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01/03/08

É TUDO UMA FARSA

Alcino Silva
Baltazar Garzón




No estado espanhol é o juiz Baltazar Garzon que diz o que é e o que não é democrático e em nome de combater a estupidez da ETA, reduz o País Vasco a um debate onde apenas falam as pedras. Já não chega apoiar o terrorismo, basta que o juiz entenda que lhe pareça que podem estar a apoiar. A presunção de inocência desapareceu no estado espanhol. Só que este juiz justiceiro marcha a toque de tambor do Partido Popular e das campanhas eleitorais que se desenvolvem no estado. A isto chama-se democracia. É o governo deste mesmo estado que nega a autodeterminação aos povos que o compõem que não hesitou um segundo em reconhecer as independências das nações que resultaram da destruição da Jugoslávia, mesmo quando se tratou de nações inexistentes como é o caso da Bósnia-Herzegovina.
Desde o início da década de noventa procurei seguir e conhecer o drama dos povos jugoslavos. Diversos trabalhos de jornalistas portugueses demonstraram que a diabolização do povo sérvio e do seu presidente visavam a fragmentação da Jugoslávia, primeiro e da Sérvia depois. O processo continua.
Em Novembro último, apareceu nas bancas mais um trabalho sobre a tragédia que continua a desenrolar-se nos Balcãs. Em “O Sobrevento Jugoslavo”, o seu autor, José Manuel Arsénio, pretende relatar “a tragédia balcânica” que presenciou. Ingressado na carreira diplomática em 1974 é ainda um alto quadro do M.N.E.. Foi chefe da delegação portuguesa junto da Missão de Monitores da Comunidade Europeia, em Zagreb entre fins de 1992 e meados de 1995. É, portanto, o depoimento de um homem bem colocado no terreno e insuspeito do ponto de vista de uma visão que pudesse favorecer os sérvios e Milosevic.
O seu trabalho é uma obra incontornável para se compreender a manta de mentiras que cobriram o conflito que envolveu os povos da antiga Ilíria. Com palavras simples e num tom dialogante e compreensivo, arrasa o papel dos Presidentes da Croácia e muçulmano da Bósnia Herzegovina, para além das mentiras que emanavam dos governos inglês, francês e alemão, e ainda das manobras maquiavélicas dos EUA. Os intrujões do Iraque treinaram-se aqui. Quando em Dayton os sérvios da Bósnia são colocados de joelhos com a colaboração de Milosevic, contrariamente à imagem que deste sempre foi passada, ainda se construíram monstruosidades como o massacre de dez mil muçulmanos da cidade de Srebrenica o qual ainda hoje continua a ser passado como se de uma verdade se tratasse. Este embaixador chamou-lhe, “a mitificação”. Para uma melhor compreensão deste cenário, ou de como é possível, inventar tragédias para destruir adversários, povos e nações, nada melhor que citar o autor: “Numa guerra de tão sanguinolenta confrontação interétnica, em que foram impiedosamente acometidos inúmeros agregados humanos – desde a destruição de Vukovar até à devastação de Knin, passando pelo derribamento do sector muçulmano de Mostar e das cidades croatas no Vale do Lasva, com extensão aos morticínios de Tuzla e da bolsa de Pakrac, sem esquecer os massacres de Stupni Do, de Doljan e das aldeias sérvias da bolsa de Medak (para evocar apenas alguns exemplos) -, o insistente clamor político e mediático em torno de Srebrenica, erguido por certos países ocidentais, teve o claro objectivo de abominar os sérvios, proteger os muçulmanos e eximir os croatas, com o intuito de insuflar na psique colectiva das opiniões públicas um generalizado sentimento condenatório dos sérvios, (…) Colhe-se, assim, a sensação de que os Estados Unidos, mais do que tentarem demonstrar que a população de Srebrenica fora alvo de um massacre, antes se preocuparam em suprimir as provas de que tal massacre jamais havia ocorrido. (…) No tocante a Srebrenica, pelo contrário, todos os dados vindos a lume permaneceram sempre envoltos em névoas de incerteza, dúvida e imprecisão, com o número de mortos a ser apurado por um mui questionável método de aproximação por excesso, com base em provas materiais e documentais que pecavam largamente por defeito.”
A Europa encontra-se a ser governada por políticos miseráveis que roçam o crime. No território da Jugoslávia montaram uma farsa que não pôde impedir os povos de conhecer a verdade dos factos. Porém, nem assim se coibiram. Quatro anos depois, devastaram a nação sérvia e posteriormente assassinaram aquele que havia sido seu presidente numa das prisões do império quando as declarações deste ameaçaram fazer ruir o castelo de areia que tinham erguido.
A farsa continua hoje com a chamada declaração de independência de um estado que não existe a que deram o nome de Kosovo. Agora, finalmente o estado espanhol percebeu que o tecto lhe podia cair em cima da cabeça e recuou atabalhoadamente.
Há quem chame a tudo isto democracia, ou que esta possa justificar todas as torpezas. São opiniões.



