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04/09/08

A VONTADE DE EME

Mário Martins

X-Rays N.p., 1926. Etching. National Library of Medicine John Sloan (1871-1951)


Quase 60 anos depois de ser dado à luz do mundo, Eme deixava cair a primeira urina da manhã enquanto expulsava o ruidoso ar da noite, raio! isto (menos o ar) parece linguagem de laboratório de análises clínicas, “traz a primeira urina da manhã neste recipiente e vem em jejum” Recomecemos…
Quase 60 anos depois de ser dado à luz do mundo, Eme saudava o dia com a mija e o traque iniciais, enquanto se interrogava por que acordara, não propriamente porque isso fosse novidade, sempre acordara nos outros dias passados (qualquer coisa como 21 mil e 900 dias, que a Eme, ainda surpreendido com a conta, pareciam poucos dias, habituado que estava a ouvir falar de milhões, fossem de euros ou de pobres, e também porque lhe parecia paradoxal que o tipo de ser vivo conhecido mais complexo, de que ele era um anónimo representante, não durasse em média mais de 30 mil dias), mas porque tinha dormido uma daquelas noites de um sono só, a sua cabeça estava leve e, sobretudo, porque, contra o costume, não tinha posto o relógio a despertar. Quer dizer, Eme não decidira acordar mas acordara.
Claro que era inevitável pensar que o seu corpo se tinha habituado a acordar mais ou menos àquela hora, ou que tinha a sua regulação própria, mas o que, de certo modo, incomodava Eme (enquanto executava com precisão - coisa que nem sempre acontecia - aquele gesto maquinal de aliviar a bexiga da pressão expansionista da vizinha próstata), era que ele, quer dizer, o seu eu, a sua consciência inteligente, o seu espírito, o seu livre-arbítrio, a sua vontade ou o que quisermos chamar-lhe, tinha sido, pura e simplesmente, subalternizado, para não dizer ignorado. Se tinha sido o seu corpo, pensava Eme, que o acordara e forçara ao gesto urinário, isso só poderia significar que o seu corpo era uma espécie de região autónoma (com a devida e reconhecida vénia a António Lobo Antunes) com pretensões independentistas. Ou seria mesmo independente de si?
Fosse como fosse, Eme experimentava a sensação nítida, embora algo desconfortável, de ser dois em um, umas vezes mandava ele, outras vezes mandava o outro que, doravante, bem poderia considerar ser o seu corpo. Em rigor, quando lhe perguntassem pela saúde, Eme poderia muito bem responder com outra pergunta: a saúde de quem? a minha ou a dele? a minha está bem, sinto-me muito bem hoje, eu e ele dormimos bem, isto deve querer dizer que a saúde do meu corpo também está boa, mas quem pode garantir isso? há uma fase em que os vírus ou os cancros são silenciosos, não comunicam connosco, com o nosso eu, quem sabe se no momento em que se está a responder que se “está bem, obrigado(a)”, o nosso corpo não contraíu já uma futura gripe ou uma doença sem remédio?
Como que para afastar este mau pensamento, Eme sacudiu as últimas gotas do longo arco líquido branco e amarelo (lembrem-se que não se tinha levantado de noite e que - isto ainda não havia sido dito - era uma daquelas manhãs em que o sexo masculino resolve tecnicamente afirmar-se independentemente do desejo) e abriu a janela (que dava para nascente da realidade). O dia prometia ser lúcido.

01/08/08

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BUDAPESTE: UMA VIAGEM INESQUECÍVEL

Mário Faria

Parque das Estátuas (Budapeste)


Fui de visita a Budapeste. Correu tudo muito bem, até à véspera do meu regresso. Aquilo que tinham sido pequenos detalhes sobre a forma como éramos tratados, acabou por desaguar numa mini comédia dramática, naquele dia em que resolvemos visitar o Parque das Estátuas.

Tomámos um táxi junto do hotel. O taxista era simpático e falámos um pouco. O trivial. Comentei que achava caro o nível de vida em Budapeste. Não concordou comigo. Depois deste cordial desacordo, decidimo-nos pelo silêncio.Terminada a viagem – uma pequena corrida duns 3 kms – o taxímetro marcava 4.500 Florints, qualquer coisa como € 19,00, a verba que tinha pago de minha casa ao Aeroporto, para percorrer uns 14 kms. Perguntei-lhe : tão caro ? e o tipo apontou-me para a tarifa e para o taxímetro. Está tudo em ordem, repetiu. Lá paguei, que remédio.

Como já não tinha muita moeda local, resolvi levantar 10.000 Florints. Da máquina saiu apenas uma nota daquela importância. Recolhi o dinheiro e o recibo e quando me preparava para alojar a nota na carteira, uma mão super-rápida tirou-me a nota da mão e perante a minha estupefacção e paralisação momentânea, o homem desapareceu no meio de uma multidão que se juntava numa feira de artesanato, próxima da qual me encontrava. Pior que estragado, lá levantei outra vez 10.000 Florints para pagar a visita a que me propunha.

