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01/07/07

DESILUDE-TE A TI MESMO


Vista aérea do Santuário de Delfos

Todas as emoções com que reagimos ao mundo são originadas pelo grau de conhecimento que dispomos sobre a realidade. E, normalmente, reagimos num estado de ilusão, pois, o grau de conhecimento que dispomos nem sempre coincide com a realidade. O desfazer da ilusão dá-se através da permanente observação, não só do exterior mas também do nosso próprio interior, do estudo, da procura da realidade. Por isso, não devemos ficar tristes quando nos desiludimos, pois esse é o caminho da verdade.

No pórtico do templo de Delfos estava escrita uma frase que dizia “Conhece-te a ti mesmo”. Era o que Sócrates ensinava aos seus discípulos e que alguém traduziu por “desilude-te em relação a ti mesmo.”

Vem isto a propósito das ilusões que dominam os nossos pensamentos, as nossas preocupações e angústias, e que, de acordo com as nossas sensibilidades, nos levam a interpretar e muitas vezes a intervir de forma que não tem em conta a realidade.

A não utilização prolongada de determinado tipo de ferramenta, particularmente aquela que nos permite trabalhar o material social, leva-nos a esquecer as regras da sua utilização e consequentemente a afastar-nos cada vez mais da realidade, isto é, a aprofundar a ilusão. Alguns de nós, na verdade, ignoram a existência desse tipo de ferramentas. Outros abandonaram-nas com receio de no caminho encontrarem a desilusão.

As principais preocupações que moldam o pensamento da generalidade das pessoas têm a ver com a vida doméstica e profissional. Para além destas preocupações, existem outras, de vária natureza, veiculadas pelos meios de comunicação, que nos colocam num estado de ilusão. Obviamente que os meios de comunicação são instrumentos que veiculam os valores e interesses de quem os domina e, como tal, tudo farão para atingirem os seus objectivos. Na ilusão, pensamos que temos pensamentos muito livres, muito críticos e muito independentes sobre temas que, não deixando de ser importantes, nos são impostos como estando na ordem do dia.

Durante cinquenta anos não existiram situações de guerra na Europa. Provavelmente, foi o período mais longo de paz que alguma vez existiu neste continente, com excepção de alguns focos na Espanha, Irlanda e nalgumas ilhas mediterrânicas. Entretanto a Jugoslávia foi desmembrada e toda a sua estrutura económica e social destruída. O seu território foi ocupado por milhares de soldados estrangeiros, cujo número, a breve prazo, vai aumentar. Muitos soldados portugueses fazem parte dessas tropas de ocupação.

No Médio Oriente é destruído totalmente um país, centenas e centenas de milhares de pessoas são mortas e estropiadas. Inicialmente, acompanhamos directamente os bombardeamentos em nossas casas com a mesma disponibilidade com que acompanhamos um filme de acção ou até um jogo de futebol. E dividimos as nossas opiniões de acordo com a ilusão com que nos encontrávamos. Entretanto, o número de militares mortos das tropas de ocupação já ultrapassou muito o número de pessoas mortas nos ataques terroristas em Nova York e nos outros locais dos USA. O número de mercenários mortos ao serviço das tropas de ocupação, contabilizados como civis, é muitos milhares. Muitos portugueses fazem parte das tropas de ocupação. Com o tempo e, sobretudo, com a resistência, a nossa ilusão foi-se transformando. Agora preocupamo-nos com a morte dos civis e o problema das mulheres e das crianças. Iludidos, não conseguimos ver a realidade.

É o caso do Darfur. Tantas preocupações com aquelas populações. A fome e a miséria alastram a olhos de ver. É o que nos diz aquele santo homem, português, responsável pelos refugiados da ONU, de corpo tão gordo por tanto comer. Mal sabemos localizar aquele território no mapa mas preocupamo-nos com o problema das suas mulheres e das suas crianças, mas só a partir do momento em que passou a haver resistência à entrada de tropas de ocupação. Iludidos, não conseguimos ver a realidade.

