01/11/08
O SOBRETUDO
O TANDEM

Para compreendermos a política, podemos servir-nos do discurso que ela tem para si própria?
Um partido não deverá ser julgado como se a adequação do programa à sua prática fosse a questão.
As organizações precisam, mais do que apresentar uma imagem para o exterior, de se justificarem a si próprias, para o que servem, fundamentalmente, o programa e a interpretação que elas fazem da sua praxis.
Nesse trabalho de auto-referenciação, como diz Niklas Luhmann, a manutenção de um índice de diferença, frente às organizações concorrentes, faz parte da função legitimadora. Não importa que a diferença seja apenas verbal, nem que, com o tempo, possa entrar em contradição com posições passadas (neste caso, a história deverá ser reescrita de acordo com uma "síntese superior").
É evidente, por exemplo, no caso das duas centrais sindicais que ambas fazem parte de um sistema, com uma semântica própria. Ao nível confederal, além disso, o sindicalismo encontra-se demasiado próximo da política para a prática de cada central não ter de marcar uma diferença, não só em relação à outra, como em relação aos próprios partidos. Embora a independência em relação aos partidos faça parte do código de legitimação das centrais, sabemos que a realidade pode ser muito diferente, obrigando a uma certa elaboração teórica destinada a fazer passar a nuvem por Juno.
Tanto a UGT como a CGTP não são livres, de facto, de terem o discurso que querem, porque sempre a justificação de uma dependerá do que a outra diz ou faz, de se saber apresentar essa prática como essencialmente distinta e, dadas as raízes históricas do sindicalismo, como moralmente deficitária.
Os "legítimos interesses dos trabalhadores" são o sol que ilumina esta ideia do Bem. O que esse sistema de tandem confederal implica é, porém, que esses interesses façam realmente parte da "ideologia" e que os fins reais de cada organização se refiram à própria organização, como nos propõe a teoria dos sistemas.
Definir, no contexto da complexidade política e social da sociedade moderna, e a cada momento, o que são, de facto, os interesses ( a curto, médio e longo prazo) dos trabalhadores não está, feliz ou infelizmente, ao alcance de nenhum plenário ou de nenhum secretariado. O que está ao alcance de qualquer um deles é, precisamente, a continuidade de um discurso auto-legitimador, a coerência ideológica e, sobretudo, o rendimento duma diferença formal zelosamente mantida com a central concorrente.
Neste tandem, as centrais sindicais dependem, portanto, uma da outra. O discurso da responsabilidade da UGT não seria verosímil (e legitimador), nem o da "superioridade moral" da CGTP, sem a constante referência à prática, real ou suposta, da rival.
Não podemos saber de que forma, por exemplo, a "unicidade" modificaria esta situação, mas não é razão para nos lamentarmos. A central única teria, provavelmente, muito menos capacidade para parecer responder aos problemas, donde a sua inevitável perda de legitimidade.
Dito isto, as razões para se preferir uma central à outra, em nome dum programa ou duma prática sindical, mantêm-se, evidentemente, válidas, embora num plano, de facto, lateral.
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01/10/08
CONHECER E COMPREENDER

- Se o universo tem idade e o significado clássico de “tudo o que existe”, então precisa do sobrenatural para explicar o seu nascimento;
- Se o universo tem idade mas o significado restrito (de acordo com a abordagem científica actual) de “nosso universo” ou “universo conhecido”, então deixa em aberto a questão de precisar ou não do sobrenatural para explicar o seu nascimento, conforme a conclusão (se for possível concluir…) venha a ser que é único ou que, pelo contrário, existe um número infinito de universos;
- Nesta última hipótese, se o universo tem idade mas brotou de outro universo, numa sucessão infinita, então não precisa do sobrenatural para explicar o seu nascimento, detendo a natureza, nesse caso, a propriedade divina da eternidade;
- Em suma, a natureza ou é finita e precisa de Deus, ou é eterna e confunde-se com Ele.
O FILHO DO DANGER MAN