Esta segunda operação ocorreu normalmente. Como das outras vezes, a máquina pagou-me a quantia pedida com uma única nota. Foi sempre assim, sem excepção. Procurámos o local da saída – o parque das Estátuas fica fora de Buda, aí uns 10 ou 12 quilómetros - encontrámos o autocarro, entrámos, sentamo-nos e passado alguns momentos a menina veio cobrar os bilhetes – 3975 Florints pela entrada e a deslocação. Paguei, deu-me o troco, mas mal virou as costas conclui que se tinha enganado e me tinha dado menos 1.500 Florints. Chamei-a, mostrei o dinheiro que me tinha entregue e anuiu em dar o que faltava. Deu-me una nota de mil e outra de quinhentos, esta rasgada, mas com a fita cola ficava bem disfarçada.

A viagem correu sem incidentes. Lá chegámos ao parque das Estátuas. Um local seco, poeirento e feio, próximo de uma pequena localidade, sem nada que a recomendasse. Muito calor, pouca sombra. Na entrada a escultura da bota que tinha “sobrado” da estátua de Stalini, destruída em plena crise de 1956. À direita um armazém que mais parecia tirado dos campos de concentração e depois o parque onde estavam espalhadas todas as esculturas que tivessem a ver com figuras ou ícones do antigo regime. Tudo espalhado sem critério aparente. Algumas esculturas bem mais interessantes que outras, mas todas identificadoras de um determinado momento histórico. Tudo num ambiente árido, inóspito e pouco cómodo para os visitantes. O ambiente pouco apelativo não ajudava a uma prospecção mais atenta. A literatura sobre as estátuas e esculturas era escassa e pouco legível. Acabada esta visita, fomos averiguar o que se passava no “barracão”. Eram filmes dos trabalhos dos serviços de informação húngara. A Pide lá do sítio. Nenhuma novidade na abordagem e recrutamento de bufas e na espionagem de suspeitos. Os filmes denotavam uma grande ingenuidade e os polícias maus pareciam tomados por uma bonomia muito suspeita. De bom, é que era o único local fresco e pude descansar e até adormecer um pouco. Tratava-se de uma sessão contínua e do que perdi não sinto saudade.

Saído daquele campo de concentração cultural onde os húngaros esconderam os vestígios históricos do passado recente, regressei a Budapeste. Resolvemos tomar o metro para chegar ao hotel, sabendo que tínhamos um “transfer” pelo meio. Comprámos os bilhetes mas a rapariga que cobrava não me aceitou a nota com a fita cola, apesar dos meus protestos e de lhe ter dito que a tinha recebido de troco no Parque das Estátuas. Não me deu os bilhetes enquanto não lhe dei outra nota. Rapariga simpática.

Na entrada da estação vi muita gente de braçadeira, com a palavra inscrita : “control”. Entrei, revisei o bilhete, saí na estação certinha e encaminhei-me para o cais para seguir para o local de destino, quando fui apanhado por uma rapariga doutro “control” que não me deixou entrar, perante a minha estupefacção. Juntou-se a esta mais duas raparigas daquele “control” e uma lá me disse que tinha acabado de praticar uma grave falta e que tinha de ser penalizado por isso. De nada valeram os meus protestos e justificações. Tinha de pagar de multa 18.000 Florints (ou 90€) de imediato ou seria levado à polícia e apenas libertado se pagasse o dobro. A mulher era muito dura e contrastava com a bonomia dos antigos inspectores, que tinha acabado de ver no barracão do Parque das Estátuas. Tentei explicar. Não se comoveu, endureceu o tom, demasiado ameaçador para a falta cometida, e já se preparava para me entregar às autoridades quando a mais boazinha interveio a pôr água na fervura. Acalmamos todos e lá paguei os € 90€. O câmbio que aplicaram, permitiu-lhes um extra de cerca de 20€. Podia ter sido pior. Permitiram-nos tomar o metro e seguir para o hotel.

À noite, para despedida, demos um passeio pelo Danúbio, com direito a jantar e a canções líricas. O jantar : um bufet de plástico intragável. As canções apresentadas tinham bolor e as cantoras, autênticos dinossauros, apresentaram-se com velhos vestidos a cheirar a mofo. Entre uns gritos de bis e de bravos, programados, chegamos a bom porto. Não foi mau. A voltinha correu sem incidentes, sem furos, sem suicídios, sem rapariguinhas ou velhinhas de um qualquer “control” aquático e sem direito a multa.

De regresso a Portugal, e como prémio de despedida, estivemos duas horas no check in, porque a moça não conseguia validar (marcar) a viagem de Lisboa para o Porto. Enfim, uma viagem com um fim inesquecível.


