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01/07/08

A PROPÓSITO DA NOVA CRISE PETROLÍFERA

Mário Martins

http://www.edinphoto.org.uk/

A dependência
Portugal importa, pelos indicadores de 2005, cerca de 85% de toda a energia primária que consome, representando o petróleo quase 60%.
As soluções não são óbvias. Para além do desenvolvimento necessário da energia da água, do sol e do vento, e dessa “nova energia” chamada eficiência energética, resta a aposta na energia nuclear (que abordarei no próximo número). No entanto, todas estas fontes de energia, a água, o sol, o vento e a nuclear, destinam-se, basicamente, a produzir electricidade, não se aplicando, na época actual, à generalidade dos transportes e a diversas actividades industriais (plásticos, p. ex.). Pode-se, também, investir mais no gás natural para produção de electricidade, mas isso apenas diversifica e não diminui a dependência.
A eficiência
Embora, pelos indicadores de 2004, Portugal consuma menos energia por habitante (0,106) do que a União Europeia (0,165) e do que, por exemplo, a Espanha (0,159) ou a Grécia (0,136), a verdade é que tem um problema de “intensidade energética”, factor que estabelece a relação entre a energia dispendida e a produção nacional (PIB): nos últimos 20 anos o aumento médio do consumo de energia foi superior a 4% ao ano, ou seja, aumentou sistematicamente a um ritmo superior ao crescimento da economia. Em 2005, apesar do crescimento do PIB ter ficado abaixo de 1%, o consumo de electricidade cresceu quase 6%.
Para além, naturalmente, de maior crescimento económico, a primeira coisa que Portugal tem que fazer é apostar na eficiência energética, a qual, segundo os especialistas, pode levar à redução de cerca de 20% da energia utilizada no país.
Em primeiro plano têm que estar medidas de poupança de energia não só ao nível da construção, restauro e utilização de edifícios, como ao nível dos transportes. Em Portugal tem imperado a lógica do transporte rodoviário e individual. É preciso agora investir no transporte público, privilegiando o movido a electricidade, e distinguir o que é efectuado ao serviço da economia, do transporte particular. E é preciso, também, investir na investigação e inovação.
O ambiente
Portugal não conta para a solução ambiental do planeta. Pelo último indicador conhecido (2006), emite uns insignificantes 0,2% do dióxido de carbono mundial. Em 2004, só os EUA e a China emitiram, juntos, cerca de 40%. Somando a Rússia, Japão e Índia, emitiram cerca de 55%. A União Europeia (2006) emite cerca de 16%. Em 2004, o país da UE com maior emissão foi a Alemanha (3,2%). Mesmo a França, que é o 2º. maior produtor de energia nuclear, a seguir aos EUA, emitiu 1,5%. Em conjunto, 23 países emitiram 82% e os restantes 192 países emitiram 18%. Em termos de emissão de CO2 por habitante, Portugal tinha, em 2004, um rácio (6,0) claramente inferior ao da Grécia (10,0), de Espanha (9,0) e, em 2003, da União Europeia (9,0). O país da UE com pior índice, em 2004, é a Holanda (16,4).
Isto não quer dizer que Portugal não deva procurar cumprir os seus compromissos e os objectivos de melhoria ambiental, quanto mais não seja porque isso implicará menor dependência, maior eficiência e melhor educação.
FONTES: - Estatísticas oficiais do governo americano.
- “NUCLEAR-O debate sobre o novo modelo energético em Portugal”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Virgílio Azevedo, Ed. Centro Atlântico – Nov2006.

TEMPOS DIFÍCEIS

Manuel Joaquim

José de Almada Negreiros


As primeiras cinco décadas do século passado foram muito difíceis para a maioria da população portuguesa por falta de trabalho, de alimentação, de habitação, de saúde e de tudo o resto.

No período da 2ª guerra mundial, alguns produtos alimentares, como as farinhas, o azeite e o açúcar, eram racionados, através da atribuição de cadernetas e de senhas de racionamento. Os combustíveis também eram racionados. As pessoas com mais dificuldades vendiam os produtos comprados com as senhas de racionamento para comprar, com o dinheiro conseguido, outros produtos alimentares mais necessários para as suas famílias. Alimentavam e alimentavam-se do mercado negro. Em muitas casas foi o tempo em que uma sardinha era para três pessoas. A carne estava praticamente ausente das refeições. Comia-se o caldo de unto, com couves do quintal, produtos duma produção doméstica. Uma parte significativa da população andava descalça, especialmente as crianças e as mulheres. Os socos, as chancas e as alpercatas passaram a ser usadas com a proibição de andar descalço na via pública, sendo a infracção sujeita a aplicação de multa pela polícia.

