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01/11/13

VOTO BRANCO

Mário Martins

 

 

Passava da meia-noite quando o escrutínio terminou. Os votos válidos não chegavam a vinte e cinco por cento, distribuídos pelo partido da direita, treze por cento, pelo partido do meio, nove por cento, e pelo partido da esquerda, dois e meio por cento. Pouquíssimos os votos nulos, pouquíssimas as abstenções. Todos os outros, mais de setenta por cento da totalidade, estavam em branco.”

José Saramago

Ensaio sobre a lucidez – 2004

As recentes eleições autárquicas, pelas maiores taxas de abstenção e de votos brancos e nulos alguma vez registadas e pela ascensão das candidaturas independentes, dão uma clara oportunidade de corrigir a nossa democracia representativa. Não se trata, apresso-me a dizer, de acabar com os partidos, embora a afirmação, imediatamente seguida de um ponto final, de que não há democracia sem partidos, se afigure, no contexto de hoje, objectiva ou subjectivamente, suspeita de procurar manter o actual estado corrupto das coisas. Se, de facto, não há democracia sem liberdade política, nomeadamente a liberdade de criação e de existência de partidos, essa liberdade que, sublinhe-se, é dos cidadãos e não dos partidos, não pode ser interpretada como a possibilidade destes, periodicamente, pedirem um cheque em branco aos eleitores. No entanto, é isso que se tem passado em Portugal. Contrariamente ao que acontece nas eleições para a Presidência da República e para as Autarquias Locais, em que os cidadãos se podem candidatar ou apoiar candidaturas directamente, para a Assembleia da República só os partidos se podem candidatar. Na prática,não se elegem os deputados nem, muito menos, o governo, mas sim os chefes partidários da ocasião. É isto que é preciso mudar. Como? Com uma campanha dos movimentos políticos de intervenção e opinião, de exigência de mudança do sistema eleitoral, tantas vezes prometida, no sentido de submeter os candidatos a deputados, sejam propostos pelos partidos ou por grupos de cidadãos (como, por aí, já se reclama), ao voto dos eleitores. Essa campanha incluiria um forte apelo ao voto em branco, em larga escala, já nas próximas eleições europeias, se os partidos continuassem a fazer “ouvidos de mercador”. Seria, então, o tempo de passar da ficção de Saramago para a realidade.


PS: No programa televisivo “Olhos nos olhos”, do Dr. Medina Carreira, de 7 de Outubro passado, o Engº. Ângelo Correia, uma velha raposa do PSD, justificou a sua recusa de candidaturas directas dos cidadãos a deputados, com o perigo de esses futuros deputados independentes serem capturados por grupos de interesses. Foi a “piada” da noite…

 

01/10/13

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AS AMIGAS

Cristina Guerreiro

Engoliu. Não havia alimento para descer, nem água, tão pouco cuspo que tudo lhe havia secado no instante e até as lágrimas que sentia a arder não vinham, só o queimado a incendiar desde a boca do estomago até aos lábios apertados que não tinham perguntas a fazer perante o que acabara de ouvir. Depois de se ouvir as palavras que ouvira não há nada a dizer, não há nada a dizer, escutava na sua cabeça e rasgavam-lhe gritos mudos por dentro na interrogação, queria fugir e sentia-se pálida nos pés, nas mãos, no rosto e tudo lhe incendiava porém.

Engoliu as palavras que ouviu. Caíram como pedras para dentro de um estomago oco, ofendendo a alma.

Baixou os olhos, sentiu vergonha de si e não sabia porquê.

Às vezes achava-a triste e intrigava-se com tão profunda melancolia, uma quase queda para dentro de si que a fazia desaparecer, engolida como se fosse um chão de si mesma a abrir-se em fenda que depois se quisesse cerrar como sepultura. Tinha receio de a abordar nesse estado por lhe parecer tão delicada. De outras, os olhos pareciam chamá-la a pedir ajuda e ela não estava certa se era pedido de socorro ou apenas o mote para iniciarem conversa de circunstância.

Acabaram a falar por intermédio de terceiros e ao final de um par de horas, a conversa deslizava como se uma necessidade de ambas as tivesse posto naquela posição por uma força maior.

Não se tornaram inseparáveis, mas amiúde a procura aproximava o diálogo intimista e revelador e um dia ela perguntou-lhe porque era ela uma mulher tão triste.

Não houve resposta.

As lágrimas rebolavam pela face, pelo pescoço, pela camisola, era um rio silencioso imparável.

A outra não sabia o que fazer. Muda, deu-lhe a mão e assim se mantiveram até o choro acalmar e por fim se esgotar num silêncio seco, com uma despedida às pressas sem olhar.

