no “antigamente”.

Voltando a Trás-os-Montes. De vez em quando são publicados livros que são estudos sobre os Judeus. Praticamente não existem referências a essas publicações. Em 2017 realizou-se em Bragança, durante quatro dias, um Congresso Internacional sobre “Terras de Sefarad”, onde foram apresentados trabalhos muito importantes e esclarecedores sobre o papel dos judeus em Trás-os-Montes. Paulo Mendes Pinto, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, onde existe a Cátedra dos Estudos Sefarditas, coordenador do Congresso, referiu que “No caso de Bragança, há 500 anos toda a zona de Trás-os-Montes não era em termos de desertificação, nem de economia o que nós hoje temos como estereótipo. Existiam aqui numerosos empreendedores tinha lugar aqui inovação, existiam centros culturais”.

Vítimas dos senhores poderosos e de toda uma máquina de destruição humana criada pela Igreja católica, as famílias judaicas foram sistematicamente destruídas, pela perseguição, pela tortura e pela morte. Através do medo, foi criada uma rede de denunciantes, de bufos, que não respeitava ninguém, nem os próprios familiares. Bastava que alguém vestisse ao sábado uma camisa lavada, que cozinhasse à sexta-feira, que dissesse que a chegada do Messias estava para breve, que fosse acusada de fazer comentários críticos sobre alguém ou sobre religião para ser denunciada, presa, julgada e condenada. Todos os seus bens eram perdidos. As torturas, as condenações, as galeras, a deportação, o uso do sambenito, a morte de crianças pela destruição dos seus corpos, as mortes na fogueira, tudo feito em nome da fé católica. Em Abril de 1506, em Lisboa, deu-se um massacre, onde mais de quatro mil pessoas, homens, mulheres e crianças foram torturadas e queimadas vivas junto à igreja de S. Domingos. A matança durou três dias, instigada pelos frades dominicanos, acusando os judeus de todos os males, desde a seca, à peste e de tudo o mais. Os métodos dos nazis contra os judeus no decurso da 2ª guerra mundial, não foram inventados por eles. A inquisição da Igreja católica usou-os dezenas de milhares de vezes. Na Torre do Tombo existem milhares de processos dos tribunais da Inquisição.

“Judeus em Trás-os-Montes – A Rua da Costanilha”, de António Júlio Andrade e de Maria Fernanda Guimarães, Editora Âncora, e “Os Judeus – no noroeste da Península Ibérica”, de João Domingos Gomes Sanches, da mesma editora, são dois livros que revelam as vicissitudes de muitas famílias judaicas no tempo da inquisição. A destruição sistemática das estruturas económicas, sociais e culturais na região ainda hoje se faz sentir. Actualmente, as comunidades judaicas ainda não se assumem como tal. Famílias guardam, quase secretamente, pertences religiosos herdados de antepassados e que usam em determinadas cerimónias. A diáspora mantém-se, sobretudo, através da emigração.

Alexandre Herculano, Oliveira Martins, António José Saraiva e outros, estudaram e escreveram sobre o tema, pouco conhecido da generalidade das pessoas e que, em certos círculos, é vedado abordar.



