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30/09/07

OS BONS, OS MAUS E OS VILÕES


Liberdade já existe. Será? Temos eleições, liberdade de expressão e acção, mas, em contra-partida o direito ao trabalho é cada vez mais desprezado face a novos “valores” emergentes para o progresso, tais como : a deslocalização das empresas, a mobilidade dos trabalhadores, a redução e a perda de conquistas tão caras ao estado providência e que constituíram um património sócio-cultural que nos diferenciava dos “pagãos” e foi suporte da propalada superioridade ocidental.

É óbvio que nem tudo se perdeu e é verdade que a sociedade está em constante mutação. Mas, se não nos cuidarmos, não faltará quem queira – com os melhores propósitos – destruir esse património e acabar de vez com esses “luxos” de que (ainda) gozam os trabalhadores. O código laboral há-de ser cada vez mais o código patronal, a saúde mais cara, a justiça mais inacessível ao cidadão comum, a segurança social, descapitalizada, será substituída pela excelência dos seguros privados, a educação será posicionada para os mais privilegiados, a protecção às crianças mais desfavorecidas e o apoio à terceira idade – um dos problemas mais sérios das sociedades ditas avançadas – cada vez mais incompatíveis com o hedonismo, a fúria do sucesso, o reforço das classes dominantes, a força do dinheiro e a indomável atracção pelo poder. E estas situações, e esta política e esta tendência neo-conservadora limitam a liberdade. Obviamente que este tipo de desabafo é comum, não é perigoso, não faz opinião e não terá eco. Os insatisfeitos “ladram”, mas a caravana passa e os que vão nela cada vez viajam melhor, mais confortados e com mais mordomias.

É um lugar comum dizer-se que há liberdade a mais e responsabilidade a menos. Estou um pouco saturado desses lugares comuns, mas que são óptimos para não dizer nada e potenciar o comodismo e a inércia. É óptima a sua utilização, porque há um grande consenso à sua volta. A responsabilidade não toca a todos por igual : é um erro juntar o governo e a oposição nas críticas à condução do país quando é aquele que governa, e nas empresas os mandantes aos mandados ou entre patrões e servos. Dá jeito dizer mal dos media e perverter o segredo de justiça segundo a agenda do ministério público. Sossega-nos pensar que os hospitais funcionam mal em função de serem públicos e tomar a classe médica como alheia ao seu funcionamento. Confiamos que justiça é cega e que a sua utilização é excessivamente burocrática, cara e morosa e que isso nada tem a ver com o poder dos juízes e o interesse dos advogados. Se devemos preocupar-nos com as escutas à toa, com a desgovernação do país, com as reformas de luxo, com o aumento das rendas e os custos da saúde, a sorte dos infelizes e o sossego dos instalados, temos o direito à denuncia, mas com jeitinho e sem dor. Com liberdade, mas responsabilidade. Não vale se não for assim.

Continuamos a viver numa sociedade profundamente hierarquizada e elitista. As responsabilidades não se podem atribuir a todos por igual. É para mim um erro tremendo tratar os erros e os desvarios com discursos generalistas e bem intencionados – do tipo Jorge Sampaio – mas que não resolvem, não incomodam e deixam tudo como dantes e todos na paz do senhor, salvo os culpados do costume.

Em Portugal há um deficit de talento e um excessivo desperdício na gestão de “improdutividades”. As nossas elites (os bons) são preferencialmente burocratas que viraram vedetas e julgam que basta a criação de uma qualquer Carta Magna da Competitividade e a consolidação orçamental para ficarmos preparados para surfar na crista da onda. Não basta !