E por cada vez que o assunto era aflorado vinham as lágrimas, a mão já não chegava para o consolo porque já o sabia e escondia-se num cruzar de braços, e as palavras começaram a fazer perguntas sobre tanta água, tanta amargura, tanta morte no olhar.

Era o amor e o desamor.

Amava um homem e estava presa a um outro do qual não se podia libertar sob pena deste se condenar a um destino que lhe cobraria a vida inteira ensombrando-lhe o coração, impedindo-lhe no fundo, de amar.

E a verdade, não conta?

Não, não conta, o que contava era o que se via e o que se via não era o que ela mostrava de verdade, porque lágrimas e dor e amor, só com ela se permitia libertar, a mais ninguém, nem ao amor, preferia fingir que tudo estava bem a pensar num gesto desesperado, e a quem estava presa, mentia igualmente, fazia de conta que estava como sempre tinha sido.

Até quando? Uma vida dupla até quando? Um dia iria olhar para o espelho e haveria de querer escolher ou então não saber qual preferir ou pior nenhuma aceitar, liberdade, liberdade no coração e na alma, mais lágrimas até haverem mares que afoguem homens e nenhum se salve para salvar-te...

As quatro estações rodaram e as lágrimas não fizeram nem um ribeiro, vieram sorrisos, gargalhadas, palmas. Estava bonita, um semblante brilhante e iluminado, faladora, parecia ter rompido de uma pele velha apertada para surgir viçosa.

A amiga chegou-se perto e sorriu-lhe, ela correspondeu. Perguntou-lhe como estava, como ía a sua vida, que a via bem e feliz e ela respondeu que não a queria metida nas suas coisas, não eram do seu rosário, que não se envolvesse em assuntos que não lhe diziam respeito.

Ela engoliu.

Sentiu vergonha de si, mas era da amiga também.

 

O DIA EM QUE O POETA MORREU

Alcino Silva

Manuel António Pina

A noite chegava com a sua tristeza, a sua escuridão, os seus negros temores, os seus silêncios e vazios, transformando a solidão numa vastidão oceânica, chegava e sorrateira roubava o espaço à melancolia do dia, cobria-a como quem estende um manto e deixa apenas momentos ocos, o olhar sem nada. O seu pensamento caminhava derrotado como em tantos outros crepúsculos outonais, no delírio de lágrimas silenciosas que tombavam escondidas na alma, enquanto procurava a luz desse sorriso que não olvidada e lhe servia de protecção perante estes vapores cinzentos que a noite trazia e se transformavam em espaços dessa escuridão que esconde as estrelas e o afogavam nos temores negros das trevas. Entre as gentes, perdido no trânsito, fugia clandestino, camuflava na estrutura do automóvel os seus medos nocturnos, como uma criança refugiada no canto do quarto, desabrigada e aguardando que alguém acenda uma luz que a proteja. Num primeiro instante não compreendeu, mas quase logo saiu do torpor que o levava e os seus ouvidos débeis escutavam a notícia que tornava a noite ainda mais escura, dessa negrura impenetrável que chega a submergir a tristeza e atrai para si todos os pavores encobertos. A notícia repetia-se e não deixava dúvidas, o poeta não resistira à chegada da noite e deslizava vencido pela mágoa do corpo que lhe fugia deixando a alma no desamparo do sonho. Na recordação da viagem pela vida, ouvia-se a voz grave da notícia lendo as belas palavras escritasdo poeta e a sua atenção maravilhada agarrou-se à poesia com mãos de náufrago e procurou no sorriso que iluminava os seus olhos o amparo que necessitava, como todos os dias, mas ainda mais agora que o poeta partira. Mas na ânsia de chegar a terra, a memória traiu-o e na mensagem que enviou não eram as palavras do poeta que seguiam, mas as suas, «Entra com o teu olhar no meu quarto, e não deixes que as sombras da noite me levem». No escuro surgiu um farol e os versos que o poeta deixava como bandeira, sopravam agora os ventos do seu destino e no porto de abrigo que procurava, a sua mensagem prosseguia, «Entra no meu quarto e fica, com a clara e limpa luminosidade do teu olhar, corre as cortinas que encerram a minha solidão, e estremecem as paredes de silêncio, entra no meu quarto e deixa-me o teu olhar». A escuridão do crepúsculo que arrastava a vida do poeta transformou o infinito universo numa tempestade boreal, agigantou o mar que o arrastava e o sorriso que o protegia pareceu então perder-se como se a luz última definitivamente se apagasse. Susteve o alento que lhe restava na poesia do poeta que se extinguia e com ela enfrentou o adamastor que lhe cercava o caminho, lembrando-se por fim das verdadeiras palavras do trovador para vencer a adversidade e o medo e recitou-as e nova mensagem escreveu, como um apelo, um cântico, como alguém que estende os braços abandonados antes de cair no abismo do desconhecido, “Protege-me com ele, com o teu olhar, dos demónios da noite e das aflições do dia, fala em voz alta, não deixes que adormeça, afasta de mim o pecado da infelicidade”.(1)

