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01/03/08

ORNAMENTOS DA MEMÓRIA

Manuel Joaquim

Tenho nas mãos um livrinho, editado em 1862 pela editora parisiense Vª J.P. Ailllaud, Guillard e Cª, de autoria de J. I Roquette, que se chama “Ornamentos da MEMÓRIA e exercícios selectos para formar o bom gosto e verdadeiro estylo da língua portugueza; extrahidos dos melhores clássicos em prosa e verso; complemento necessário da educação da mocidade portugueza e brasileira - nova edição “ . o Prólogo tem a data de 21 de Junho de 1849.

Livros iguais a este encontravam-se certamente em bibliotecas de muitas famílias do sec XIX, para aperfeiçoarem a língua e o pensamento através de obras de clássicos portugueses. É interessante verificar que um dos autores referidos é o Padre António Vieira nascido há quatrocentos anos, cujas comemorações decorreram durante o mês de Fevereiro ( nasceu em 6 de Fevereiro de 1608), praticamente em Lisboa, pois, no Porto, pelo que se sabe, só a Unicepe se lembrou da data, realizando uma sessão de homenagem com muita dignidade.

Há 160 anos considerava-se que o ensino da língua portuguesa deveria ser através da divulgação e o conhecimento das obras dos clássicos da literatura portuguesa, hoje com as sucessivas reformas do ensino e as consequentes alterações nos respectivos programas, pretende-se ensinar a língua através de textos de publicidade comercial, que não são mais do que estimuladores de consumo de produtos sem valor, como se pode verificar nos manuais em vigor para o ensino secundário, sem esquecer as posições oficiais sobre a desvalorização da ortografia.

Pelo interesse que possa despertar, transcrevo o respectivo Prólogo



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POEMA AO PAI

Dina La-Sallete

http://rutesmuntanya.iespana.es/galeria/page6/page_01.htm


“Pai, devo-te estas palavras. As que não soube nem pude dizer-te no tempo em que eras simplesmente “o meu paizinho”. As que começaram a doer-me no dia da tua morte, quando pressenti pela primeira vez a minha própria morte.

A minha mais imediata memória de ti é a de um incansável caminhante. Vejo-te a caminhar ao fundo da rua, franzino, de boné na cabeça e bolsa debaixo do braço, num dos teus trajectos diários como agente de seguros, tentando cobrar os magros prémios aos segurados que ias angariando e que te compunham a magra reforma.

Tinhas trabalhado como contabilista no escritório de uma pequena fábrica de cápsulas de chumbo para garrafas de vinho do Porto. Mas antes tinhas tirado o curso à noite, já casado e pai dos teus três filhos. E muito antes o teu pai tinha decidido que tu, paizinho, o primeiro dos seus 8 filhos (quatro de cada mãe), viesses para o Porto, só e desamparado, estudar para padre no Seminário de Vilar.

Ainda te ouço proferir à mesa aquelas frases em latim que tanto nos divertiam: “mater tua mala burra est” que depois invariavelmente nos traduzias: a tua mãe come maçãs coradas.

A minha mais antiga memória de ti é a tua pequena e pacífica figura de enxada na mão a semear batatas, no nosso quintal, a esfolar um coelho, a descascar feijões ou a entrançar cebolas. Mas isso era na minha infância. Lembro-te a segurar-me a mão a caminho da escola no dia em que fiz o exame da 4ª classe, e de apanhares camarinhas para mim em dia de ida ao Senhor da Pedra.

Invejo-te, pai, paizinho: cumpriste a tua vida, com simplicidade e infinita bondade, e quando chegaste ao fim nenhuma culpa ou arrependimento te assombraram. Olhaste-nos um a um numa muda e resignada despedida. A mim tentaste transmitir algo mais mas quando encostei o ouvido à tua boca nenhum som pude captar nem nenhum sinal dos teus olhos baços me traduziram esse teu último pensamento.

