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01/06/08

IDEIAS AVULSO

Mário Faria

http://www.lib.uwo.ca/weldon/news/hottopics/archive2002/march02.shtml



Há poucos anos, um jornal norte americano acusava o zapatista Marcos de ter trabalhado num bar gay em San Francisco. Marcos respondeu : Marcos é gay em San Francisco, negro da África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista em Espanha, palestiniano em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, rocker na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pòs guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfolio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas interiores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México...

A ideia de esquerda é hoje um produto exótico, cosmopolita e que o mercado domestica ao sabor das leis da oferta e da procura. Coisas da política, coisas da vida, imagens que ainda são pedras e não apenas o reflexo de si mesmas, tais como “revolução” e “revolta”. E desse enraizamento refrescado, cabe-nos partir racionalmente cépticos e voluntariamente entusiasmados para o movimento social, na embalagem da anti-globalização que surge e na embalagem dos conflitos quotidianos múltiplos que a esquerda política deve integrar no seu ideário.

O socialismo perdeu a teoria e a doutrina de acção. Ficou só com o sentimento, a retórica e meia dúzia de causas dispersas.

O capitalismo vende-se melhor. É por isso que digo que os dentífricos mais publicitados não são os que lavam os dentes melhor. Mas a verdade é que sempre se vendem mais. Berlusconi é um bom exemplo : uma pasta dentífrica que se vende bem. Acredito que o capitalismo moderno continua a não resolver o velho virus da desigualdade. A solidariedade não existe para com os que não tiveram a sorte de nascer do lado certo. Infelizmente muitos políticos e empresários adoptaram no passado uma prática de conluio imoral e ilícito em benefício próprio. A tragédia está no facto de políticos e empresários das novas gerações, com poder, também se terem dado conta que para eles essa forma de actuar também é mais conveniente. Infringindo as regras, conseguem as coisas mais rapidamente do que respeitando as regras.

É verdade que muitos portugueses estão desorientados com “as conversas da treta” que os fecharam ainda mais sobre si mesmos. Repetiu-se até ao fastio que o país estava de tanga. O resultado dessa propaganda é uma economia paralisada pelo medo. Veio depois a ideia de que em Portugal não se trabalha. Um código integral era a solução. Chega um economista de nomeada e alerta que, afinal, é a grande maioria dos empresários que não presta. Os mais afamados economistas reunidos chegam à conclusão de que em Portugal até se trabalha mais do que noutros países. Não sabemos é trabalhar. A televisão mostra que não faltam sinais de exibição de grande riqueza. A venda de carros de luxo está em alta. A grande maioria é que está cada vez mais em baixo.

O ano de 2008 vai ser dominado pela especulação financeira : no petróleo, nas matérias primas e nos produtos alimentares. O povo que trabalha não tem armas para combater os instrumentos do capitalismo. Sobreviver vai sair mais caro, os salários vão ter menos dinheiro. Este ano vai mostrar que sem a cultura do diálogo, sem a promoção da liberdade e justiça em cada país, sem uma nova ordem moral internacional, sem solidariedade económica e social, estão abertos os caminhos da precariedade e da conflitualidade.


(baseado em alguns textos do Público de autores diversos)


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AS PALAVRAS E A MÚSICA

Alcino Silva

A igreja de S. Pedro de Rates


as palavras


Estava fria à noite, sentia-se o vento a rondar-nos o corpo a querer beijar-nos a alma. Estava perdido, é certo, por aquelas dores imensas que me tolhiam os movimentos e me alimentavam o desejo de descanso, de me estirar e semicerrar os olhos, fechá-los mesmo em devaneios de sono ou de sonho. Não, de sono que as dores eram intensas. O vento e a noite aperceberam-se daquela debilidade e não me pouparam. Mas a vontade de escutar as palavras era superior a toda essa fragilidade, pelo que por ali me deixei. O lugar, o espaço carrega certa magia, pelo passado, pelo que foi, por todos aqueles que viu passar. Agora, é dos livros, das letras, do convívio, da cultura, como o foi nessa noite. “Tantos condenados por crimes… prescritos” era o tema a apresentar, a lançar sobre os ouvintes, aqueles que ali se reuniram para escutar. Seguro as páginas amarelas da capa e desfolho em diálogo com as palavras que ali deixaram. Histórias de gentes traçadas por subidas e descidas, interrompidas aqui e além, continuadas depois. Nas primeiras folhas recebemos a visita de Borges e as suas palavras arrebatadoras:

“O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo”.