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A DIREITA É MAIS TÍMIDA

Manuel Joaquim

http://mononoke.unblog.fr/files/


O Jornal de Negócios, do passado dia 16 de Julho, publicou uma entrevista com o Presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, Francisco Van Zeller, apresentado como o patrão da industria, sobre o novo Código do Trabalho, com chamada de primeira página e com duas páginas centrais, que é muito importante para caracterizar o momento que atravessamos e alguns dos interventores.

Quando o patrão dos patrões diz que “felizmente temos um José Sócrates” e que “Vieira da Silva fez melhor do que um governo de direita” e que “o Código do Trabalho devia ir mais longe nos despedimentos” é suficientemente claro que quem perdeu com esta iniciativa do governo do Partido Socialista foram os trabalhadores em geral.

Refere que “não tem duvida nenhuma de que o novo CT melhora as condições de produtividade através da caducidade dos contratos, do artigo 4º (que permite negociar os artigos do código para melhor e para pior) e a organização do tempo de trabalho “ ou seja, algumas das grandes conquistas do patronato.

Em reforço do afirmado, sobre a adaptabilidade grupal e os horários concentrados poderem ser negociados individualmente, declara que “foi uma vitória nossa sem dúvida nenhuma” (do patronato). E sobre o tal “banco de horas”, inserido no chamado mecanismo da flexibilidade, diz que “no fundo é para acabar com o conceito de horas extraordinárias. Trabalhar mais duas horas além dos horários passa a ser regular”.

Mais adiante diz que “os governos de direita são mais tímidos no que respeita a relações de trabalho” e que, no que respeita a negociações colectivas, “na maior parte dos casos podemos recorrer à UGT e, se conseguirmos contratos vantajosos, contar com a adesão individual”.

Tudo o que atrás é referido pode ser confirmado na edição do referido jornal.

Serão necessários mais factos para deixarmos de ter dúvidas de que toda a campanha de esclarecimento, de denúncia e de luta desenvolvida pela CGTP estava e está certa, naturalmente, na perspectiva dos trabalhadores?

Quando o patrão dos patrões diz que podem recorrer à UGT e aos sindicatos da UGT que papel desempenha esta organização? Não será esta afirmação uma confirmação de que a UGT é uma correia de transmissão do Partido Socialista e dos restantes partidos da direita e que está especialmente ao serviço do patronato e do grande capital? O que mais é preciso dizer para o demonstrar?

Alguns sindicatos representativos, que efectivamente defendem os trabalhadores, continuam filiados na UGT, como é o caso do SINAPSA, cuja adesão, na época, foi legalmente muito polémica.

A prática sindical da UGT, desde a sua fundação, foi sempre a de provocar a divisão das organizações sindicais, fragilizar as suas legítimas lutas, estar ao serviço do patronato, como agora é claramente confirmado pelo presidente da CIP.

Não será a altura de os sindicatos sérios, como é o caso do SINAPSA, deixarem de financiar esta organização inimiga dos trabalhadores, dirigida por traidores, que contribui fortemente para a exploração dos trabalhadores portugueses pelo grande capital?


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NÃO SABER O QUE SE DIZ

António Mesquita

Paul Valéry (1871/1945)



"O senhor conhece um homem quando sabe que ele não sabe o que diz."

"O Senhor Teste" (Paul Valéry)


O importante não é este saber de quem escuta o outro "desarrazoar" (mas pode-se, certamente, ser racional não sabendo o que se diz).

É antes, como diriam alguns linguistas, vê-lo a falar contra o código da língua ou da especialidade de que fala.

Porque um homem que sabe o que diz (e até que ponto pode sabê-lo?) é como um terminal da razão universal ou dum saber codificado. O que há de pessoal nisso está no corpo e na modulação do que diz. Mas o outro revela na sua impertinência, ou na sua confusão, um corpo "doutrinário" (Michaux dizia que, neste século, o falo se tornou doutrinário).

Claro que há uma enorme pretensão naquela frase, porque um homem que cai fora do senso, é capturado, na nossa época, pelo discurso da anormalidade psíquica.

Embora muitas vezes falemos do que não sabemos (é muito vulgar na conversação e no convívio), sabemos, quase sempre, o que dizemos.

O senhor Teste não está a pensar no psiquiatra, o qual de facto não conhece o seu homem, mas em alguém que apanhou o outro em falta. É esse, então, um "saber" moral?

Pode ser indecente, mas é muito revelador não se saber o que se diz. Ainda assim, não se deveria falar em conhecimento.

O senhor Teste diz ainda que não sabe o que é a consciência dos tolos ( e que a dos homens de espírito está cheia de tolices), sugerindo que apesar de não saber o que é, os conhece (aos tolos), visto que também eles não sabem o que dizem.

O que me leva a concluir que esse conhecimento talvez seja do tipo do conhecimento bíblico...


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