A HIPÓTESE DEUS (1)

Mário Martins



“A opinião é um ter por verdadeiro, consciente de ser insuficiente, quer subjectiva quer objectivamente. Se o ter por verdadeiro é subjectivamente suficiente e, ao mesmo tempo, é considerado objectivamente insuficiente, chama-se fé. Enfim, o ter por verdadeiro que é suficiente, tanto subjectiva como objectivamente, chama-se saber. A suficiência subjectiva chama-se convicção (para mim), a suficiência objectiva chama-se certeza (para todos)”

Immanuel Kant



1. As reflexões que se seguem têm por único objecto a questão teórica da existência ou não existência de Deus. Tal significa que não têm em conta, neste preciso contexto, o fenómeno da fé religiosa nem, em geral, a história e o papel social das religiões. Por outro lado, a expressão Deus, neste âmbito, tem o estrito significado de criador, sem os restantes predicados atribuídos pelas grandes religiões.

2. Deus não é um ser, mas sim, antes, um sentimento, uma ideia, um conceito ou uma hipótese de um ser, mais ou menos incorpóreo e indefinido; ou seja, Deus é um produto da sensibilidade e da mente.

3. Esse sentimento ou essa ideia humana prevalecentes de que, necessariamente, existe um ser criador, enraízam-se na evidência de que a natureza é um dado que nos transcende, no espanto provocado pela grandeza, complexidade e beleza do cosmos, no mistério da existência (porque existe tudo o que existe, em vez de nada?), e na intuição de que o universo (ou a natureza) não se pode justificar por si próprio.

4. Essa intuição de que o universo não se pode justificar por si próprio, deriva das suas próprias características conhecidas:

· Tem uma idade à volta dos 13.700 milhões de anos;

· Tudo, nele, é finito (salvo, ao que julgo, as partículas elementares que constituem o seu “caldo”);

· Tudo nasce de tudo que lhe é anterior;

· Tudo tem uma causa;

· A inteligência humana é um produto da natureza;

· O processo natural pelo qual tudo existe assemelha-se a um programa.

5. Aqui chegados começam os problemas. Se o universo é, por definição, tudo o que existe ou toda a realidade, e teve um início, isso significa que nasceu do nada ou de fora da realidade. Se, por outro lado, nele tudo morre e tudo nasce de tudo que lhe é anterior e tudo tem uma causa, tal implica uma primeira causa fora do universo. E se, ainda, a inteligência humana é um produto da natureza, então ela própria, a natureza, é animada por inteligência. E pode haver programa sem programador?

6. O conceito de Deus criador sofreu uma crise dramática, em meados do século XIX, com o advento da teoria científica da origem e evolução das espécies, estabelecida por Charles Darwin. Desde então a ideia de um Deus criador directo das espécies, nomeadamente, da humana (o que significava uma intervenção divina recente à escala cósmica - há cerca de 2 milhões de anos), perdeu toda a consistência racional, dando lugar à ideia de um Deus criador do universo (ou seja, um acto divino primordial e longínquo - há 13.700 milhões de anos).

7. É certo que está por esclarecer cientificamente o processo pelo qual se originou a vida elementar na Terra há cerca de 3.900 milhões de anos. E não está, sequer, afastada a hipótese de ter sido originada pela queda de meteoritos “contaminados”, isto é, de ter tido uma origem extraterrestre. Mas digamos que, sob a forte influência da teoria da origem e evolução dos seres vivos, há um certo consenso de que uma dada combinação das coisas em determinadas condições, origina ou pode originar vida.

