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01/08/08

SOBRETUDO..., OS POETAS

Alcino Silva

Miguel Torga (1907/1995)


Não é de hoje que nutro admiração pelos Homens que dedicam o seu tempo, ao estudo, à reflexão, ao conhecimento da vida humana, das práticas, das atitudes dos quadros mentais das sociedades que condicionaram e promoveram a evolução da humanidade. Entre os filósofos e os historiadores a minha preferência vai para os últimos, pois as suas apreciações são mais factuais, mais objectivas, talvez mais despidas de complexidade e porque conseguem, olhando para o passado, antecipar o futuro. Contudo, entre esses seres humanos que olham para a vida, sem dúvida que os poetas se destacam pela lucidez com que transportam o acto humano para o jogo das palavras e da forma acutilante com que descrevem as epopeias humanas. Entre os poetas de língua portuguesa, Miguel Torga foi um vulto grande da palavra em verso. Nascido na rudeza do território nordestino, entre fragas agrestes que suportam o rigor do Inverno e o sol escaldante do Verão, entre o isolamento e a grandeza de uma paisagem que derrete os olhos humanos perante o espanto de tanta beleza, o poeta médico habituou-se a perscrutar a vida humana das alturas desses penhascos que chegam a provocar arrepios na altivez com que desafiam as nuvens. Entre a inúmera e magnífica obra que nos deixou, Miguel Torga legou-nos um Depoimento sobre a vida, generosa, nobre e heróica dos Homens no seu combate pela dignidade.

“De seguro, posso apenas dizer que havia um muro”. E que muralha, poderão dizer todos esses homens e mulheres que caminhando pela vida tiveram de assaltar o futuro onde poderes, tantas vezes ocultos, tantas vezes sangrentos, lhes foram semeando o quotidiano de escolhos, de armadilhas, de indignidade, atraindo-os para uma vivência de servos, sem direitos, sem os mais básicos elementos de sobrevivência.

“Não, nunca o contornei, nem o tentei ultrapassar de qualquer maneira”. E também aqui nos incentiva a caminhar erectos, pese embora a magnitude do muro a vencer. Também aqui, nos indica o caminho onde os seres humanos hão-de encontrar a verdadeira resposta e não a mais fácil, a mais acessível. Os muros, esses muros que encontramos no caminho da humanidade, destroem-se, arrasam-se pedra a pedra, não se contornam nem se ultrapassam. A dignidade e a nobreza dos actos humanos hão-de surgir nesses instantes em que o muro parece intransponível. Estes muros, derrubam-se com sonhos, com ideais, com valores, com a grandeza dos gestos singulares e com a nobreza dos sentimentos colectivos.

“A honra era lutar, sem esperança de vencer”. Insiste ainda, Torga nesse exaltar dessa decência que o Homem devia incorporar em cada instante em que percorre os rios da vida. Que nobreza, lutar sem esperança de vencer, apenas em nome de algo que está para além de nós, que se visiona num futuro que não alcançaremos, que apenas podemos construir com a legitimidade e a razão dos nossos sonhos, com a vontade de ideais concebidos por todo o passado humano e que se projectam para diante.

“E lutei ferozmente, noite e dia”. Sem desânimo, diz-nos, apesar do fim que já se adivinha. Com persistência perante aquele muro colossal que os senhores do mundo erguem perante a humanidade, mas que não se iludam que não há desistências, que não há derrotados, a cada um que cai outro se ergue, ferozmente, noite e dia como nos indica o poeta.