Só agora te digo, Paizinho, o que nunca pude dizer-te de viva voz, quando eu bem percebia a tua sede de ternura sem conseguir corresponder aos teus afagos e carinhosas palavras. Deixaste-me um nó de desolação e desgosto na garganta. Era agora que eu queria abraçar-te e dizer-te que gosto de ti, que preciso de ti, que és o melhor e mais justo pai do mundo.

Mas é tarde, Paizinho, e tu nunca irás ver estas lágrimas nem saber como estás e estarás sempre dentro de mim, quando me falta paz, alento e coragem para continuar o meu caminho, mesmo sem ti”.


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01/02/08

7

A DESILUSÃO DE DEUS

Mário Martins


Com este título foi recentemente editado entre nós 1 um livro com mais de um milhão de exemplares vendidos. O título inglês, menos comercial, The God Delusion 2 identifica-se melhor com a crítica racional da fé religiosa que nele se faz e com o objectivo declarado pelo seu autor, o cientista da evolução da vida e professor catedrático de Oxford, Richard Dawkins: tornar os crentes ateus!

Dawkins faz uma crítica devastadora da ausência de provas ou factos em que assenta a fé religiosa, da intolerância das religiões e do perigo que representam, do seu carácter dogmático, da sua pretensão de serem as fontes da moralidade, do respeito desproporcionado e imerecido de que gozam e a que aspiram. E defende que a hipótese da existência ou não existência de Deus é uma questão científica, que “é quase certo que Deus não existe” e que o ateísmo é a única atitude sustentável.

Em apoio das suas teses, Dawkins cita, entre outros, o saudoso astrónomo, professor e divulgador de ciência Carl Sagan e esse ícone da ciência que é Albert Einstein. No entanto, pelo que conheço, parece-me que o mínimo que se pode dizer é que ambos fizeram abordagens diferentes ao tema:

“Aqueles que levantam questões acerca da hipótese de Deus e da hipótese da alma não são todos ateus - de modo algum. Um ateu é alguém que tem a certeza de que Deus não existe, alguém que possui provas irrefutáveis que contrariam a existência de Deus. Não tenho, quanto a isto, conhecimento de quaisquer provas irrefutáveis. Porque Deus pode ser relegado para tempos e lugares remotos e para causas últimas, teríamos que saber muito mais acerca do universo do que sabemos hoje em dia para ter a certeza de que Deus não existe. Estar certo da existência de Deus e estar certo da inexistência de Deus parecem-me ser os dois extremos pouco sensatos numa matéria tão assolada por dúvidas e incertezas que só pode inspirar, de facto, muita desconfiança. Um vasto leque de possibilidades intermédias parece admissível. Tendo em consideração a tremenda energia emocional investida no assunto, uma mente aberta, corajosa e indagadora é, assim, o meio, a ferramenta essencial para diminuir a extensão da nossa ignorância colectiva acerca da questão da existência de Deus.” 3

“A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega.” 4

A Desilusão de Deus é, decerto, um livro provocante, quer no conteúdo quer no estilo, mas para os que consideram que não há nada que não possa e deva ser sujeito a exame e discussão, não há dúvida que é um livro pleno de racionalidade e, por isso, de leitura e reflexão obrigatórias.

Apesar da temeridade que é reflectir, por quem não é cientista, filósofo ou teólogo, sobre uma questão tão etérea como a da existência ou não existência de Deus, procurarei fazer em próximo(s) artigo(s) uma aproximação racional ao tema. Se até lá não me faltar o ânimo…

1 Pela “casa das letras”.
2 Delusion = crença ou impressão falsa.
3 Excertos de uma entrevista conduzida por Edward Wakin - 1981
In “Conversas com Carl Sagan
Organização de Tom Head
Edições Quasi - 2007