Com a instauração da república o ensino em Portugal evoluiu significativamente. Mas com a instauração do fascismo o ensino obrigatório não era tão obrigatório quanto isso. Nos primeiros tempos a grande maioria da população trabalhadora era analfabeta e quando os seus filhos frequentavam a escola não passavam do 1º grau da instrução primária que correspondia à 1ª e 2ª classes, primeira fase do ensino obrigatório, ensinada em grande parte do território por regentes escolares. Os portugueses só precisavam de saber ler, escrever e contar….

Com oito e nove anos e às vezes com menos idade, muitas crianças entravam no mercado de trabalho, abandonando a escola e às vezes a própria família, pois tinham de produzir para o seu próprio sustento. Enveredavam pelas profissões dos pais e de outros familiares por ser mais fácil. Quando havia um pouco mais de desafogo financeiro da família e alguns conhecimentos, procuravam uma profissão de maior qualificação mas não raras vezes tinham de pagar para aprender.

Os rapazes quando pretendiam uma féria para entregar à mãe para governar a casa, o mais certo era irem para moços de trolha. Começavam por carregar tijolos e a gamela da massa à cabeça. Os que eram oriundos das zonas da Maia, dos Carvalhos, Avintes, Perosinho e Sandim vinham muitas vezes a pé trabalhar para a cidade do Porto e regressavam a casa ao fim do dia pela mesma forma, com bom ou mau tempo.

Nos anos 50, muitas semanas só tinham três dias de trabalho em consequência da crise que se vivia e os operários só recebiam os dias que trabalhavam pois não beneficiavam de subsídio de desemprego, apesar de já estar institucionalizado e existir a respectiva tributação a que estavam sujeitos os trabalhadores e os patrões.

É evidente que com os filhos das classes abastadas nada disto se passava. Os grandes colégios internos e externos floresciam. O ensino primário era ministrado particularmente no próprio domicilio dos alunos. Tocar piano e falar francês ou alemão era sinal de classe social.

A existência, hoje, de concorridas escolas estrangeiras, evidencia condições de aprendizagem e de educação muito diferentes para as nossas crianças e jovens.

Uma parte significativa da actual população activa portuguesa conheceu directa e indirectamente estas condições de vida. São estas camadas sociais que estão agora a sofrer as consequências da crise que presentemente estamos a viver, que não é só económica e financeira.

Em que condições são instruídos e educados os seus filhos? Qual será o seu futuro?


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01/06/08

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A ESCOLA

Manuel Joaquim

http://www.montradigital.com/data/media

Lembro-me perfeitamente dos tempos da escola nº 61, na Rua de Faria de Guimarães, que tinha, na altura, o professor Bastos, que era o director, o professor Quaresma que tinha umas grandes barbas que lhe davam até à barriga, usava uma bengala e plainitos nos sapatos, que era o professor da 1ª e da 2ª classes e o professor Pompeu que dava aulas às restantes classes. No local dessa escola foi construído um prédio em cujo rés-do-chão está instalado um café. Os donos desse café descobriram que naquele lugar existiu a escola através de clientes e amigos que o frequentam. Hoje é possível ver nesse café, no lugar de uma mesa, uma escrivaninha de madeira, fotografias de crianças e, na parede, uma planta encaixilhada do edifício da antiga escola.

Na escola nº 61 existia uma cantina escolar onde ao meio-dia muitas crianças comiam uma sopa e um pão e uma colher de óleo de fígado de bacalhau porque sem esta não tinham a sopa. Algumas comiam mais do que uma sopa. Muitas vezes era a primeira refeição do dia. Lembro-me do professor Quaresma autorizar alguns alunos antes da aula terminar irem comer logo que a sopa estivesse pronta para servir.

Em casa não tinham comida. Em casa tinham irmãos mais velhos e mais novos, alguns doentes. Em casa tinham o pai desempregado, bêbado e tuberculoso. Em casa tinham a mãe a defender-se do pai e a procurar comida para a família. Casa de ilha, de duas ou três divisões, sala, cozinha e um quarto, como tantas outras que existiam e ainda existem na cidade que serviam de alojamento para quatro, cinco, seis e sete pessoas e às vezes mais.

As chancas de madeira e as botas de pneu eram o calçado que muitos usavam. Mas alguns, os mais necessitados usavam sapatilhas de pano, muitas vezes com grandes buracos nas solas.

Outras crianças distinguiam-se pelo bem vestir, pelo aspecto saudável, pela linguagem, pelo comportamento e pelo aproveitamento. Os pais acompanhavam-nos à escola, dialogavam com os professores e naturalmente apoiavam-nos nos trabalhos escolares.

Hoje, é possível observar o percurso de muitos daqueles jovens e verificar que os primeiros tempos da sua vida foram realmente indeléveis.

A maior parte dos que eram pobres, logo que saíram da escola primária, com 9, 10, 11 e 12 anos, profissionalmente, enveredaram por serem operários, caixeiros. Mais tarde, alguns emigraram. A grande maioria passou pela guerra colonial com todas as suas consequências. Continuam a ser pobres, alguns vivem miseravelmente e doentes, alguns já faleceram.