“Apesar de saber que quanto mais lutava, mais perdia e mais funda sentia a dor de me perder”. É o heroísmo final, essa grandiosidade que só os Homens convictos da razão conseguem alcançar, sem desfalecimento, sem temor, sem a cobrança de valor algum, lutar apenas para projectar ao chão esse muro tremendo que todos os dias nos vigia, nos cerca nos condiciona nos pretende cercear a liberdade. Neste seu Depoimento, Miguel Torga, constrói o hino a tudo o que belo. Sentimos neste cântico das palavras poéticas, esse murmurar da história, esses antepassados pré-históricos na sombra das cavernas, as invenções que se abriam à mente humana no desbravar da vida, essas cavalgadas pela terra e pelo mar, esse olhar para o universo na contagem das estrelas e nesse projectar dos sonhos num voo infinito. Encontramos neste poema tudo o que de maior valor podemos descobrir na alma humana. Torga viu-o do alto das rochas que dominam a paisagem do seu espaço natalício e deixou-o gravado na mente dos Homens seus companheiros da vida para que não se iludam e não se esqueçam que a caminhada da humanidade, mesmo perante as adversidades, não deve esquecer os momentos de grandeza e de honra, esse valor sem o qual, o muro será ainda maior e todo o gesto humano, não será mais do que um mero marco de sujidade a manchar a beleza da paisagem. Torga sabia-o e deixou-o o escrito para lembrança dos Homens.


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A TENTAÇÃO NUCLEAR (*)

Mário Martins

Sala de controle de energia nuclear


A actual crise do petróleo está a provocar graves problemas económicos e sociais e a desorientar o mundo político, mas a impressionante subida do seu preço torna economicamente lógica a aposta no desenvolvimento das energias alternativas, renováveis e limpas e, por essa via, constitui uma possibilidade real de gradual diminuição da poluição humana do planeta.

No entanto, não se pode escamotear que, a par disso, a tentação nuclear ganha um novo fôlego. Procurarei, a seguir, alinhar alguns prós e contras, bem como incógnitas da exploração da energia nuclear, como se o debate nacional que alguns analistas consideram necessário e inevitável já tivesse começado…

Prós:

  • Diminui a dependência energética.
  • Emite menos CO2 do que as centrais a combustíveis fósseis 1.
  • Abre vias para a produção de hidrogénio.
  • Incentiva a construção de centrais hidráulicas de bombagem, utilizando a electricidade excedentária.
  • Desenvolve competências e dá-nos experiência para a evolução nuclear esperada (novos reactores e fusão 2).
  • Aproveita as nossas reservas de urânio.
  • Incrementa o sector produtivo e cria emprego.
  • Já sofremos os impactos ambientais e os riscos das centrais nucleares espanholas.
  • Estatísticas do período de 1970 a 1992 referem que o número de mortes imediatas provocadas por acidentes no uso do gás natural como fonte de energia atingiu as 1.200, na energia hidroeléctrica 4.000, no carvão 6.400 e no nuclear 31 (exceptuando a catástrofe de Chernobil, cujo número de vítimas directas e indirectas não se conhece ao certo).
  • As centrais a combustíveis fósseis e as refinarias de petróleo também têm efeitos nefastos na saúde pública e na qualidade de vida das populações.

Contras:

  • Representa apenas 20 a 25% da oferta de energia em Portugal (produção de electricidade).
  • Produz resíduos perigosos (que libertam calor e radiação durante milhares de anos), para os quais não existe ainda uma solução satisfatória.
  • Apesar da segurança das centrais e dos novos reactores ter melhorado depois da catástrofe de Chernobil, as incógnitas ainda são grandes. Não se sabe, por exemplo, se o hidrogénio explodirá em caso de acidente grave num EPR (European Pressurized Reactor). Mas sabe-se que o mesmo não está preparado para resistir ao embate de um avião.
  • Pode afectar a aposta no desenvolvimento de energias menos perigosas e mais limpas e abundantes.
  • Pode esmorecer ou subalternizar a concretização dos inadiáveis planos de eficiência energética ou de utilização racional da energia.
  • O risco sísmico é mal conhecido em Portugal.
  • Implica uma reestruturação da rede eléctrica de transporte e uma interligação com Espanha.
  • O actual governo espanhol anunciou, oportunamente, que o país vai abandonar progressivamente a energia nuclear a favor das renováveis.
  • O enriquecimento do nosso urânio só seria possível fora do país.
  • A localização perto de zonas habitadas será sempre impopular.
  • Não será possível construir uma central a tempo de contribuir para as metas do Protocolo de Quioto relativas à emissão de CO2 (2012).
  • Está em curso o desenvolvimento de tecnologias de captura e armazenamento do CO2 nas centrais térmicas a combustíveis fósseis.