(1) – Manuel António Pina, Completas

 

UMA EXPERIÊNCIA ELEITORAL

Manuel Joaquim

http://www.tvi24.iol.pt

Em quase todos os processos eleitorais que se realizaram após o 25 de Abril desempenhei funções nas Mesas de Voto. Nas penúltimas eleições participei na Assembleia de Apuramento Geral, que reúne no segundo dia seguinte ao da realização da eleição, para apuramento definitivo dos resultado eleitorais de todo o distrito doPorto, que tem o trabalho de analisar os resultados, as votações, os critérios e os documentos de muitas mesas de voto.

Foram pontos privilegiados para observar a personalidade, o comportamento, a formação, o estado de saúde físico e mental de muitas pessoas.

As mesas de voto, nos principais centros urbanos, são constituídas por pessoas indicadas pelos diversos partidos para o necessário pluralismo e fiscalização. O funcionamento desse critério fora dos centros urbanos é muito difícil e em muitos casos é impossível.

A partir do momento em que o desempenho dessas tarefas deixou de ser uma obrigação cívica e passou a ser uma verdadeira prestação de serviços, com o pagamento de honorários, (mantendo-se a dispensa ao trabalho no dia seguinte), muitas pessoas procuram ser nomeadas para as mesas de voto. Por isso, aparecem cada vez mais semreuniram as condições adequadas para o desempenho da tarefa. Portadoras de problemas de visão e de audição são muitas, com problemas de assistência a familiares começam a aparecer e com dificuldades na aritmética é notório.

A arrogância e o autoritarismo, raiando a má educação, são evidentes em muitas mesas de voto, tanto para componentes das mesmas como para cidadãos eleitores.

Durante o período da votação contacta-se com muita gente. Gente conhecida e gente desconhecida. É a população a passar à nossa frente.

Algumas mesas de voto revelam uma população envelhecida, com sinais evidentes de debilidades físicas e psicológicas.

Muitos corpos revelam-se dominados por doenças, canseiras, sofrimentos, limitaçõesintelectuais evidentes. Pessoas que eu conheço, que ainda há poucos anos revelavam primores físicos e intelectuais, não conseguem dobrar os votos ou simplesmente não conseguem votar. Casais, que nas câmaras de voto, tentam dar indicações verbais outrocar boletins de voto não é incomum.

Todos os cidadãos, sem excepção, exercem plenamente os seus direitos votando convictamente nas opções que consideram ser as melhores. Naturalmente que votam em função dos seus interesses que podem ser os mais diversos. É aqui que funcionam as promessas eleitorais que são apresentadas em função do eleitorado a que se destinam.

As promessas eleitorais vão desde a pintura da casa, a reparação do telhado, o subsídio para a família, uma casa municipal, até a notícias na comunicação social sobre negociações para obtenção de fundos para a recuperação de centros históricos com subsídios a fundo perdido ou com juros muito baixos para os senhorios poderem recuperar os seus imóveis, ou a intervenções de políticos importantes de que a crise está a passar e que já estamos a chegar à praia da bonança.

Antigamente existiam profissionais do conto do vigário que assentavam praça nas mediações da estação de comboios de S. Bento, que esperavam pelas pessoas que chegavam à cidade para lhes vender vigésimos premiados, bilhetes do prego, joias de latão ou até eléctricos. As ciganas ganhavam o dia a ler a sina. Outros levavam uma vida rica a deitar as cartas, a fazer defumadouros e bruxarias.

Hoje o conto de vigário é mais sofisticado. Os jornais, rádios e televisões estão a facturar lindamente com anúncios de grandes médiuns videntes, de astrólogos e outros que se dedicam a dar consultas sob marcação para resolver os problemas de amor ou familiares, de heranças, de saúde, de droga, de má sorte ou inveja e todos os outros que nos apoquentem. E se as receitas dos anúncios são boas é porque os anunciantes facturam à grande. Os clientes não faltam e são cada vez mais. Vale a pena registar a quantidade cada vez maior de igrejas que abrem pelas ruas das cidades.

Perante tudo isto, há muita gente que tem um conhecimento muito difuso da realidade e a sua capacidade crítica está condicionada. Mas a guerra ou a paz, ou a construção de uma sociedade melhor ou pior, depende muito das opções de cada uma destas pessoas.

 

 

 

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