01/09/18

NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva







Houve sempre um sonho em mim, mapear a vida. Estendia os mapas nas paredes do tempo e deixava-me seduzir pelas pequenas estradas a cores entre duas linhas paralelas, os cruzamentos, as encruzilhadas, as sinuosidades das vias que muitas vezes são idênticas às da vida, os vermelhos, os verdes e os amarelos, as indicações de destino, os rios, os lagos, as vias-férreas, tudo aparecendo em minúsculo formato que produz uma atractividade ímpar. Olhando horas seguidas para o mundo representado imaginava vales, gargantas, desfiladeiros, planícies e a mancha azul do mar infinito. Procurava adivinhar o pormenor e o que seria possível encontrar em cada lugar. Seriam de pedra nua ou verdejantes as encostas das montanhas que cresciam no olhar da minha fantasia? Havia dias que encetava viagens, caminhava pela berma de uma qualquer Nacional que me aparecia como mais sedutora, entrava e saía de aldeias cujo nome gravava em pedras douradas na minha memória. Ao fim de alguns anos pensava já nada ter para encontrar nos imensos mapas que se estendiam na minha frente. Quando tudo parecia concluído, surgiu o teu corpo no horizonte do meu destino. Viajava então entre duas galáxias, uma morta e outra moribunda, escondidas nos buracos negros da humanidade. Acreditei que o poderia atravessar como uma ponte, em contemplação do êxtase, mas sucumbi à tentação de ver nele o mapa que nunca tinha percorrido. Desisti da gravação das estradas por onde viajar, ignorei os sinais, sobretudo os de proibição, e fui como se houvesse um sentido único, sem limite. Exagerei, por vezes, na velocidade, mas havia uma sensação de liberdade no vento que deslocava na passagem. Em cada desvio, optei pela estrada mais estreita e consenti que o risco me envolvesse, pois o assombro que me chegava da natureza inebriava os sentimentos e descomandava as emoções. Seduziu-me a rosa-dos-ventos que orientava os horizontes, mas preferi acreditar no movimento do sol. À noite vadiava pelo mapa do teu corpo guiado pelas constelações. Era noite e tudo brilhava. Nas margens das estradas que subiam e desciam, havia lugares de descanso, jardins de rosas que floresciam o ano inteiro. Estendia-me nos campos de algodão que imaculavam a terra e deixava que a fadiga adormecesse horas sem fim. Uma noite, inverti o mapa e deixei-me levar pelo infinito. Invertendo os pólos, o cruzeiro do sul passou a estrela da manhã. Desenrolei o mapa em toda a extensão e permiti que o olhar se extasiasse com a sensação de loucura nas estradas imaginadas que apareciam diante do olhar. Tacteei uma vez, e outra e ainda uma outra, desenhei novas rotas, caminhos novos, semeei florestas, desbravei as colinas que desciam sobre o mar dos teus olhos. Saciei a sede nas fontes nascentes do rosto e repousava sempre exausto de cada caminhada encetada. Um dia, ao acordar, percebi que este mapa era apenas um sonho, um esboço fulgurante do desejo e da imaginação e apenas uma estrada aparecia no horizonte visível. Estreita, curvilínea e de naturezas mortas, e o nevoeiro que se abriu diante dos meus passos acabou apagando todos os mapas restantes que ainda guardava no bolso interior de um casaco usado. Voltei ao caminho, mas de passo incerto e indiferente ao destino.

Mui estimado Javier Cercas não conhecendo eu a sua obra literária tão premiada (ler um livro é demasiado escasso), não podem ser estas palavras de crítica, antes apenas de espanto e surpresa. Abordar o tema da Guerra Civil não é fácil e só os grandes escritores o podem fazer com a riqueza das palavras com que a História deve ser contada. Retenho-me pois, em algumas frases contidas na entrevista que concedeu ao JL. Sem dúvida, que em todas as guerras, os bons e os maus, estão de ambos os lados, ou não fossem elas, acções humanas, quando esgotadas ou negligenciadas as palavras. Mas, a liberdade com que a guerra permite matar, não isenta os crimes, antes pelo contrário, devem ser apurados e justiçados os responsáveis. O que perturba nas suas palavras é afirmar que a República tinha a razão política mas não a razão moral (“Fiz a distinção entre razão política e razão moral (…). A República tinha razão política (…). Significa que todos os republicanos eram boas pessoas?”). Meu estimado estremenho de Ibahernando, a República tinha a razão política e a razão moral, era democrática e legítima, e como se poderia ter uma sem a outra? Ser boa ou má pessoa não diz respeito às instituições, mas aos crimes que cada um decide cometer, mesmo que em defesa dessas mesmas instituições. E a separação que pretende fazer não «irrita» apenas “todos os fanáticos”, irrita-me a mim que nada tenho de fanático. Francisco Franco não foi apenas sedicioso e golpista, foi um criminoso, um analfabeto boçal, uma diarreia da humanidade, mergulhou o Estado espanhol numa espiral de violência que enterrou um milhão de pessoas e quarenta anos depois, o ditador ainda matava. Morreu sem pagar os seus crimes. O seu tio-avô pode ter sido um jovem cheio de generosidade que se deixou iludir pelo discurso, como diz e parece acreditar o meu caro Javier Cercas, “anti-capitalista, anti-sistema, jovem e rebelde” da Falange, mas o que não pode agora, é desculpar a responsabilidade dos seus crimes, apenas porque do lado dos republicanos também haviam homens maus, deixando que por aí se esvaia a razão moral da República. Ignorar essa Falange que gritava, «Abaixo a Inteligência», «Viva a Morte» ante a grandeza e a estatura intelectual de Miguel de Unamuno?, essa Falange que só na Galiza, onde quase a guerra não chegou, passeou, fuzilou, matou, torturou e assassinou cerca de 8 mil galegos? Diz-nos que os maus da República “mataram mais de sete mil membros da igreja”, mas olvida ou omite, dizer-nos quem eram e o que faziam esses «membros da igreja», pois não pode ignorar que a maioria era contrária à República, membros da Falange e participaram activamente nos crimes. Mas se a acção dos homens maus da igreja, não belisca a ideia de Deus, também não serão os homens maus da República a retirar a esta a sua legítima razão moral. Os crimes são outro aspecto da guerra, para serem julgados e condenados os responsáveis, não apenas do lado dos vencidos, como também do lado dos vencedores, e os destes últimos, ficaram impunes, até hoje.
  

