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01/11/08

O SOBRETUDO


Cristina Guerreiro
Homme mettant un pardessus de Dethomas Maxime



Avistou-o sentado, aquele ar grave quase carrancudo que lhe conhecia parecia fazer parte da indumentária, um complemento ao sobretudo grosso cinzentão que lhe tornava os ombros mais quadrados.

Sentiu um aperto no peito.

Avançou, tocou-lhe na mão agarrada ao jornal, ele levantou-se e abraçou-a forte, vagarosamente, enorme na sua estatura, delicado no enlace.

Sentaram-se de mãos dadas, ela sentiu distintamente o calor dele amornar-lhe as suas vindas do frio de fora, o sorriso dele doer-lhe mais no peito.

Ele falou dos dias de sol por vir e do frio que os obrigava a chegarem-se mais um ao outro. Ela não foi capaz de lhe dizer, concordou com um aceno de cabeça, procurou dentro de si coisas bastantes que lhe mudassem a vontade mas não foi capaz.

Dizia que sim ao que ele lhe dizia e dizia não, nem sempre, à voz do peito, a quem falava fluente sobre a sua decisão mas emudecia-lhe o olhar quando achava que tinha chegado a altura.

Nunca seria a altura ideal. Nunca seria o nome do dia em que ele entenderia e nunca era também o carimbo que selava a coragem precisada naquele instante já tão adiado.

Nunca seria capaz de lhe dizer que o gostava como se gostam das coisas simples da vida, de homens bons que se zangam na ira da injustiça, daqueles que erguem o punho ao marcar-se a vitória. E nunca seria capaz de lhe dizer que no peito lhe faltava a lenha para queimar barcos e nadar até à margem só para agarrar a estrela do mar.

Por tudo isso, quando se levantaram ela enfiou a mão esquerda no bolso do sobretudo dele como sempre fazia. Por tudo isso ela voltou atrás para buscar qualquer coisa esquecida.

E por tudo isso ele haveria de a esquecer quando achasse no bolso o bilhete a dizer-lhe adeus.


O TANDEM

António Mesquita



Para compreendermos a política, podemos servir-nos do discurso que ela tem para si própria?

Um partido não deverá ser julgado como se a adequação do programa à sua prática fosse a questão.

As organizações precisam, mais do que apresentar uma imagem para o exterior, de se justificarem a si próprias, para o que servem, fundamentalmente, o programa e a interpretação que elas fazem da sua praxis.

Nesse trabalho de auto-referenciação, como diz Niklas Luhmann, a manutenção de um índice de diferença, frente às organizações concorrentes, faz parte da função legitimadora. Não importa que a diferença seja apenas verbal, nem que, com o tempo, possa entrar em contradição com posições passadas (neste caso, a história deverá ser reescrita de acordo com uma "síntese superior").

É evidente, por exemplo, no caso das duas centrais sindicais que ambas fazem parte de um sistema, com uma semântica própria. Ao nível confederal, além disso, o sindicalismo encontra-se demasiado próximo da política para a prática de cada central não ter de marcar uma diferença, não só em relação à outra, como em relação aos próprios partidos. Embora a independência em relação aos partidos faça parte do código de legitimação das centrais, sabemos que a realidade pode ser muito diferente, obrigando a uma certa elaboração teórica destinada a fazer passar a nuvem por Juno.

Tanto a UGT como a CGTP não são livres, de facto, de terem o discurso que querem, porque sempre a justificação de uma dependerá do que a outra diz ou faz, de se saber apresentar essa prática como essencialmente distinta e, dadas as raízes históricas do sindicalismo, como moralmente deficitária.

Os "legítimos interesses dos trabalhadores" são o sol que ilumina esta ideia do Bem. O que esse sistema de tandem confederal implica é, porém, que esses interesses façam realmente parte da "ideologia" e que os fins reais de cada organização se refiram à própria organização, como nos propõe a teoria dos sistemas.

Definir, no contexto da complexidade política e social da sociedade moderna, e a cada momento, o que são, de facto, os interesses ( a curto, médio e longo prazo) dos trabalhadores não está, feliz ou infelizmente, ao alcance de nenhum plenário ou de nenhum secretariado. O que está ao alcance de qualquer um deles é, precisamente, a continuidade de um discurso auto-legitimador, a coerência ideológica e, sobretudo, o rendimento duma diferença formal zelosamente mantida com a central concorrente.

Neste tandem, as centrais sindicais dependem, portanto, uma da outra. O discurso da responsabilidade da UGT não seria verosímil (e legitimador), nem o da "superioridade moral" da CGTP, sem a constante referência à prática, real ou suposta, da rival.

Não podemos saber de que forma, por exemplo, a "unicidade" modificaria esta situação, mas não é razão para nos lamentarmos. A central única teria, provavelmente, muito menos capacidade para parecer responder aos problemas, donde a sua inevitável perda de legitimidade.

