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04/09/08

OS ESPAÇOS, O TERRITÓRIO, A PAISAGEM

Alcino Silva

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De longe a longe, ou num documentário, ou numa abordagem sobre projectos de arquitectura lá me aparecem explicações onde se diz que a ideia foi abrir a pedra ao sol, o espaço à luz, dar maior amplidão ao local, criar uma sensação de vastidão. Em complemento aparecem várias figuras, doutas naturalmente, que dizem que sim, que sim senhor, parece-lhes bem e outras, doutas também, dizem que não, que não faz sentido, o local ficou desfigurado, sem graça, sem cor, sem vida, parece um deserto. Entretanto, aqui e ali vão emendando a mão e colocando umas árvores, mas a avenida dos aliados nunca mais foi a mesma.
Por mim, vou olhando, vendo e escutando e tento pensar se é verdade que aquelas pedras precisavam mesmo de tanta luz, daquela torreira de sol que nos dias quentes nos abrasam. Desse território que vem do Minho até ao Douro sempre o conheci verde, daquele verde que transporta vivacidade e brilha quando a luz estelar o tenta penetrar e forma as copas das árvores altas que em dimensão considerável nos permitem aquela frescura retemperadora nos dias de calor vivo. Ao lado destas cores, sim destas, pois este verde tem tonalidades que nos chegam a embriagar quando no Outono se transformam em diversos castanhos, convive aquele cinzento acastanhado do granito que embeleza as fragas, dá grandeza às montanhas e abriga em vales profundos, aqui e ali extensos, as pessoas, essas gentes que trabalham a terra, apascentam o gado e por ali cresceram e viveram. Outras tonalidades, não conheceram, em redor de si. Nas suas aldeias ou nas partes mais vetustas das cidades, entre ruas estreitas, vielas íngremes, lá encontramos aquela pedra dura, resistente, fria e acolhedora que nas noites gélidas nos esconde dos ventos que sopram do norte como navalhas a cortar o ar e nos dias cálidos se torna o nosso refúgio daquele estival tempo que em ondas nos parece afogar. Olhamos o horizonte e encontramos esta paisagem, esta mistura inconfundível que o sol quando surge lhe transmite uma tonalidade única. Como abdicarmos dessa luz da primavera que incendeia a nossa esperança na partida do duro e áspero Inverno e na chegada dos dias longos onde mesmo de braços abertos não conseguimos alcançar as pontas do dia? Será imaginável escutarmos o som dolente dos sinos escondidos nos exíguos campanários de igrejas e capelas se nos abrirem as ruas, apagarem os jardins e derrubarem as árvores para que o sol chegue aberto, rasgado e intenso? A magia destes toques, dos ruídos campestres teria o mesmo encanto nas planícies do sul em horizontes sem limites e expostos à impiedade permanente da luz provinda do céu? Por outro lado, só posso imaginar o território para lá do Tejo como um espaço aberto, amplo, de luz fulgurante, enérgica, sem limites, com uma intensidade que nos faz reter os olhos em terra. É uma luz cujo brilho queima e as gentes procuram os pátios interiores para se deleitarem naquele tempo de chamas de luz viva e mesmo as quelhas, as azinhagas, vêem aquela luminosidade entrar, aquecer, abrir horizontes. Escutar o sino nas tardes desse calor que nos amacia não terá nunca a fantasia que sentimos a norte, entre o Minho e o Douro, na terra verde e fértil regada pelas águas. Na planície se olharmos, quando de Almada atravessamos esse rio largo e rebelde, o que sentimos é um outro som a descer a colina em frente, guardada pelas muralhas medievais, o que escutamos é esse canto matutino que nos chama e apela à presença no espaço da oração, de antigas preces dos que expulsos foram, e aquela voz projectada ao vento, não podia progredir, nas ruas estreitas da cidade do Douro, nestas vielas, entre este granito. Aquele cântico necessita de luz, de abertura, de vastidão, enquanto a norte só ganha forças no interior granítico dos mosteiros ao abrigo da rocha dura das montanhas. Não fechem o canto do al-muedim, nem abram ao vento o toque dos campanários. Não derrubem este verde, nem apertem os espaços abertos do sul. Deixem-nos com os nossos jardins, as nossas árvores, o nosso território curto, abrigado, fechado. Deixem-nos abraçados a este cinzento granítico a esta beleza de cores que o sol enriquece em colorida harmonia e não encerrem os espaços infinitos para lá do Tejo onde a luz solar se espreguiça em labaredas de calor imenso. Não nos levem para o mediterrâneo, nem tragam o mar interior até nós. A natureza segue as suas próprias leis, escolhe os espaços e desenha-se no interior dos mesmos. Alterar o rumo nunca conduziu a bom porto.

