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01/03/18

VOLTAS ESTRANHAS

Mário Martins


Escher's (Louis Albert Necker's) Cube



No seu celebrado livro “Gödel, Escher, Bach: Laços eternos”, publicado em 1979, o académico americano Douglas R. Hofstadter diz de Escher – artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher, que viveu de 1898 a 1971, de cuja obra decorre, até 27 de Maio, uma grande exposição no Museu de Arte Popular, em Lisboa que “criou alguns dos desenhos intelectualmente mais estimulantes de todos os tempos. Muitos deles têm origem em paradoxos, ilusões ou duplos sentidos (…) Em particular, a volta estranha é um dos temas mais frequentes na obra de Escher (…) Implícito no conceito de voltas estranhas está o conceito de infinito, pois o que é uma volta senão uma maneira de representar um processo sem fim de modo finito? (…) O génio de Escher consiste em que não só imaginou, como, na verdade, descreveu, dezenas de mundos semi-reais e semi-míticos, mundos repletos de voltas estranhas, aos quais parece convidar os espectadores.”


Dos muitos desenhos do génio holandês que se podem ver na Internet, escolhi um que me pareceu complexo na sua aparente simplicidade.



PS: O sempre colorido congresso do PSD praticamente obrigou o líder recém eleito a jurar que quer ganhar as próximas eleições. Coisa, também ela, estranha…








01/02/18

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A ZONA

Mário Martins

http://www.elsinore.pt/livros/vozes-de-chernobyl




“Isso não é mecânica nem física, é metafísica.
Comentário de um relojoeiro que não conseguiu reparar um relógio exposto a radiação.


“Vozes de Chernobyl”, é um livro que dói. Os testemunhos de sobreviventes do desastre nuclear são pungentes. “Temos uma nova nacionalidade, já não somos ucranianos ou bielorrussos, somos chernobilyanos”. Mas, para lá do sofrimento das mortes por radiação e das deformações e cancros chernobilyanos”, o sentimento generalizado que paira nos dias e meses a seguir àquela data fatídica de 26 de Abril de 1986, em que uma série de explosões destruiu o reactor nr. 4 e o edifício que o albergava, na Central Nuclear de Chernobyl, situada na então República Socialista Soviética da Ucrânia, é um misto de incredulidade e incompreensão. Apesar dos avisos e protestos sobre a gravidade da situação do Director do Instituto de Energia Nuclear da Academia das Ciências da Bielorrússia, o governo central, como é típico, para evitar o pânico”, procurou ocultar e menorizar aquele que viria a ser classificado como o maior acidente nuclear no mundo até então*, mas demorou menos de uma semana para que Chernobyl se tornasse um problema do mundo inteiro, devido à radiação espalhada. Esta não é visível e não tem cheiro nem som, como fazer compreender aos habitantes da “zona de exclusão de Chernobyl”, um raio de 30 quilómetros em redor da central, a necessidade da sua evacuação e de enterrar tudo? Como compreender que não podiam comer os frutos das árvores, os produtos da horta, os animais da capoeira, ou que não podiam tomar banho no rio, quando tudo estava “igual”? Para a história fica o heroísmo e, para muitos deles, o sacrifício, de centenas de milhar de “liquidadores”, mobilizados ou que se voluntariaram para taparem precariamente o reactor antes de, meses depois, se construir o Abrigo ou Sarcófago**, de chumbo e cimento armado, que alberga nas suas entranhas cerca de 200 toneladas de material nuclear. Os radionuclídeos entretanto espalhados durarão milhares de anos. Nas palavras daquele físico bielorrusso “O homem inventou tecnologias para as quais ainda não está preparado. Não estão ao seu nível. Poderemos pôr uma pistola nas mãos de uma criança? Somos crianças loucas.”. Por ironia, a Bielorrússia, que não tinha uma única central nuclear, mas cuja fronteira fica a uns escassos 16 quilómetros de Chernobyl, foi duramente atingida pela radiação. E Espanha aqui tão perto…



*Foi classificado com o grau máximo de gravidade – grau 7 -, tal como viria a ser o de Fukushima, no Japão, em 2011.

**Estava prevista para o final de 2017, a conclusão da substituição do sarcófago, já com graves fissuras, por um gigantesco Arco de aço, em princípio mais seguro e durável.

AS MONTANHAS

António Mesquita

(Monte Parnaso)



"Não podia pensar nos Gregos sem ver montanhas diante de mim e, bizarramente, essas montanhas pareciam-se muito com aquelas com que quotidianamente me deparava. Tinham o aspecto de mais ou menos afastadas, segundo as condições atmosféricas; regozijávamo-nos quando eram mais visíveis, eram faladas e cantadas e objecto dum verdadeiro culto."