O LUBRIFICANTE

António Mesquita

(www.lci.fr)



Já todos fomos "massajados" pela música de uma esplanada.

Às vezes, apetece-nos levantar e seguir a cadência, outras, deixar-nos flutuar como se o mar estivesse ali e nos envolvesse, e não tranquilamente deitado no horizonte.

A música modifica em nós o humor e o regime do movimento. E há até quem estenda a sua influência aos animais e às plantas.

A música é pois demasiado importante para ficar confinada aos músicos e aos melómanos.

Com quantas "estratégias" musicais nos confrontamos em sociedade?

Desde a indústria do rock e do seu papel retribalizador da juventude, ao fundo anestesiante dos centros comerciais e ao lubrificante sonoro dos elevadores, de que modo, verdadeiramente subliminar, não determina este tipo de música alguma coisa do nosso comportamento?

Por outro lado, como o silêncio, sob o assédio comercial, nos deixaria desamparados e sobreconscientes no acto da compra! E como sem essa escapatória, teríamos outros e talvez mais graves problemas de polícia, de desadaptação e disfuncionalidade!

Já Platão reconhecia a importância da música na vida da cidade e defendia a proibição de certos ritmos de origem oriental.

Mas é evidente que esse controlo não é desejável.

É preciso compreender a música, neste contexto, como um sistema auto-regulado, cuja semântica está ainda por enunciar.

NOSSA SENHORA DA SAÚDE

Mário Faria





A manhã ia fresquinha e pouco respeitosa das previsões anunciadas. Dei a corda aos sapatos e desaguei junto da capela da Nossa Senhora da Saúde quando decorria a missa campal. Acabou pouco depois e a imagem da nossa padroeira voltou para a sua casa. Notei no seu rosto um ar atormentado. Provavelmente inquieta com o nosso SNS. De tarde, havia a procissão que fiz a questão de acompanhar. Muita gente e muitos andores com imagens de santos e santas e, obviamente, da Nossa Senhora da Saúde. Uma banda a fechar, direcionada para a música de perfil religioso e uma outra no comando para definir o ritmo da marcha. O ambiente era respeitoso e assumido com simplicidade. Uma ligeira fricção ocorreu quando um homem se virou para um acompanhante e disse: “vai trabalhar para as obras, ó malandro” e continuou a resmungar até se perder de vista. O calor, o som ritmado dos tambores, a caminhada sincopada e a coreografia que os diferentes actores compunham, remeteram-me de uma forma instintiva, automática, para uma cena de um dos filmes da saga O Padrinho.

Como não poderia deixar de ser todas as noites houve muita animação com a melhor música pimba. Dançava-se ao som de canções populares. As bandas de música e o coro de Paranhos também actuaram. Havia comes-e-bebes para todos os gostos, mas as sandes de chouriça, quentinhas, quentinhas arrasaram. Na despedida dei comigo a pensar se a Nossa Senhora da Saúde não andaria preocupada com os maus tratos que o nosso jardim de Arca de Água sofre e como a terra poeirenta vai tomando conta do verde que era dominante.

A greve dos enfermeiros, obrigou ao adiamento de mil cirurgias nos hospitais de Santa Maria e São José, em Lisboa, e no São João, no Porto, conforme disse à Lusa um dirigente da Federação Nacional dos Sindicatos de Enfermeiros (FENSE). Nesses cinco dias [de greve] 1000 cirurgias vão ser adiadas" nestes três hospitais, porque "os blocos cirúrgicos normais estão parados", adiantou José Correia Azevedo. Tive a oportunidade de ver e ouvir na TV este dirigente sindical a anunciar o adiamento dessas cirurgias como se fosse uma grande vitória pessoal (não escondia o seu contentamento) absolutamente alheio aos danos que poderá ter provocado aos doentes. A greve é uma arma, mas como todas as armas não deve magoar mais do que é preciso: na saúde por maioria de razão.

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