Aproximam-se tempos dramáticos para a Humanidade, pelo desespero em desenvolvimento em que se encontram os senhores do mundo, não só pelos dos ajustes imperialistas mas também e sobretudo pela a ascensão da luta contra a exploração e a tirania. Iludidos, não conseguimos ver a realidade.

Milhares de jovens portugueses abandonam o ensino e tentam entrar no mercado de trabalho, sem quaisquer regras e sem quaisquer direitos e muitas vezes sem salário, tanto no país como no estrangeiro ou enveredam pela marginalidade tão docemente alimentada pelos valores que entram diariamente na nossa casa. As estruturas da economia, da justiça, da saúde, do ensino, de apoios à infância e à terceira idade, são roubadas ou destruídas, por bandos de malfeitores. Iludidos, não conseguimos ver a realidade.

Com ilusão, sem procurar encontrar a realidade através dos caminhos da solidariedade e de identificação de interesses, questionamos e discutimos os fracassos das lutas das vítimas destas monstruosidades.

É preciso aprender, aprender, aprender, sempre, o que Sócrates ensinou: “Desilude-te em relação a ti mesmo “.

MJ

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O "FRANCHISING" DA INÉRCIA


Um dos pontos fracos mais indiscutíveis do nosso país, tal como o viu, por exemplo, António Barreto nesse excelente "Portugal - Um retrato social", apresentado na RTP1, é o seu sistema judicial.

A justiça é lenta e cara.

É evidente que por essas duas características ela se nega a si mesma. Porque ou não se chega a exercer, deixando o tempo "resolver" as situações, ou se exerce tarde de mais, quando já mudou todo o contexto do crime.

Nuremberga é um contra-exemplo da justiça porque foi preciso ganhar uma guerra para que esse tribunal se reunisse, tendo tudo mudado, entretanto: as vítimas tinham desaparecido e os principais carrascos evitado a corda pelo suicídio. Por isso Nuremberga foi antes um ajuste de contas simbólico, uma catarse.

Não podemos esperar pelo fim de uma guerra contra o que paralisa a justiça.

O ideal da justiça sugere-nos, por um lado, a acção do raio, que judiciosamente se encontrava nas mãos do pai dos deuses. Mas conhecemos os custos humanos de uma justiça expedita, senão sumária. Não é a prudência, contudo, que emperra esta máquina judicial.

Por outro lado, sendo cara, não está ao alcance de todos. E mais uma vez se renega.

Contudo, este sistema ineficiente quanto à sua própria finalidade e devorador de recursos e energias tem dado mostras, ao mesmo tempo, de não estar emperrado para todo e qualquer fim. Veja-se o que diz Miguel Sousa Tavares (Expresso de 26/3/2007):

"Primeiro temos essa moda recente do uso e abuso das providências cautelares, a propósito de tudo e de mais alguma coisa. Os autarcas não gostam da nova Lei de Finanças Regionais? Providência cautelar. O ministério da Saúde fecha uma maternidade e a população está contra? Providência cautelar. Os alunos que já prestaram provas não são admitidos a nova e excepcional época de exames? Providência cautelar. Os sindicatos da função publica estão contra as novas regras a aplicar aos contratados? Providência cautelar. Uma companhia de teatro viu-lhe recusada a atribuição de um subsídio a que concorrera? Providência cautelar. E por aí fora, com especial destaque para quase todos os concursos públicos de empreitadas ou fornecimentos ao Estado, que invariavelmente acabam com providências cautelares dos vencidos."

Então, temos que através de figuras como a da providência cautelar, sem dúvida pontualmente justificada, essa mesma máquina é capaz de intervir na vida do país, dando mostras de uma inesperada agilidade, ao sabor dos vários interesses e sempre que estes se julgam atingidos. Algumas alavancas da engrenagem funcionam e a uma velocidade tal que levaria o seu coração burocrático a uma paragem fatal se acaso se empenhasse na sua missão central.