Dito isto, as razões para se preferir uma central à outra, em nome dum programa ou duma prática sindical, mantêm-se, evidentemente, válidas, embora num plano, de facto, lateral.


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01/10/08

15

CONHECER E COMPREENDER

Mário Martins


“A filosofia é emocionante porque é a mais ampla de todas as disciplinas, explorando os conceitos básicos que atravessam todo o nosso discurso e pensamento sobre qualquer tema. Mas a filosofia também é frustrante porque, ao contrário das disciplinas científicas ou históricas, não oferece nova informação sobre a natureza ou a sociedade. A filosofia não procura proporcionar conhecimento, mas compreensão.”
Anthony Kenny
In História Concisa da Filosofia Ocidental *


Retomo o registo mais formal e a afirmação que fiz em artigo anterior (A Hipótese Deus - Periscópio de Junho passado) de que a questão da existência de Deus não é propriamente uma questão científica, mas antes uma questão racional, como tal aberta aos dados científicos.
Não porque pretenda, no presente artigo, ir mais além na apreciação do mistério do mundo, mas porque é um bom exemplo para ilustrar, por um lado, a distinção entre conhecer e compreender e, por outro, o facto de, muitas vezes, não se tirarem as devidas consequências das afirmações produzidas.
Resumidamente, o conhecimento científico que hoje temos indica-nos que o universo tem idade (cerca de 13.700 milhões de anos), mas existe uma corrente da física teórica que, não pondo em causa a idade, defende a existência de mais dimensões além das quatro que conhecemos e de um conjunto infinito de universos, o multiverso.
É preciso, agora, compreender isso de o universo ter idade ou de haver um número infinito de universos, e compreender é tirar consequências dessas afirmações científicas (a última apenas teórica e não estabelecida):


  • Se o universo tem idade e o significado clássico de “tudo o que existe”, então precisa do sobrenatural para explicar o seu nascimento;
  • Se o universo tem idade mas o significado restrito (de acordo com a abordagem científica actual) de “nosso universo” ou “universo conhecido”, então deixa em aberto a questão de precisar ou não do sobrenatural para explicar o seu nascimento, conforme a conclusão (se for possível concluir…) venha a ser que é único ou que, pelo contrário, existe um número infinito de universos;
  • Nesta última hipótese, se o universo tem idade mas brotou de outro universo, numa sucessão infinita, então não precisa do sobrenatural para explicar o seu nascimento, detendo a natureza, nesse caso, a propriedade divina da eternidade;
  • Em suma, a natureza ou é finita e precisa de Deus, ou é eterna e confunde-se com Ele.

Como se vê, sendo embora a ciência, incontestavelmente, o modo mais seguro e profundo do conhecimento, ela não esgota a abordagem racional seja do que for, quer dizer, não dispensa, antes solicita o esforço de compreensão que é preciso fazer, não só, desde logo, do próprio processo científico e do contexto em que o mesmo é efectuado, como também das suas implicações, teóricas e práticas, fora dele.
Se estas consequências fazem sentido, não pode deixar de surpreender a raridade da sua abordagem. Julgo que este facto radica em duas razões de sinal contrário, a saber, por um lado a influência e o consolo das certezas religiosas assentes em pretensas verdades reveladas e, por outro lado, a crença, mais ou menos consciente, de que este é um assunto que, como qualquer outro, a ciência há-de vir a esclarecer um dia. A questão da existência de Deus, ou de saber por que existe tudo o que existe, seria, assim, um assunto de gosto pessoal, logo indiscutível, uma vez que, verdadeiramente, o mesmo só estaria ao alcance de teólogos e cientistas. As duas razões, como disse, têm sinal oposto (uma é da ordem do sagrado, a outra é do profano), mas ambas, a meu ver, produzem o resultado idêntico de convidarem a não pensar e questionar.
Como não aceito verdades “reveladas” ou dogmáticas apenas me deterei na crença, ou na ilusão, de que a ciência há-de esclarecer tudo, ou seja, que a ciência nos há-de dar, no futuro, as certezas milenares que a religião nos dá hoje.
Mas só no próximo número, para não maçar ninguém…

* Editorial Temas e Debates - 1999


O FILHO DO DANGER MAN

Mário Faria



Alguns ainda se recordarão de uma célebre série americana que passou na RTP, nos anos sessenta. Era uma série policial. A personagem (Danger Man) corria todos os riscos para apanhar os maus. Estava para ao bandidos, gangsters e afins como o Gary Cooper para os índios. Não escapava um.

Quando estive em Angola, a logística era “servida” por via terrestre por MVL : um comboio composto de camionetas apoiado por carros de combate que depositava nos diversos aquartelamentos todo o tipo de materiais e de alimentos secos ou embalados, enquanto por via aérea, em pequenos Cessnas, recebíamos os alimentos frescos.

Tínhamos direito a duas vagas no voo de retorno, que aproveitávamos, sempre que podíamos, para dar uma escapadela até Luanda.

