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01/10/18

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ROMA: O EXCESSO DE BELEZA

mário martins



(Fonte das Ninfas - Foto do autor)

“Em Roma há uma beleza objectiva, que está nas coisas, na arquitectura, na visível estratificação dos séculos e depois há uma beleza oculta, às vezes invisível.”
Paolo Sorrentino

(citado no livro “La Roma Segreta”, de Costantino D’Orazio)


Roma é excessivamente bela. Banhada pela água das fontes, no recato de palácios, galerias, museus e igrejas, nas ruínas do passado remoto, no renascimento de quatrocentos ou no barroco de quinhentos, a Arte jorra por todo o lado, em camadas sobrepostas, testemunhando o poder, a vaidade e o gosto de imperadores, papas e nobres que, não poucas vezes a par das maiores ignomínias, favoreceram o génio dos artistas e o engenho dos construtores. 

E, no entanto, Constantino D’Orazio, historiador de arte, lamenta “que os romanos (ao contrário dos estrangeiros) não sabem apreciar a beleza que os rodeia. Estão de tal modo habituados a vê-la que não se apercebem dela. Os romanos (…) ignorantes (…) não merecem de modo nenhum a herança que a história lhes atribuíu.” Esta crítica, excessivamente contundente, esquece que os visitantes estão livres da vida de todos os dias que, de igual modo, nos seus países, tornará a beleza habitual. Já Linda Baseggio, Jornalista e Professora de Literatura, é mais benevolente e razoável com os romanos do presente: “Poucas cidades do mundo conseguem essa mistura de magnificência e quotidianidade como Roma. Talvez pela alegre despreocupação que exibe ante a sua extraordinária beleza; uma cidade em que comer, conversar e rir é lei de vida”*

Paolo Sorrentino chamou ao seu oscarizado filme “A Grande Beleza”, mas bem poderia chamar-lhe “O Excesso de Beleza”…


*in “Viajes” nº. 222, National Geographic.

'PICKPOCKET' REVISITADO


antónio mesquita






Tenho a ideia que a sobriedade aguenta melhor a prova do tempo do que qualquer outra forma. Mas será que as maravilhas do barroco, ou da arte  védica, precisam assim tanto da nossa complacência?

Este filme de Robert Bresson, de 1959, impressionou-me, da primeira vez, por uma espécie de integridade minimalista. A própria música se retrai nesse pudor da dramaturgia. Os raros trechos de Lully dão, em certos momentos, o tom da solenidade, do destino, o resto é o monólogo de um aprendiz de fora-da-lei. Michel  é um niilista, um revoltado sem causa. O seu 'mal de vivre'  está-lhe no olhar de animal acossado - a escolha do actor -Martin LaSalle - não foi pequeno mérito. 

As figuras evoluem por grandes saltos que chocam quem está à espera do tempo de uma narrativa convencional. Não se  desenvolve o triângulo amoroso entre  Michel, o amigo e a vizinha da sua mãe, Anne, personagem angelical. Mas este não é o tempo de contar uma história. O que se quer atingir é, em vez disso,  a parábola.

Michel é, finalmente, surpreendido pela polícia em flagrante delito. Preso, é visitado por Anne, e é a ocasião para a irrupção da música e para a exaltação do tema do amor. A frase pronunciada pelo prisioneiro é daquelas que fica na memória: - 'Anne, que estranho caminho para chegar até ti!'

Poderíamos resumir 'Pickpocket' como o extravio de um homem que se reencontra na inocência do amor. A acção (e o que sobra da parábola) é um exercício das mãos.  Uma feia manipulação no gesto de roubar um passageiro do autocarro ou um espectador das corridas.

Para o cineasta de 'Diário de um pároco de aldeia' e de 'Fugiu um condenado à morte', o orgulho, pecado luciferiano, explica todo o percurso de Michel. Ao tentar ludibriar as leis, julga-se acima do comum. O filme termina com a redenção pelo amor, tema cristão e dos romances de cavalaria. Não é 'Lancelot do Lago' um dos títulos de Bresson?