"La Langue sauvée" (Elias Canetti)

Goethe gostava de contemplar a reprodução duma bela obra de arte para apagar a impressão dum encontro fastidioso, como os a que a sua profissão de conselheiro áulico constantemente o obrigava.

Porque o espírito em cada um, o seu eu mais íntimo, não são imunes à fealdade, à influência corrosiva do que se aproxima de nós ou nos cerca como um ambiente. Por isso são tão importantes as imagens e os símbolos que nos ajudam a atravessar os círculos da vida como se o próprio Virgílio nos conduzisse.

O jovem Canetti teve a sorte de não ter de sustentar o espírito da Grécia à força de concentração mental, porque tinha diante de si o espectáculo inspirador das montanhas da Suíça. A realidade dava, assim, lugar ao símbolo com toda a naturalidade.

MÁSCARAS E UMA RECEITA

Manuel Joaquim

http://www.portugalnummapa.com/caretos/#prettyPhoto

António Pinelo Tiza, no seu livro A Magia das Máscaras Portuguesas, retrata a história do Carnaval, o  seu significado, as personagens, os rituais e o simbolismo dos mascarados. 

As máscaras, contrariamente ao que muita gente pensa, não aparecem só em Trás-os-Montes. Aparecem no Entrudo das Aldeias de Xisto de Góis, em Coimbra, nos Caretos de Lagoa, em Mira, nos Cardadores de Vale de Ílhavo, Aveiro, e nas festas de verão, as Bugiadas de Sobrado, em Valongo. Mas é sobretudo nas aldeias do nordeste transmontano que a tradição das máscaras se mantém. Tem contribuído para o desenvolvimento de artesanato local e para o aparecimento de verdadeiras peças artísticas. Em Trás-os-Montes, o porco foi sempre o rei da mesa. Mas cada época tem as suas comidas. No Domingo Gordo, come-se o pé e a orelha salgados na salgadeira. No dia do Entrudo come-se butelo com as casulas.


No próximo fim de semana, em Bragança, quase todos os restaurantes, vão participar no Festival do Butelo e das Casulas. Muita gente nunca ouviu falar nesta comida.


O livro “Memórias da Cozinha Transmontana” de Adozinda Marcelino e Acúrcio Martins,  descreve o que é o Butelo:
“ (…) Enchido de ossos das pontas das costelas e do rabo do porco. Estes eram sempre os últimos dos de carne a serem enchidos. Cada porco dava dois ou três butelos em função dos tamanhos. 

As costelas mindinhas, o rabo e um ou outro pedaço de carne que sobejou de salpicões e linguiças, depois de passarem pelo adobe aqueles três ou quatro dias necessários ao tempero, serão enchidos nas tripas mais grossas do porco.

Proceda da mesma forma utilizada para os salpicões: retire as carnes do adobe, coloque-as num alguidar e tempere de pimento (colorau) Encha nas tripas mencionadas e ate muito bem. O atar os butelos é algo de especial! Visto tratar-se de peças grandes e pesadas é necessário reforçar a atadura para não caírem. Com uma navalha aguce um s’taraco de esteva da grandura e maneira de um palito. Depois de atada a “boca”, espete o s’taraco atravessado na boca do butelo e ate bem com o fio. Ponha no fumeiro, na ponta daquelas varas onde apanhem mais calor.”  

E descreve o que são as Casulas:

“Vagens de feijão verde, seco ao sol. Nem todo o feijão verde se presta para secar para casulas, pois existem variedades mais indicadas que outras para este fim. Por estas bandas as mais usadas eram as sapinhas sendo mais tenras, amanteigadas e tendo menos “fios”.”

Aqui vai a receita do livro:

“BUTELO DO DIA DE ENTRUDO

Demolhe as casulas de um dia para o outro. Lave o butelo para o libertar do cheiro característico a fumo. Demolhe o e a orelha de porco, lave de seguida. Numa panela com água coza o butelo, as casulas, o pé e a orelha.

A meio da cozedura junte umas quantas batatas descascadas cortadas a meio e duas cebolas descascadas e cortadas em quatro.

Deixe acabar de cozer, verifique o sal e sirva em travessa colocando as casulas, batata e cebola em primeiro lugar, dispondo o butelo, orelha e pé por cima. Tempere as casulas, batatas e cebola com um bom Azeite.

Quem ceia em vinhas almoça em fontes.

Bom apetite!






                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             
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