Um dos pilotos mais conhecidos da companhia aérea que prestava esse tipo de serviços era o Danger Man. Viajar com ele era uma aventura. Gostava de mostrar as suas habilidades e sempre que podia não deixava de picar para observar movimentos de populações, manadas de elefantes, ou simplesmente passar uma tangente a uma qualquer árvore solitária, que vaidosamente o desafiava em cima de um morro mais ou menos despido de vegetação.

No último voo que fiz com ele, apanhámos um fortíssimo temporal. Recebemos a informação que o aeroporto de Luanda estava fechado, e o homem ia-me prevenindo para me preparar para uma aterragem forçada e o que devia fazer nessa circunstância. Acho que o Danger Man estava a medir a minha capacidade de resistência ao medo. Felizmente, que não durou muito o tempo em que tive de mostrar ser possuidor de sangue frio, porque recebemos a boa nova que o aeroporto de Luanda estava reaberto e que nos poderíamos fazer à pista com segurança. Como me senti aliviado, naquele momento.

Foi a última vez que fui seu companheiro de viagem. Saiu, e foi para a África do Sul, segundo me constou. Foi substituído por um outro piloto que era o seu contrário. Bastante mais jovem, muito sereno, nada dado a exibicionismos e muito calado. Passou a ser conhecido, entre nós, como o filho do Danger Man.

Regressava de uma operação, já tínhamos sido apanhados pelas viaturas na base de apoio que nos serviu de suporte e onde tínhamos deixado uma secção de reforço, quando o som de uma forte rajada de metralhadora rompeu o silêncio e a calma. Atirámo-nos todos para o “soalho”. Sabíamos que estávamos relativamente perto do quartel e, talvez por isso, ou talvez por alguma experiência adquirida, ninguém respondeu ao fogo. Ultrapassado o primeiro susto, verificámos que aparentemente estava tudo bem, e tratámos de ver o que se tinha passado. Depressa descobrimos : o atirador da Breda, o único que se manteve no seu lugar, viu uma jibóia gigante e, por sua livre iniciativa, resolveu atirar a matar, para ficar com uma recordação para mais tarde recordar. E não foi meigo, atirou uma salva tal que a metralhadora, ainda fumegava, quando nos aproximámos.

Foi um gesto irreflectido, uma leviandade imperdoável. Passado o susto, procurámos a jibóia, e houve quem tivesse aproveitado para tirar fotografias de recordação. Tínhamos uma grande recepção à nossa espera no aquartelamento e tivemos que explicar tudo direitinho.

O acto não teve piores consequências, porque nesse dia houve um acidente na pista. O trem de aterragem ficou danificado e o piloto ficou impedido de voltar a Luanda. O piloto era o filho do Danger Man. O rapaz ouviu o tiroteio e ficou em pulgas. O pessoal veio ter comigo e resolvemos, com alguma maldade, contar uma história “ligeiramente” diferente dos acontecimentos ocorridos. Foi assim : contamos-lhe que tínhamos sido atacados pelo grupo do Chinês Manuel (um guerrilheiro super famoso da UPA), mas que os tínhamos posto em debandada utilizando a nossa última manobra : o salto mortal com rajada. O nosso rápido contra-ataque pela forma, rapidez e poder de fogo confundiu-os atemorizou-os, ao ponto de fugirem quase sem reacção. Narrámos, ainda, que não tínhamos a certeza se tínhamos feito “baixas”no IN, mas que havia muito sangue na picada e na “entrada” do capim.

Fomos mauzinhos, mas era uma pequena vingança dos medos que nos provocavam quando viajávamos naqueles teco-tecos aéreos. O alvo não merecia. Ao jantar ainda comentávamos a façanha com novos pormenores que serviram para enriquecer a façanha. O filho do Danger Man se não estava aterrorizado, manifestava claros sinais de preocupação.

Por fim, lá lhe contamos parte da verdade. Cansado da operação fui-me deitar, mas sei que os meus camaradas ficaram com o piloto durante toda a noite por que o homem não conseguiu pregar olho. Não ficou zangado, e ganhámos um novo companheiro sempre que nos deslocávamos a Luanda.

Na última vez que jantei com ele, perguntou-me muito sério se essa história do mortal com rajada era prática habitual e se o fazíamos com frequência. Foi tudo brincadeira, disse-lhe. Não ficou muito convencido, e referiu que nunca mais esquecerá aquele dia de tiros, de temores, do avião aleijado na pista, da conversa, da nossa “leviana” boa disposição, na inesquecível luminosidade criada por uma lua cheia de felicidade e nas muitas estrelas cadentes que nos vieram visitar, o que o deslumbrou e jamais esquecerá como confessou, aquela noite, naquele aquartelamento em Quibala Norte (zona de Bessa Monteiro), vértice de um triângulo que formava com Nambuangongo e Nóqui, e que era conhecido pelo Triângulo da Morte.


Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

(Manuel Alegre)


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