Ouviu-se então o som triste e lento das violas a romper o espaço na semi-obscuridade das luzes, em sons tangentes, entre graves e agudos fazendo-nos voar as ideias à procura da noite com os escassos raios luminosos de uma lua alva em crescente. Por fim, o poeta lançou o seu clamor ao vento, fazendo desfilar em tropel palavras que se julgavam adormecidas. Como carros de combate os poemas seguiram estrada fora, vergastando as injustiças, alimentando os sonhos e dando ânimo aos Homens que não desistem. “Não sei para onde vou, não sei por onde vou, sei que não vou por aí”. Assim ficamos, a escolher cada um o seu caminho.


a música


Passada a barreira do outeiro que dá pelo nome de serra, encimado por uma floresta de eucaliptos, desprende-se ao olhar um extenso vale em planície, verde, assombrosamente verde e cultivado quase a perder de vista. A amenidade do clima que se soltava naquele fim de tarde, emprestava um repouso a tudo o que era visível. Apetecia prosseguir e desfrutar, saborear a amabilidade daquele sol que caía em réstias de calor que se transformava em conforto para o corpo e para o pensamento. No fim do caminho, invadimos a velha praça ao lado da vetusta igreja e percorremos as vendas daquelas gentes renascentistas nos seus trajes de trabalho. Quase sem darmos por tal, no meio dos couros, dos cabedais, das carnes e dos artesãos os sons suaves, belos das gaitas e da flauta trauteados em cadência pelo bombo, romperam a pacatez da feira e fizeram saltar a alma do consolo do corpo. A música voava, saltava por entre o gentio e fazia vibrar o desejo, a vontade de dançar, mover os membros, girar a cabeça. Eram sons doces, sem agressividade, sem agudos, apenas o bater cadenciado das mãos e as notas da gaita como um aroma a espreguiçar-se por entre as ruas estreitas. Afastei-me para o interior da igreja e mesmo ali chegava ainda como uma carícia aquele toque polifónico que rapazes e raparigas vindos de longe estendiam como um abraço. Minutos volvidos, fez-se silêncio, as vozes deixaram de sussurrar, a luz das lâmpadas faziam ressuscitar as antigas velas de lume aceso que se erguiam ao longo das colunas e o dia que ainda restava espreitava curioso pelos orifícios que o românico deixara nas paredes grossas laterais. As vozes do coro surgiram lentas, em sons leves e foram ondulando pelas pedras, subindo em cordão e atravessando a nave pelos arcos góticos que desejavam o futuro em plena idade média. Gotas e gotas de prazer sereno vogavam agora ao longo de toda a nave, procurando espaço por onde saltar para o mundo. Por vezes aqueles sons baixavam e bailando por entre todos aqueles que imobilizara pela tranquilidade dos tons, surripiava-lhes a alma e levava-a enquanto saltavam com leveza de pedra em pedra. Depois saíram, aproveitando uma nesga de luz, seguiram em viagem pelo mundo e enquanto aqueles toques quase divinos se espalhavam pela terra, quase acreditávamos serem suficientes para apaziguar as guerras e a fome, acalmar a injustiça, serenar a violência dos poderosos. É fácil deixarmo-nos embalar pelo sonho. Saí à procura da alma e senti que a estrada não tinha fim. Vencida a barreira de terra e árvores, avistado o mar que parecia longínquo, percebemos que a música disparava toda a artilharia da poesia das palavras e da vida e quando a primeira curva surgiu, percebi que seguia em frente, sem paragens, sem destino, voando apenas para o infinito do sonho. Deixei a igreja de Rates quando os primeiros alvores da noite beijaram o vale, profundamente agradecido ao coro gregoriano La Santa que veio de Ávila para me levar o pensamento em delícia até ao olhar dos que mais amamos.