Quer dizer, que enquanto a justiça tem de ser adiada por forças aparentemente inexpugnáveis, a grande máquina nem por isso é inútil, como arma para emperrar, já não dentro da justiça, mas no seu exterior, toda e qualquer decisão, seja ela de um governo, de uma empresa ou de um sindicato.

A providência cautelar revelou, assim, um rendimento perverso. Não é preciso dominar o sistema judicial. A máquina pode ser simplesmente desviada da função principal de fazer justiça e franchisada na produção de inércia.

Ora, este é de facto um caminho de politização da justiça que representa uma ameaça para a democracia.

António Mesquita

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VÊM AÍ OS TURCOS?



Cerco de Nice pelos Turcos em 1543

Nicolas Sarkozi, o recém-eleito presidente da república francesa, no grande tele-debate eleitoral com Segoléne Royal, é peremptório:

- Eu sou contra a adesão da Turquia à União Europeia, porque aquele país pertence à Ásia Menor e não à Europa, porque não vamos agora ensinar na escola que a Europa faz fronteira com o Iraque e a Síria, porque defendo uma Europa política. E qual é a posição da Madame Royal?

- Bem, há um processo de adesão em curso…se a Turquia cumprir os requisitos…

No mesmo sentido de Sarkozi, embora antes dele, Philippe Nemo, num pequeno mas estimulante livro* de ideias fortes, não só sustenta que a Turquia não deve fazer parte da União Europeia, como considera ter sido um erro a entrada da Bulgária e da Roménia, e vai mesmo mais longe, ao classificar a União Europeia de falsa boa ideia. Segundo Nemo, o que devia ser construído era uma União Ocidental que agrupasse num sistema confederal os países da Europa Ocidental, da América do Norte e da Austrália.

É difícil não concordar com Sarkozi e Nemo (e com Valérie Giscard d’Estaing, o coordenador da falhada constituição europeia), sem pôr em causa a perspectiva tradicional de valorizar, acima dos direitos e interesses comuns dos seres humanos, a função divisora das civilizações, culturas, religiões, geografia, raças, nações, países…

De facto, apenas uma pequena parte do território turco pertence à Europa, a religião muçulmana é largamente predominante, e é conhecida a importância da vitória de 1529, em Viena, sobre o exército turco, na consagração da civilização ocidental e cristã.

Sob o peso do passado histórico, não podemos realmente deixar de sentir o carácter algo artificial e forçado de uma eventual entrada da Turquia na União Europeia, mesmo sem esquecer as relações comerciais existentes, os fluxos migratórios e a sua participação na Nato e em estruturas políticas europeias.

Mas a História e a tradição não podem ser as únicas conselheiras. Vivemos hoje um tempo sem igual, em que o avanço das comunicações tornou o mundo a casa de cada um. O desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos anos empurra-nos para uma nova visão. Como diz Michio Kaku **, “Tal como a prensa tipográfica de Gutenberg tornou as pessoas conscientes da existência de mundos para lá da sua aldeia ou choupana, a revolução da informação está a construir e a forjar uma cultura planetária comum baseada em milhares de pequenas culturas”.

Nesta nova visão, todos os seres humanos, todos os povos, devem ter iguais oportunidades de desenvolvimento e, por essa via, de acederem ao bem-estar facultado por cada época, apesar da sua cultura, religião, raça ou situação geográfica.

Naturalmente que essa livre convivência tem que ser regulada por um consenso político assente em regras claras e confiáveis, como a separação entre Estado e Religião, a igualdade sexual, as liberdades políticas, intelectuais e artísticas, o sufrágio universal, a subordinação do exército ao poder político, a divisão de poderes…

Dependendo do êxito do seu progressivo alargamento e do aprofundamento da sua unidade, a União Europeia poderá constituir-se, assim, numa espécie de ensaio do que poderá ser o governo mundial do futuro.

Quem diria que os “eurocratas de Bruxelas” estariam, objectivamente, no bom caminho?

Mário Martins

* O que é o Ocidente?, Edições 70, 2005.

** Visões, Editorial Bizâncio, 1997.

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