OS FIGOS

Cristina Guerreiro




Escuro. Ao abrir a porta a madeira rangeu pelo sobrado, ele deu-lhe um safanão e ela gemeu ainda mais à luz amarelada de final de dia. Fechou a porta, uma poça de água rodeou-lhe os pés descobertos nas alpergatas e ele bateu com força obrigando a madeira a dar mais um urro. Despiu a camisa molhada da chuvada setembrina. Agradava-lhe aquela água. Era macia, pendurava-se em gotas minúsculas como diamantes roubados pela barba grisalha e descuidada. Ficou de calças, camisola interior, pés nus sobre a madeira quente.

Escuro. Pela janela esquadrinhada pouco lume já saía do dia mas bastava-lhe.

Sentou-se, apoiou os cotovelos sobre a mesa e desembrulhou a dezena de figos, alguns pinguços, ambarinos, babosos de um mel que lhe picava as ventas e lhe aguava os olhos.

Meteu-lhes a unha, primeiro devagar, depois o polegar enterrou-se na polpa granhuda e escachou o fruto pela metade. Encostou-o à boca, à barba e rapou-lhe o miolo, olhos ao tecto, vigas de madeira silenciosas perante o acto, altivas, observadoras na sua carcomida existência à sublimação do homem lá num fundo comendo figos.

Papou-os à vez, carinhosamente, caridosamente lambidos até à pele, unhas peganhentas de tanto como os cabelos da barba ou o desvelo nas memórias corridas pelas mãos peganhentas de seu pai a dar-lhe figos à boca.

Rápido percebeu que dez tinham sido comidos com a força das duas mãos, tantos quantos os dedos que seguraram amavelmente a lembrança granulada e doce. Olhou as cascas desvairadas. Rangeu a madeira pela pena do fim. Escuro. Buscou vela e acendeu-a, buscou pão e juntou-lhe as peles e de olhos fechados tragou-as limpando as barbas aos fios de chuva e de algumas lágrimas.

Escuro lá fora, amarelo cá dentro, gemeu o sobrado e a porta de novo. Rios de água passavam a correr. Agachou-se e deixou partir o barco feito com o papel que lhe escondera os figos.


Início

O TRABALHO DE ENCANTAR

António Mesquita

"Os artistas de circo" (Georges Seurat)


A televisão fez do circo uma espécie de reserva do real. A moda ecológica pode matar a sede nesta fonte. O homem sentado pode julgar o equilibrista que três vezes nesse mesmo dia parece brincar no arame. Não contente com atravessar a pista a vinte metros de altura, ele simula aquilo que mais teme no público: o seu pânico. E pelo riso, a tensão da bancada deixa de ameaçar. Não tira que este ginasta arrisque mais do que qualquer outro sem receber os louvores do estádio olímpico. As crianças imitam as palmas dos adultos dirigidas para o homem lá em cima, mas só os pais sabem que é difícil. Adivinha-se o regime destes atletas e a estranha comunidade das roulottes. O jogo, quanto mais difícil e estático, mais precisa do microfone. A atenção do público meio selvagem não passa sem o comentário superlativo do mestre de cerimónias, vestido de fraque como convém. Mas é também para acordar o juízo que deixa passar a proeza que essa voz se faz ouvir.
O mundo maravilhoso é um mundo de trabalho. Tudo se paga com o corpo, e a vontade indomável é o único milagre. A criança aceita tudo e acredita em tudo. Mesmo no leão e no elefante. Estes animais extraordinários quase só se vêem no circo e respondem ao chicote como os escravos. É porque doutra maneira não se obtém o seu concurso, e isso diz tudo da arte do domador que com uma mão bate e com a outra alimenta e acaricia. O narrador aqui intervém para fazer falar a fera e explicar porque é que o último leão não quis obedecer ao som do látego. Ele quer bons modos para voltar à jaula. Como pedagogia não há melhor. É Daniel na cova dos leões. A tromba do elefante é um número só por si. O inevitável duche do falso espectador que se oferece para fazer a barba é uma maneira de dizer, porque o simpático paquiderme, graças à sua tromba que tem a agilidade dum braço e a eloquência da saliva, sabe fazer-se entender. Mas a evolução das espécies e o jardim zoológico passaram por nós, enquanto que para este olhar sem memória que é do povo infantil o sonho e a realidade se confundem necessariamente.
Percebe-se que o espectáculo é feito para ambas as idades e que o homem vê no rosto da criança a religião primitiva e a origem das ideias ingénuas. O circo tem a nobreza dos pobres que é a de ganhar pelo esforço e pela coragem o direito ao fato de lantejoulas. E este público quer coisas impossíveis, como passear com um guarda-chuva no arame e saltar o arco de fogo. Não se pode mentir a quem pede tanto e ignora tudo do trabalho e das leis da física. É um mundo do desenho animado construído pela paciência e o sentido da pureza. Por isso o espírito mais exigente encontra aí um objecto digno de admiração.
Vejo o palhaço regressar, no fim do espectáculo, à sua roulotte, cabisbaixo e mal-humorado. O apresentador disse que não podia faltar ao circo o número dos palhaços e disse bem. Este mascarado que fala e dá cambalhotas vem além do resto. Os mais pequenos não riem do jogo de disparates e o palhaço não tem a verdadeira homenagem.