Incógnitas:

· Os custos de investimento incluem ou não os custos de desmantelamento no fim da vida; os custos de reestruturação da rede eléctrica; os custos de gestão e tratamento dos resíduos radioactivos; os custos dos sistemas de segurança; os custos de investigação e desenvolvimento; os custos do risco sísmico?

· Quem paga estas “externalidades”: a indústria, os consumidores ou o Estado?

· O preço da electricidade para o consumidor dependerá da inclusão ou não destas “externalidades”. Em todo o caso, em Portugal será sempre mais elevado do que nos países onde já decorreram vários anos de amortização dos investimentos.

Como se vê, não há só contras e incógnitas na opção nuclear. Há também prós. Parece-me, no entanto, que a primeira coisa que Portugal tem que fazer é apostar nessa “nova energia” que se chama eficiência energética, a qual, segundo os especialistas, pode levar à redução de cerca de 20% da energia utilizada no país.

* Baseado no livro “NUCLEAR-O debate sobre o novo modelo energético em Portugal”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Virgílio Azevedo, Ed. Centro Atlântico – Nov2006.

1 “No seu funcionamento, as centrais nucleares não emitem praticamente CO2. Todavia, os processos de extracção e enriquecimento do urânio que lhes serve de combustível têm emissões de CO2 tanto maiores quanto menor for o teor do minério. Considerando os minérios de urânio actualmente explorados, as emissões associadas ao funcionamento da central nuclear podem representar cerca de 40% dos de uma central térmica de ciclo combinado. Este valor deve entender-se como indicativo, pois depende de um conjunto complexo de factores, como sejam a cadeia de tecnologias utilizadas e o teor do minério”. (Prof. Delgado Domingos, in NUCLEAR, de JNR e VA).

2 “O primeiro grande reactor experimental, o ITER (Internacional Thermonuclear Experimental Reactor), está a ser construído no Centro de Investigação de Energia Nuclear em Cadarache, no sul de França. É o maior projecto científico do mundo depois da Estação Espacial Internacional e custa dez mil milhões de euros, financiados por um consórcio onde participam a União Europeia (que suporta metade do investimento), os EUA, a Rússia, o Japão, a Coreia do Sul e a China. Prevê-se que a primeira central de fusão nuclear para exploração comercial comece a operar em 2045, depois de uma fase experimental de cinco anos de funcionamento de um reactor de primeira geração. Portugal está também envolvido no ITER, através do Centro de Fusão Nuclear do Instituto Superior Técnico, que tem realizado trabalhos de investigação e desenvolvimento e assumido funções de coordenação em áreas específicas do projecto” (NUCLEAR, de JNR e VA).

01/07/08

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APONTAR A MÁSCARA

António Mesquita

Charles Baudelaire por Courbet



"Prefiro contemplar alguns cenários de teatro onde encontro, artisticamente tratados numa trágica concisão, os sonhos que me são mais caros. Estas coisas, por serem falsas, estão infinitamente mais próximas do verdadeiro, enquanto a maior parte dos nossos paisagistas são mentirosos, precisamente porque descuram a mentira."

Charles Baudelaire (citado por Walter Benjamin in "A Modernidade")



Como deveríamos chamar a este efeito da mentira ou do artifício que se nos apresenta como tal, desistindo de se introduzir de contrabando como verdade, verdade a que não pode aspirar por prescindir à partida de quem o leia e o interprete?

Isto tem, sem dúvida, algo do "larvatus prodeo" de Descartes. Eu avanço mascarado e apontando para a máscara, como se dissesse: este não sou eu. Nenhuma aparência pode pretender representar a realidade, e é por isso que a máscara diz a verdade, mentindo.

Ou então é o efeito de distanciamento concebido pelo teatro de Brecht. A empatia com o público deve ser a todo o momento interrompida, com o dedo que aponta a máscara: cartazes com legendas, infracções ao ritmo dramático ou inversão da relação do público e da cena. É a ética da vigilância crítica e do didactismo revolucionário que estende ao público burguês a sua teia de má consciência e, no fundo, fazendo-o pagar duas vezes pelo espectáculo.