CONTINUA


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ORNAMENTOS DA MEMÓRIA

Manuel Joaquim

Tenho nas mãos um livrinho, editado em 1862 pela editora parisiense Vª J.P. Ailllaud, Guillard e Cª, de autoria de J. I Roquette, que se chama “Ornamentos da MEMÓRIA e exercícios selectos para formar o bom gosto e verdadeiro estylo da língua portugueza; extrahidos dos melhores clássicos em prosa e verso; complemento necessário da educação da mocidade portugueza e brasileira - nova edição “ . o Prólogo tem a data de 21 de Junho de 1849.

Livros iguais a este encontravam-se certamente em bibliotecas de muitas famílias do sec XIX, para aperfeiçoarem a língua e o pensamento através de obras de clássicos portugueses. É interessante verificar que um dos autores referidos é o Padre António Vieira nascido há quatrocentos anos, cujas comemorações decorreram durante o mês de Fevereiro ( nasceu em 6 de Fevereiro de 1608), praticamente em Lisboa, pois, no Porto, pelo que se sabe, só a Unicepe se lembrou da data, realizando uma sessão de homenagem com muita dignidade.

Há 160 anos considerava-se que o ensino da língua portuguesa deveria ser através da divulgação e o conhecimento das obras dos clássicos da literatura portuguesa, hoje com as sucessivas reformas do ensino e as consequentes alterações nos respectivos programas, pretende-se ensinar a língua através de textos de publicidade comercial, que não são mais do que estimuladores de consumo de produtos sem valor, como se pode verificar nos manuais em vigor para o ensino secundário, sem esquecer as posições oficiais sobre a desvalorização da ortografia.

Pelo interesse que possa despertar, transcrevo o respectivo Prólogo



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POEMA AO PAI

Dina La-Sallete

http://rutesmuntanya.iespana.es/galeria/page6/page_01.htm


“Pai, devo-te estas palavras. As que não soube nem pude dizer-te no tempo em que eras simplesmente “o meu paizinho”. As que começaram a doer-me no dia da tua morte, quando pressenti pela primeira vez a minha própria morte.

A minha mais imediata memória de ti é a de um incansável caminhante. Vejo-te a caminhar ao fundo da rua, franzino, de boné na cabeça e bolsa debaixo do braço, num dos teus trajectos diários como agente de seguros, tentando cobrar os magros prémios aos segurados que ias angariando e que te compunham a magra reforma.

Tinhas trabalhado como contabilista no escritório de uma pequena fábrica de cápsulas de chumbo para garrafas de vinho do Porto. Mas antes tinhas tirado o curso à noite, já casado e pai dos teus três filhos. E muito antes o teu pai tinha decidido que tu, paizinho, o primeiro dos seus 8 filhos (quatro de cada mãe), viesses para o Porto, só e desamparado, estudar para padre no Seminário de Vilar.

Ainda te ouço proferir à mesa aquelas frases em latim que tanto nos divertiam: “mater tua mala burra est” que depois invariavelmente nos traduzias: a tua mãe come maçãs coradas.

A minha mais antiga memória de ti é a tua pequena e pacífica figura de enxada na mão a semear batatas, no nosso quintal, a esfolar um coelho, a descascar feijões ou a entrançar cebolas. Mas isso era na minha infância. Lembro-te a segurar-me a mão a caminho da escola no dia em que fiz o exame da 4ª classe, e de apanhares camarinhas para mim em dia de ida ao Senhor da Pedra.

Invejo-te, pai, paizinho: cumpriste a tua vida, com simplicidade e infinita bondade, e quando chegaste ao fim nenhuma culpa ou arrependimento te assombraram. Olhaste-nos um a um numa muda e resignada despedida. A mim tentaste transmitir algo mais mas quando encostei o ouvido à tua boca nenhum som pude captar nem nenhum sinal dos teus olhos baços me traduziram esse teu último pensamento.

Só agora te digo, Paizinho, o que nunca pude dizer-te de viva voz, quando eu bem percebia a tua sede de ternura sem conseguir corresponder aos teus afagos e carinhosas palavras. Deixaste-me um nó de desolação e desgosto na garganta. Era agora que eu queria abraçar-te e dizer-te que gosto de ti, que preciso de ti, que és o melhor e mais justo pai do mundo.

Mas é tarde, Paizinho, e tu nunca irás ver estas lágrimas nem saber como estás e estarás sempre dentro de mim, quando me falta paz, alento e coragem para continuar o meu caminho, mesmo sem ti”.


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