4 In “Subtil é o Senhor - Vida e Pensamento de Albert Einstein
Abraham Pais - 1982
Gradiva - 2ª. edição 2004


ESTADO DA DIREITA

Alcino Silva

http://trilux.org/img/board-meeting.jpg



Há palavras que nos ficam retidas na memória e aqui e ali aparecem-nos no caminho da vida como exemplo sobre o que vai acontecendo. No tempo em que o quotidiano dos Homens voava nas asas do sonho cantava-se um poema que afirmava algo assim: “uma criança, dizia, dizia, quando for grande não vou combater”. Pois é verdade, trinta anos depois os filhos e netos daqueles que impuseram a paz à guerra, são enviados pelo mundo em defesa de guerras de outros, de invasões ilegais, de pretensas manutenções de paz, de proveitos alheios. Este país, ainda acolhedor, deveria ser exemplo de que forças armadas são instrumento do passado, sobretudo se derreterem dinheiro em guerras de terceiros. Seduzidos por pagamentos acima do seu normal rendimento, vemos jovens em missões mercenárias, utilizando indevidamente o nome e a bandeira de um país que não deseja guerras com ninguém, só para que alguns dos senhores do Terreiro do Paço, armem em durões e serventuários de interesses de aquém e além mar.

É ainda este país que assiste a determinados bimbos e valentões, sejam Costas ou majores que não satisfeitos com as tropelias que a sua vida profissional e não só é fértil accionam o Estado para reclamar chorudas indemnizações em nome de pretensos danos morais por acusações que a justiça não consegue ou não quer provar. É natural que num país onde os corruptos afirmam constantemente que estão de consciência tranquila exista presunção de inocência, a qual apesar da evidência dos factos para o cidadão comum, nunca se transforma em condenação. Antes pelo contrário, o acusado transforma-se em vítima e a sociedade em acusado.

Entretanto, numa democracia de partido único, apesar de cabeça dupla, por alguns denominado Partido Português do Capital, prossegue a sanha legislativa para que o partido único fique mais único. Eliminam-se as pequenas fracções em que se reúnem os cidadãos e transformam-se maiorias simples em maiorias absolutas.

Tem prosseguido com afinco o encerramento do país interior, desde escolas, centros de saúde, maternidades. Aparentemente tudo o que mexe tem destino marcado pelos laicos, republicanos e socialistas e há quem diga, também democratas.

O Luís que ameaça ficar na história como O Breve, depois de derrotar o olhinhos, veio dizer, para se distinguir do socrático governo, que desmantela o Estado em seis meses. Até o Dos Santos teve de lhe vir explicar que deveria pensar melhor, pois não é fácil, dado que os laicos, republicanos e socialistas e, ao que dizem, também democráticos, têm feito um esforço extraordinário nos últimos dois anos e ainda têm obra para andar. O Luís virou-se então para outro lado e passou a reclamar que o bolo seja também para a cabeça direita do partido único. Disse que os seus amigos também são filhos de gente. Foi tão destemperada a reclamação que outro dos ministros do governo do engenheiro Pinto de Sousa teve de vir lembrar que não se reclama assim na praça pública, que essas coisas, tratam-se nos corredores sombrios do palácio.

Por último, assistimos impávidos e serenos aos abutres a devorarem o festim que tem sido o banco erguido pelo engenheiro, outro que não aquele. Aquilo não é um off-shore é um casino de beco. Até à vermelhinha jogavam. E assim vai o país. Esgotado o filão do aeroporto e quase no fim, o do tabaco, estamos na expectativa da nova patranha que nos hão-de contar. E o país lá continua, com o povo feliz, como já o foi noutros tempos, segundo a revisão da história.

Os laicos, republicanos e socialistas, e ao que dizem, também democráticos, mais o megafone que têm na assembleia da república, põem aquele ar sério, aquela pose de Estado para parecer que têm credibilidade e são gente politicamente séria, para nos dizerem que vivemos num Estado de direito, mas já nem eles acreditam, pois na verdade, sabem tão bem como nós que estamos a viver é… num Estado da direita.

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