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A PLATAFORMA DO DESEJO

António Mesquita

Arquimedes (Domenico Fetti)


"Dai-me um desejo preciso, e eu derrubarei o mundo."

E.M. Cioran


As várias peles de que nos revestimos podem retirar-se uma a uma, as dimensões que nos constituem, desde a linguagem à política e ao social podem ser percorridas pela sonda estatística, mas onde encontraremos o molusco dentro da casca com a explicação do essencial?

O nosso comportamento e o dos que conhecemos não se saberia "ler" sem uma escala do tempo.

Para falar só na política, todos mudámos. Mesmo se alguns parecem estar no mesmo sítio e não ter dado pela queda dos impérios, estão já noutro lugar e o seu discurso assume um novo e anómalo sentido.

Os corpos têm também outro peso. Estão carregados de terra. A agilidade dos pés correspondia às asas do pensamento, mesmo se fossem ilusões o seu motor.

Repetimos, mesmo sem palavras, uns com os outros, o drama ou a comédia de que o "ar do tempo" é o ponto. O ar do tempo impregna-nos e está em todos os nossos gestos e olhares, tanto que as palavras, às vezes, como sentinelas abandonadas pela guarnição ficam ridiculamente expostas.

E se toda esta mudança, este período de paragem, de estagnação, se quisermos, se medisse pelo desejo ou pela sua falta?

O desejo é a plataforma de Arquimedes, a força que traz a montanha para junto do profeta.

O desejo da Revolução, por exemplo. Era ele que explicava o entusiasmo, a abnegação, a vergonha por se pretextar quaisquer outros interesses ou prioridades, o desejo como incorporação e alucinação das ideias.

Não é essa ausência que denunciamos nos mais ínfimos detalhes?


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01/05/08

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50 PALAVRAS

António Mesquita


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"As unhas estão pretas. As palavras mudam pouco, o vocabulário em situações extremas não é composto por mais de 50 elementos."

"Um homem: Klaus Klump" (Gonçalo M. Tavares)



Este jovem autor é oracular, às vezes. Numa frase diz tanto como no melhor dos versos.

Aqui fala da guerra, por excelência, a situação extrema. E podia-se ser mais contundente do que com aquele número terrível?

Mas se a riqueza do vocabulário exprime a complexidade da vida, as nuanças dos sentimentos e o pensamento mais elaborado, não se segue que aquilo a que chamamos de simplicidade não o exprima também, embora com outros meios que não os linguísticos. Esta diferença define talvez uma civilização.

Com os milhares de vocábulos que temos mais do que o camponês da Idade Média a "simplicidade" tem de ser traduzida. Precisamos dessas palavras para compreender um mundo que já nada tem a ver com o do feudalismo.

Porém, a ideia de Gonçalo Tavares não é menos pertinente.

Há também em relação àquele camponês uma experiência que equivale à redução a 50 palavras.

O mundo atrofia-se quando as palavras já não aparecem na boca das pessoas. É a altura das simplificações assassinas, das divisões cismáticas, dos anátemas sem perdão.

As organizações, porque querem ser forças, começam por criar uma língua própria, com pouco mais de 50 elementos.

Mas a tecnologia confronta-nos com outro desafio. Ao mesmo tempo que nos põe a todos em contacto fácil e quase instantâneo, recorre cada vez menos às palavras e menos também à língua materna, em favor do básico internacional.

Por isso o mundo se estreita sob dois impulsos irresistíveis: o da velocidade das comunicações e o da morte das palavras.


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