A VONTADE DE EME

Mário Martins

X-Rays N.p., 1926. Etching. National Library of Medicine John Sloan (1871-1951)


Quase 60 anos depois de ser dado à luz do mundo, Eme deixava cair a primeira urina da manhã enquanto expulsava o ruidoso ar da noite, raio! isto (menos o ar) parece linguagem de laboratório de análises clínicas, “traz a primeira urina da manhã neste recipiente e vem em jejum” Recomecemos…
Quase 60 anos depois de ser dado à luz do mundo, Eme saudava o dia com a mija e o traque iniciais, enquanto se interrogava por que acordara, não propriamente porque isso fosse novidade, sempre acordara nos outros dias passados (qualquer coisa como 21 mil e 900 dias, que a Eme, ainda surpreendido com a conta, pareciam poucos dias, habituado que estava a ouvir falar de milhões, fossem de euros ou de pobres, e também porque lhe parecia paradoxal que o tipo de ser vivo conhecido mais complexo, de que ele era um anónimo representante, não durasse em média mais de 30 mil dias), mas porque tinha dormido uma daquelas noites de um sono só, a sua cabeça estava leve e, sobretudo, porque, contra o costume, não tinha posto o relógio a despertar. Quer dizer, Eme não decidira acordar mas acordara.
Claro que era inevitável pensar que o seu corpo se tinha habituado a acordar mais ou menos àquela hora, ou que tinha a sua regulação própria, mas o que, de certo modo, incomodava Eme (enquanto executava com precisão - coisa que nem sempre acontecia - aquele gesto maquinal de aliviar a bexiga da pressão expansionista da vizinha próstata), era que ele, quer dizer, o seu eu, a sua consciência inteligente, o seu espírito, o seu livre-arbítrio, a sua vontade ou o que quisermos chamar-lhe, tinha sido, pura e simplesmente, subalternizado, para não dizer ignorado. Se tinha sido o seu corpo, pensava Eme, que o acordara e forçara ao gesto urinário, isso só poderia significar que o seu corpo era uma espécie de região autónoma (com a devida e reconhecida vénia a António Lobo Antunes) com pretensões independentistas. Ou seria mesmo independente de si?
Fosse como fosse, Eme experimentava a sensação nítida, embora algo desconfortável, de ser dois em um, umas vezes mandava ele, outras vezes mandava o outro que, doravante, bem poderia considerar ser o seu corpo. Em rigor, quando lhe perguntassem pela saúde, Eme poderia muito bem responder com outra pergunta: a saúde de quem? a minha ou a dele? a minha está bem, sinto-me muito bem hoje, eu e ele dormimos bem, isto deve querer dizer que a saúde do meu corpo também está boa, mas quem pode garantir isso? há uma fase em que os vírus ou os cancros são silenciosos, não comunicam connosco, com o nosso eu, quem sabe se no momento em que se está a responder que se “está bem, obrigado(a)”, o nosso corpo não contraíu já uma futura gripe ou uma doença sem remédio?
Como que para afastar este mau pensamento, Eme sacudiu as últimas gotas do longo arco líquido branco e amarelo (lembrem-se que não se tinha levantado de noite e que - isto ainda não havia sido dito - era uma daquelas manhãs em que o sexo masculino resolve tecnicamente afirmar-se independentemente do desejo) e abriu a janela (que dava para nascente da realidade). O dia prometia ser lúcido.
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