MANUEL GUSMÃO

manuel joaquim





Sendo um dos mais importantes poetas contemporâneos portugueses, Manuel Gusmão, que começou a publicar em 1990, desde logo, chamou a atenção da critica e dos estudiosos. Rimbaud, Éluard, Carlos Oliveira, Ramos Rosa, Brecht, Mayakovsky, Carlos Drumond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Neruda, Jorge e Nicolas Guillén, Aragon,Yiannis Ritsos, Hikmet, Herberto Helder e muitos outros são referenciais na sua obra. Ao longo do tempo tem recebido prémios da poesia e ensaios publicados.

Publicou recentemente “A Foz em Delta” , um livro de poesia que merece ser lido, por ser um registo auto-biográfico. 
Um dos poemas do livro



“ELOGIO DA TERCEIRA COISA

Entre mim e ti há a terceira coisa
aquela que nos põe ao alcance da mão
os nomes todos das coisas e as coisas sem nome
quando a multidão sagrada dos pronomes pessoais nos
permitir dizer nós contra o tempo e o vento
Nós que aos cinco sentidos acrescentamos os outros
Nós a sensibilidade que imagina o comum
quando uma multidão deixa de ser
um rebanho de escravos para começar a ser
uma assembleia de humanos livres
de pé no chão da terra discutimos o que fazer
pelas mãos em concha bebíamos a água
onde a luz do sol cintila irisando-a
Nós que para além de ti e de mim somos
A terceira coisa : a promessa sem garantias
a invenção do incomum que partilha o comum
o comunismo que vem connosco
e para além de nós recomeça.

Manuel Gusmão “

JOANA MARQUES VIDAL

mário faria



Porque é que um procurador-geral da República tem de ser especialmente corajoso para investigar "poderosos e ricos"? Quem chega a este lugar, um dos mais poderosos do Estado, tem alguma razão, objetiva ou subjetiva, para temer seja quem for e seja o que for? (Pedro Tadeu)

Temos o dever de desconfiar da substituição de Joana Marques Vidal.

Os poderes do dia têm medo da independência do Ministério Público. O que correr mal no combate à corrupção será agora responsabilidade política de Costa e de Marcelo. (José Manuel Fernandes)

Cavaco Silva considerou, esta quarta-feira, que a não recondução da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, foi a decisão "mais estranha" do Governo liderado por António Costa. O antigo Presidente da República falou à margem de um congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), referindo que a não recondução de Joana Marques Vidal é algo que considera "muito estranho, estranhíssimo, tendo em atenção a forma competente como exerceu as suas funções e o seu contributo decisivo para a credibilização do Ministério Público".

O governo pôde sanear a Procuradora-Geral da República porque a oligarquia política está finalmente em sintonia e porque, acima de tudo, aprendeu a desprezar os portugueses. (Rui Ramos).

Marcelo foi mais um daqueles notários que validam qualquer assinatura do que um Presidente ciente do seu poder de nomeação. Para o bem e para o mal, foi cúmplice da revanche do PS contra (Luís Rosa).

O último pico de calor neste ambiente de populismo difuso foi a substituição da PGR, Joana Marques Vidal. Como pudemos  verificar, o resultado do processo, como é próprio do populismo, acaba por ser  a despolitização, a despolitização generalizada da matéria política. (António Guerreiro).

Regressado duma saída à Suécia, encontrei um ambiente político assanhado, como é costume, e da ementa constava um alargado número de queixas. A sucessão da PGR estava sob fogo: a controvérsia, como acima se refere, corria acesa e perfumada com o indiscreto cheirinho a direta ressabiada. Na minha perspectiva, os mandatos a cargos públicos deveriam seguir um regime semelhante ao da presidência da república. Não vejo por que razão os "estipulados" seis anos para a PGR não deveriam ser praticados. Falámos nisso no café da esquina. Fiquei espantado por haver mais rapaziada do que esperava que pensava exactamente o contrário e a discussão aqueceu. Valeu o Chico Fininho, completamente alheio ao que se passava, foi interpelado para dizer o que pensava. E o tipo disse da sua justiça: tenho saudades dos tempos em que "je t´aime mois non plus" era dançado nas festas populares e nos bailes de garagem e era porreiro porque a malta acabava sempre por fazer estragos nas calças. O amor inocente é o amor verdadeiro e já não há disso. Acho que a Joana nuca foi a um baile desses. Rimos e gargalhámos. E foi assim que se passou.

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