A maior parte dos que não eram pobres continuaram a estudar, muitos fizeram licenciaturas, encontraram empregos qualificados. Alguns ocupam lugares importantes.

Em que condições cresceram os filhos de todos aqueles jovens?


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A HIPÓTESE DEUS (4)

Mário Martins

Carl Sagan (1934/1996)



“(A) religiosidade (do sábio) consiste em admirar-se, em extasiar-se perante a harmonia das leis da natureza revelando uma inteligência de tal modo superior que, perante ela, todos os pensamentos humanos e todo o seu engenho apenas revelam o seu nada irrisório.” 1

Albert Einstein




- Por que razão os efeitos e as causas não poderiam constituir uma série sem fim a retroceder no tempo e a prolongar-se no futuro? - pergunta o filósofo;

- Bem, não está fora de cena a hipótese de uma natureza eterna… - responde o físico teórico.

Se fosse eterna, isso significaria que a natureza ou a realidade física teria as propriedades próprias do conceito de Deus, e que, portanto, seria possuidora da inteligência superior revelada nas suas leis, que tanto maravilhou Einstein. Ocorreu-me, em tempos, que Deus poderia ser o processo, ou seja, o modo como as coisas, todas as coisas, animadas ou não, existem. É o que, à sua maneira, diz Carl Sagan: “O termo (Deus) significa muitas coisas diferentes em muitas religiões diferentes. Para alguns, é um homem encorpado e de pele clara com longas barbas brancas, sentado num trono algures no céu, gizando atarefadamente a queda de cada pardal. Para outros - Baruch, por exemplo, Spinoza ou Albert Einstein - Deus é essencialmente a soma total das leis da física que descrevem o universo. Não posso conceber alguém a negar a existência das leis da natureza, mas não sei de nenhuma prova consistente da existência do velhote no céu.” 2

EM CONCLUSÃO:

1. No seu excelente livro “O Dedo de Galileu” 3, o Professor Peter Atkins faz, numa nota de rodapé, uma afirmação incomum no meio científico: “Se o universo de facto emergiu de absolutamente nada, é de presumir que chegue uma fase em que tenhamos de examinar como pode algo vir de absolutamente nada, ex nihilo. Um dia, os cientistas terão de estudar absolutamente nada”. Na mesma linha, Richard Dawkins considera que a hipótese da existência ou não existência de Deus é uma questão científica, mas eu considerá-la-ia, antes, uma questão filosófica, racional, como tal inteiramente aberta aos dados científicos.

2. À semelhança do que se passa com a interpretação actual dos fenómenos do mundo sub-atómico, em que vigora o princípio da incerteza, esta questão, por o seu objecto não ser tangível, só pode ter, racionalmente, uma abordagem em termos de probabilidade.

3. Os elementos que aduzi anteriormente sobre o conhecimento actual do universo/multiverso, permitem concluir que ou é finito (começou e acabará) ou é eterno (sempre existiu e existirá).

4. Dawkins defende uma visão alternativa, ateísta, à de admitir uma inteligência superior aos seres humanos e sobrenatural, mas eu destacaria, em primeiro lugar, a evidência de que a natureza transcende os seres humanos e, quanto ao sobrenatural, afirmaria o seguinte:

. Se o universo/multiverso for finito, a sua existência supõe um acto divino criador, sobrenatural, porque efectuado fora dele ou fora da realidade. Se for finito é preciso o sobrenatural para o explicar; ou seja, Finito ≠ Deus;

. Mas a hipótese, cientificamente em aberto, de o universo ser eterno (na forma uni ou multi), é não só estranha (uma natureza eterna quando tudo, nela, é causal e finito…), como tem grandes consequências racionais, a primeira das quais é a dispensa de um Deus separado das coisas. Se for eterno, o sobrenatural é ele próprio 4; ou seja, Eterno = Deus.

5. O ateísmo parece-me muito mais uma doutrina de combate à função político/social das grandes religiões, do que uma visão racional consistente sobre a hipótese Deus, que reclama ser.

6. Uma natureza eterna, isto é, uma natureza autocriadora é, objectivamente, uma hipótese equivalente à de um Deus dela separado. Se a física teórica viesse um dia demonstrar a hipótese de a natureza ser eterna, então Deus seria ela própria, a Mãe Natureza, o que implicaria, pelo menos na nossa língua, que Deus mudaria de sexo…


1 “Como eu vejo o mundo”, citação in “Sciences et Avenir” - Dez2003.

2 Excertos de uma entrevista conduzida por Edward Wakin - 1981

In “Conversas com Carl Sagan”; Organização de Tom Head; Edições Quasi - 2007.

3 Editado pela Gradiva em 2007.

4 A física teórica, em geral, e a mecânica quântica, em particular, não têm feito outra coisa, aliás, do que descobrir propriedades do mundo sub-atómico que são típicas do que habitualmente concebemos como sobrenatural…


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