E como não basta, há que regressar à ladainha da ordem e quem paga é sempre o elo mais fraco. Os desempregados e a maioria dos trabalhadores (públicos e privados) são tratados como se fossem autênticos “vilões” se ousam defender os seus direitos e reclamar ser tratados de forma justa. Os sindicatos, que lhes dão cobertura, são os maus da fita. Não trabalham, desestabilizam, furam o pacto social e incomodam muita gente. Em função de tanta “maldade”, a liderança tende a tornar-se cada vez mais autoritária. Há em muitas empresas um regresso ao passado com estúpidas restrições aos direitos formais (e informais) no exercício da actividade profissional, só que agora se exercem não a coberto de um governo autoritário, mas em nome da sacrossanta competitividade. E assim vai Portugal. Uns vão (muito) bem, outros (bastante) mal.


Mário Faria

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RELATÓRIO FABRIL DE 1915

Lyonel Feininger - The factory (1950)



Ao Governador Civil do Porto

Relatório


A cerca da Fábrica de louça de Ferro esmaltado de John Minchin Júnior.

Tendo efectuado uma visita á Fábrica de louça de ferro esmaltado de John Minchin Júnior, na Rua do Freixo, desta cidade, averiguei o seguinte:

Existem: A oficina de funileiros havendo

na 1ª secção o corte de chapas de aço;
Na 2ª secção a oficina de soldadura e montagem;
Na 3ª secção a oficina de levantamento das peças ao torno ou ao martelo.

Em seguida temos uma dependência para a esmaltagem .

Nestas oficinas não se empregam materiais tóxicos , e as oficinas encontram-se regularmente ventiladas e higiénicas.

Somente na oficina de estanhagem como se emprega a solução de 10% de ácido clorídrico para a limpeza das peças e como ás vezes se faz 2ª estanhagem e as, peças ainda quentes entram naquela solução, há desenvolvimento de ácido clorídrico que tornam um pouco insalubre aquela dependência.

Segue-se a oficina propriamente da esmaltagem.

Nesta oficina os esmaltes são aplicados em massa, não havendo poeiras.

Numa dependência onde se prepara o esmalte onde se misturam as diversas substancias em que não entram substancias consideradas tóxicas.

Estas são levadas depois ao forno a 1200 graus saindo depois em uma massa vítrea que depois de pulverizada é tornada na massa a aplicar ás peças a esmaltar.

A dependência da oficina em que se limpam peças por meio do acido clorídrico a 10% não tem desenvolvimento de ácido com a oficina de esmaltagem pois as peças entram aí a frio e o operário se aí mete as mãos é porque quer.

Na oficina de esmaltagem existem também os fornos que montados como estão não dão origem a desenvolvimento de matérias tóxicas .

Há outras oficinas, como a de preparação de algumas matérias para os esmaltes, como o quartzo, feldspato etc. que agora se preparam, e confecção de tijolo, que não é insalubre, atento o modo de instalação, e a oficina de fundição.

Na secção de esmaltagem de puchadores de ferro, os esmaltes são preparados com matérias tóxicas, e nos retoques das imperfeições também são empregadas substâncias tóxicas.

Os operários que manipulam estes objectos usam umas máscaras que preservam a boca e o nariz e que filtram através de si o ar respirado por aqueles operários.

Como nesta oficina se empregam substancias tóxicas e na estanhagem há também desenvolvimento do ácido clorídrico, entendo que estas oficinas estão incluídas no nº 3 do artigo 4º da lei nº 296 e por isso para isentar as outras devem estas ficar isoladas das outras ventilando-as convenientemente.

Porto , e 1ª Circunscrição Industrial 17 de Dezembro de 1915

O Engenheiro Chefe

Assinatura ilegível


( Respeitamos a grafia da época)


Este relatório poderia enquadrar-se nas Novas Comissões Higiene e Segurança. Tem outro mérito histórico dá-nos ao pormenor como é que se organizava uma fábrica de Esmaltagem, uma das mais famosas da época.

Júlio Soares


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30/08/07

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A AGULHA E A LINHA

http://www.uweb.ucsb.edu/~ian_kannry/Hands



Vivemos num mundo de formas, em que estranhas correspondências parecem unir reinos distantes, tal como o de um utensílio do quotidiano e um modo do pensamento.


A agulha e a linha, por exemplo.