A verdade na arte nunca se pode, pois, atingir directamente e, de resto, a ética não tem aqui sentido.

A verdade a que a arte pode aspirar é a da percepção individual dos limites, essa fronteira entre o que sentimos como um acréscimo de mundo e de inteligência para o compreendermos e a experiência do continuum, do que já, por assim dizer, passou à história.


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OS CAVALEIROS DO ASFALTO

Mário Faria
A greve dos camionistas


A paralisação dos camionistas, sob o alto patrocínio de uma auto-proclamada comissão organizadora, incomodou-me e fez-me recordar o Chile, a CIA e Pinochet. Incomodou-me o silêncio dos Sindicatos (salvo do Carvalho da Silva que tomou uma posição correcta, como sindicalista esclarecido que é) e o apoio (ainda que silencioso nalguns casos) de todo o espectro partidário, à luta dos valorosos cavaleiros do asfalto.

Dizia um entrevistado, muito revoltado : “… como vamos trabalhar ? Com café, leite e pão, ainda andamos, mas sem carro, não vamos a lado nenhum…”, enquanto uma senhora com o carrinho cheio de compras, exaltada comentava: “…eles estão a lutar por nós…a maioria está adormecida, mas estes estão a revoltar-se e fazem bem…“ .

Incomoda-me este tipo de argumentos e incomoda-me que a comunicação social desvalorize sistematicamente o trabalho dos partidos e dos políticos e valorize este tipo de “reality show” em directo, com os cromos mais à mão.

Com o apoio mais que suspeito de quase toda a opinião publicada, incomoda-me que dois ou três arrivistas tenham conseguido organizar uma paralisação, imposto a sua vontade de forma arrogante e tenham parado o país, o que conseguiram parcialmente. Ou será que estou enganado e devo conformar-me, uma vez que esta classe política, que nos governa e que apenas admite os incapazes e os capazes de tudo, estava mesmo a pedi-las ?

Mas, afinal, para além do sucesso mediático, que mais conseguiram os camionistas ? Nada de particularmente relevante, pelo que li. Os meios, terão sido, afinal, os fins que os promotores tinham em vista. Uma manifestação de força, a ameaça de poder parar o país e, pelo caminho, pesar a capacidade de resposta do Governo e aproveitar a vaga de fundo para humilhar o executivo e fragilizar o PM, que vai perdendo o brilho e a vantagem para a concorrência.

Coincidência ou não, a esta paralisação que foi o auge da crise petrolífera, antes da silly season, sucedeu o Congresso do PSD/PPD. Manuela Ferreira Leite, com meia dúzia de chavões, viu a sua figura fortemente revigorada, em função do da boa imprensa que tem e da forte propaganda que a SIC lhe concedeu. O PSD corre mais forte para suceder ao PS.

Não é, todavia, o menor brilho do PM e a notoriedade de Manuela Ferreira Leite que me tiram o sono. Incomoda-me esta incapacidade do Governo de saber usar a autoridade que lhe é conferida democraticamente. Incomoda-me esta incapacidade de saber separar as águas, por parte da oposição de esquerda.

Habituei-me a ouvir o apelo à unidade na acção entre trabalhadores, intelectuais e pequenos e médios empresários, contra o capitalismo monopolista e a exploração, mas incomoda-me que não houvesse uma descolagem clara da esquerda em relação a este movimento, porque concordo, inteiramente, com José Miguel Júdice quando escreve: “… a acção dos camionistas é protofascista …. os movimentos de pequenos patrões em cólera, liderando os seus trabalhadores numa espécie de corporativismo de base, habitados por violência e sem enquadramento ideológico e estratégico, nunca se traduzem num avanço do “proletariado”, mas numa futura instrumentalização – quiçá paradoxal – por uma liderança autoritária e populista, que acaba por fazer recuar o processo de emancipação social…”


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