Alguns ainda se recordarão de uma célebre série americana que passou na RTP, nos anos sessenta. Era uma série policial. A personagem (Danger Man) corria todos os riscos para apanhar os maus. Estava para ao bandidos, gangsters e afins como o Gary Cooper para os índios. Não escapava um.
Quando estive em Angola, a logística era “servida” por via terrestre por MVL : um comboio composto de camionetas apoiado por carros de combate que depositava nos diversos aquartelamentos todo o tipo de materiais e de alimentos secos ou embalados, enquanto por via aérea, em pequenos Cessnas, recebíamos os alimentos frescos.
Tínhamos direito a duas vagas no voo de retorno, que aproveitávamos, sempre que podíamos, para dar uma escapadela até Luanda.
Um dos pilotos mais conhecidos da companhia aérea que prestava esse tipo de serviços era o Danger Man. Viajar com ele era uma aventura. Gostava de mostrar as suas habilidades e sempre que podia não deixava de picar para observar movimentos de populações, manadas de elefantes, ou simplesmente passar uma tangente a uma qualquer árvore solitária, que vaidosamente o desafiava em cima de um morro mais ou menos despido de vegetação.
No último voo que fiz com ele, apanhámos um fortíssimo temporal. Recebemos a informação que o aeroporto de Luanda estava fechado, e o homem ia-me prevenindo para me preparar para uma aterragem forçada e o que devia fazer nessa circunstância. Acho que o Danger Man estava a medir a minha capacidade de resistência ao medo. Felizmente, que não durou muito o tempo em que tive de mostrar ser possuidor de sangue frio, porque recebemos a boa nova que o aeroporto de Luanda estava reaberto e que nos poderíamos fazer à pista com segurança. Como me senti aliviado, naquele momento.
Foi a última vez que fui seu companheiro de viagem. Saiu, e foi para a África do Sul, segundo me constou. Foi substituído por um outro piloto que era o seu contrário. Bastante mais jovem, muito sereno, nada dado a exibicionismos e muito calado. Passou a ser conhecido, entre nós, como o filho do Danger Man.
Regressava de uma operação, já tínhamos sido apanhados pelas viaturas na base de apoio que nos serviu de suporte e onde tínhamos deixado uma secção de reforço, quando o som de uma forte rajada de metralhadora rompeu o silêncio e a calma. Atirámo-nos todos para o “soalho”. Sabíamos que estávamos relativamente perto do quartel e, talvez por isso, ou talvez por alguma experiência adquirida, ninguém respondeu ao fogo. Ultrapassado o primeiro susto, verificámos que aparentemente estava tudo bem, e tratámos de ver o que se tinha passado. Depressa descobrimos : o atirador da Breda, o único que se manteve no seu lugar, viu uma jibóia gigante e, por sua livre iniciativa, resolveu atirar a matar, para ficar com uma recordação para mais tarde recordar. E não foi meigo, atirou uma salva tal que a metralhadora, ainda fumegava, quando nos aproximámos.
Foi um gesto irreflectido, uma leviandade imperdoável. Passado o susto, procurámos a jibóia, e houve quem tivesse aproveitado para tirar fotografias de recordação. Tínhamos uma grande recepção à nossa espera no aquartelamento e tivemos que explicar tudo direitinho.
O acto não teve piores consequências, porque nesse dia houve um acidente na pista. O trem de aterragem ficou danificado e o piloto ficou impedido de voltar a Luanda. O piloto era o filho do Danger Man. O rapaz ouviu o tiroteio e ficou em pulgas. O pessoal veio ter comigo e resolvemos, com alguma maldade, contar uma história “ligeiramente” diferente dos acontecimentos ocorridos. Foi assim : contamos-lhe que tínhamos sido atacados pelo grupo do Chinês Manuel (um guerrilheiro super famoso da UPA), mas que os tínhamos posto em debandada utilizando a nossa última manobra : o salto mortal com rajada. O nosso rápido contra-ataque pela forma, rapidez e poder de fogo confundiu-os atemorizou-os, ao ponto de fugirem quase sem reacção. Narrámos, ainda, que não tínhamos a certeza se tínhamos feito “baixas”no IN, mas que havia muito sangue na picada e na “entrada” do capim.
Fomos mauzinhos, mas era uma pequena vingança dos medos que nos provocavam quando viajávamos naqueles teco-tecos aéreos. O alvo não merecia. Ao jantar ainda comentávamos a façanha com novos pormenores que serviram para enriquecer a façanha. O filho do Danger Man se não estava aterrorizado, manifestava claros sinais de preocupação.
Por fim, lá lhe contamos parte da verdade. Cansado da operação fui-me deitar, mas sei que os meus camaradas ficaram com o piloto durante toda a noite por que o homem não conseguiu pregar olho. Não ficou zangado, e ganhámos um novo companheiro sempre que nos deslocávamos a Luanda.
Na última vez que jantei com ele, perguntou-me muito sério se essa história do mortal com rajada era prática habitual e se o fazíamos com frequência. Foi tudo brincadeira, disse-lhe. Não ficou muito convencido, e referiu que nunca mais esquecerá aquele dia de tiros, de temores, do avião aleijado na pista, da conversa, da nossa “leviana” boa disposição, na inesquecível luminosidade criada por uma lua cheia de felicidade e nas muitas estrelas cadentes que nos vieram visitar, o que o deslumbrou e jamais esquecerá como confessou, aquela noite, naquele aquartelamento em Quibala Norte (zona de Bessa Monteiro), vértice de um triângulo que formava com Nambuangongo e Nóqui, e que era conhecido pelo Triângulo da Morte.
Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.
(Manuel Alegre)