A primeira é a ponta dura que guia o fio flexível, fazendo-o passar entre dois tecidos de modo a fixá-los um ao outro numa costura. A linha mole é arrastada no vaivém da agulha, presa que está ao seu orifício, por onde, diz a tradição, não há-de passar um camelo, mas o texto sagrado querendo, provavelmente, dizer apenas uma corda. Coisas da tradução das línguas mortas.


E onde é que está a ideia, afinal?


Pois a mim parece-me que no nosso verboso discorrer utilizamos uma espécie de agulha, com o seu fio.


A ponta dura que abre caminho, e protege ao mesmo tempo, como num autocarro cheio é mais fácil seguir na esteira de um homem corpulento para nos aproximarmos da saída, é aqui representada por aquelas fórmulas consagradas e pelas figuras de retórica que parecem sempre provar mais do que se lhes pede e dizer mais do que o que dizem. Aberto o caminho no espírito dos auditores por um "até quando (Catilina)?", ou um "é assim:" (hoje empregue até à exaustão), ou um "logo" (de "penso, logo existo"), é mais fácil o fio mole do nosso discurso ir entretecendo a sua trama ou cosê-la num pesponto.


Esta "agulha" é tanto mais necessária quanto aquilo que dizemos ou anunciamos for uma novidade, ou um pensamento original, que, naturalmente, encontrará o espírito dos outros à defesa, senão de orelhas moucas.


E a razão é, como dizia Alain, que a invenção, numa conversa, viola uma das regras da cortesia que é a de respeitar a "soberania" do outro, em vez de tentar tomar de assalto com um simples argumento lógico ou um efeito de sintaxe aquilo que o outro pensa.


Por isso é que, quando a nossa tropa se mostra a descoberto (ou o bosque de Birnam se move, como no "Macbeth"), já há muito o nosso interlocutor levantou a ponte levadiça.


E podíamos levar mais longe a analogia entre a arte da costura e a retórica, olhando para esse instrumento militar (à escala embora da cabeça de um dedo) que é o dedal. Ele serve para evitar que sejamos feridos pela agulha, quando o jogo do seu vaivém adquire uma certa velocidade.


Ora, o que são, perante a eloquência, a ironia e o trocadilho, numa palavra o cepticismo, senão o dedal com que nos defendemos da penetração da agulha nos pontos mais sensíveis?


E isto, evidentemente, tanto no que declamamos a nós mesmos como no que ouvimos aos outros.

António Mesquita


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A TERRA ENVENENADA

http://www.hawaii.gov/health/environmental


A acção do homem sobre a natureza tem-se traduzido por profundas mudanças nos equilíbrios biológicos, ao provocar a diminuição e mesmo a destruição total de um grande número de espécies animais e vegetais e ao mesmo tempo favorecendo e fomentando o aparecimento de outras que se tornaram destruidoras ou parasitas das culturas.

Longe de serem calamidades acidentais, as “epidemias”, e especialmente os insectos parasitas devem, pelo contrário, ser considerados como consequências fundamentais e inevitáveis das práticas agrícolas e das transformações levadas a cabo pelo homem nos habitats naturais. Para restabelecer um certo equilíbrio e controlar estas epidemias e estes insectos danosos, o agrónomo inventou meios de luta artificial a partir do vasto arsenal posto à sua disposição pela ciência química.

A humanidade deve muito, sem sombra de dúvida, aos pesticidas, nomeadamente aos insecticidas. Estas substâncias permitiram obter o controle de perigosos parasitas das culturas e diminuir fortemente os seus danos em todas as latitudes, resultado particularmente importante se se tiver em conta a penúria alimentar de que o mundo sofre. Além disso, permitiram eliminar ou limitar consideravelmente certas doenças endémicas em certos países, como a malária.

O emprego de pesticidas ditos de síntese constitui um nítido progresso na defesa da humanidade e dos seus meios de subsistência e o próprio princípio desta luta manter-se-á sempre válido. Mas o uso destas substâncias deu entretanto lugar a abusos deploráveis. O homem, convencido das vantagens das suas descobertas e da sua técnica, acreditou que podia espalhar em profusão estes produtos na natureza e assim eliminar sem riscos e de maneira definitiva todos os predadores. Trata-se no entanto de venenos violentos, susceptíveis de provocar graves rupturas de equilíbrios ao eliminarem cegamente todos os insectos. De facto, os insecticidas conhecidos actualmente não são selectivos na sua quase totalidade e matam de forma mais ou menos indiscriminada todos os insectos, os úteis e os considerados prejudiciais. Ainda por cima, a sua acção ultrapassa bastante a classe dos insectos pois na sua maioria são também prejudiciais a outros animais, em particular os vertebrados de sangue frio e mesmo os mamíferos e as aves. São igualmente tóxicos para o homem, e se há poucos casos de acidentes mortais, não temos informação precisa sobre a sua acção e os seus efeitos patogénicos a longo prazo.

O maior perigo consiste numa concentração das substâncias tóxicas ao longo das cadeias alimentares. Nem sempre há contacto directo da vítima com o pesticida; este é absorvido por um ser vivo em cujo organismo se concentra sem que se verifiquem alterações notórias em virtude de uma forte resistência específica; em seguida, passa para o corpo de um outro animal, predador do primeiro, que pode desta vez intoxicar se aquele for sensível às doses ingeridas. E assim chega à ingestão pelo próprio homem, causando-lhe obviamente todos os danos para a saúde que um veneno pode causar.

A existência de uma população importante de insectos parasitas das plantas cultivadas é acompanhada necessariamente pela de insectos predadores que contribuem, de forma importante, para a sua limitação e controle. Ora, os tratamentos químicos com produtos ditos de síntese, com efeitos persistentes, têm como consequências matar estes aliados do homem ao mesmo tempo que matam os insectos parasitas.

Desde que são utilizados os insecticidas na luta contra os parasitas das culturas, apercebemo-nos que os insectos se tornam, pouco a pouco, cada vez mais insensíveis aos seus efeitos tóxicos e assim cada vez mais imunes a esses efeitos. Progressivamente estas observações generalizaram-se em todo o mundo, com um número crescente de insectos, alguns dos quais perigosos vectores de graves doenças (como o paludismo, a febre amarela e outras) que, ao mesmo tempo, recrudesceram em quantidade e intensidade.

Foram então utilizados outros insecticidas para se conseguir o controle das epidemias. Mas o que aconteceu foi que a cada utilização de uma nova arma química seguia-se, em muitos casos, uma nova defesa do insecto. Esta invulnerabilidade crescente baseia-se num mecanismo de selecção de mutantes resistentes, pré-existentes e pré-adaptados. Certas estirpes são naturalmente imunizadas contra um produto tóxico determinado e são os respectivos descendentes que, pouco a pouco, substituem a população inicial.

Os animais não são os únicos a sofrer pelo abuso de produtos sintéticos na luta contra os inimigos das culturas. O uso de substâncias químicas qualificadas de herbicidas, destinadas a suprimir um grande número de “ervas daninhas” – termo que designa as plantas parasitas ou competitivas das plantas cultivadas - também é responsável pela destruição de comunidades vegetais e pelo desaparecimento de certas espécies particulares.

Convém portanto tomar rapidamente medidas estritas contra o abuso dos produtos tóxicos utilizados na luta anti-parasitária. E um dos primeiros a preconizar e a desenvolver é sem dúvida a luta biológica, que consiste em destruir os insectos parasitas e prejudiciais para as culturas através da utilização racional dos seus inimigos naturais, entre outras medidas. A chamada agricultura biológica, de que se falará num outro “Periscópio” é já uma realidade e ganha cada vez mais adeptos e mais consistência pelo que representa ao nível da qualidade dos produtos e consequentemente da saúde de todos nós.

Dina La-Salette


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